Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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Foi em meio à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) que o educador Thiago Torres, conhecido como Chavoso da USP, percebeu que sua conta no Instagram havia sido excluída.

O perfil, com mais de 1 milhão de seguidores, é, segundo o cientista social, um de seus instrumentos de trabalho. “A exclusão de um perfil no Instagram como o meu, um perfil grande e relevante, é como a demissão de um trabalhador sem justificativa. O Instagram era minha principal rede social, minha principal ferramenta de trabalho”.

Na plataforma, apagada em 18 de novembro, Torres realizava um trabalho educativo e social, pautado em questões raciais, sociais e educacionais. A exclusão da conta ocorreu em meio aos principais vestibulares, impactando o público-alvo do influenciador. “Foi prejudicial para mim e para o meu público neste período, que é o principal dos vestibulares. Minha conta foi derrubada no exato dia do Exame Nacional do Ensino Médico (Enem)”.

Ele caracteriza a situação, que se arrasta até hoje, como “uma ofensiva da empresa contra vozes de esquerda progressista, principalmente radical”. Na visão dele, a tendência “é piorar”.

De forma vaga, a Meta, empresa que engloba o Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp, cujo dono é Mark Zuckerberg, justificou que estaria excluindo a conta por não seguir os “padrões da comunidade”. Diante disso, Chavoso questiona: “o que supostamente teria violado esses termos?”.

Como forma de continuar se comunicando com o seu público, Torres passou a fazer publicações em seu perfil reserva, ativo há três anos. Entretanto, o canal também foi desativado pela big tech. “Essa conta, no primeiro momento, estava com cerca de 270 mil seguidores. Em 24 horas, o número saltou para 380 mil, mas, em cerca de 48 horas, o Instagram derrubou essa conta reserva também”.

Ao todo, quatro perfis do influenciador já foram derrubados: além de três perfis pessoais, uma conta chamada “Fim da PM”, dedicada a denúncias de violência policial, também foi desabilitada. “A gente solicitou todas essas revisões na Justiça e, por enquanto, não tivemos um resultado”.

Impedido de comentar sobre a COP30, da qual estava participando, Torres também foi impossibilitado de falar sobre o Dia da Consciência Negra e de divulgar palestras que foram feitas em Manaus. Chavoso lembra de outros influenciadores de esquerda que passaram pela mesma situação. “A gente viu o Instagram do Jones Manoel derrubado, o do Tiago Santineli também. No mesmo dia em que o meu perfil foi derrubado, eu vi outros dois perfis de pessoas de esquerda derrubados também”.

Ele avalia que a desabilitação de seus perfis reforçou a necessidade da regulamentação das plataformas digitais. “Inclusive é uma relação trabalhista muito típica: a produção de conteúdo nas redes sociais é um trabalho, e o Instagram é uma empresa que tem donos, que têm CEO, que tem executivos que lucram muito em cima dessas redes sociais e a partir da produção de conteúdo”.

Em outubro deste ano, o humorista Tiago Santineli também teve a sua conta do Instagram suspensa. O perfil acumulava 850 mil seguidores e foi criado em 2013. Desde então, ele tenta recuperar a página. Ele conta que essa deve ser a quarta vez que a conta é derrubada. “Acontece com todas as plataformas. Caiu duas vezes este mês. A gente não tem nenhum controle”.

Na visão do artista, a conduta da Meta é uma tentativa de censura. “Meu trabalho é ilustrar o que eu vejo de errado no mundo, e eu faço isso com graça e maestria. Eles não suportam a minha liberdade de expressão, é isso. A rede já está infestada e os donos são nazistas. É sempre questão de tempo”.

Ainda assim, ele se recusa a desistir de atuar nas plataformas. “Precisamos ocupar todos os espaços, e o Instagram é uma plataforma gigantesca. Estou mais uma vez tentando recuperar, e meus advogados estão tomando providências”.

Ver | Meta derruba Instagram e Facebook de Jones Manoel; youtuber vê ‘motivações políticas’

Situação semelhante à de Santineli e do Chavoso da USP ocorreu com a historiadora Bruna Santiago, doutoranda em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que teve três perfis desativados simultaneamente. A acadêmica, que também trabalha com produção de conteúdos eróticos, avalia que a desativação de seu perfil tem relação com a sua própria exposição.

Ela diz que o primeiro perfil pessoal derrubado era pequeno, com cerca de 2 mil seguidores. A página foi acusada de não seguir as normas e diretrizes da plataforma por ter conteúdo de cunho sexual. “Esse perfil nunca havia sido notificado por violar nenhuma norma. Era um perfil onde eu postava fotos minhas, e acredito que a exclusão se deu pelo fato de eu ser trabalhadora sexual”, conta.

Essa exclusão acarretou na desativação de dois outros perfis: o @leituraspretas, que tinha 39,6 mil seguidores, e o @gelen, que era o perfil do Grupo de Estudos Literários em Escrituras Negras.

Ambas as páginas faziam parte do projeto de educação antirracista que ela construiu durante a graduação em História e que há seis anos vinha discutindo o antirracismo de uma maneira didática e oferecendo orientações de trabalhos de conclusão de curso (TCC) e projetos de mestrado para jovens negros. “O argumento deles foi que meus perfis eram associados a uma conta já banida e estavam infringindo as leis da plataforma”, revela.

Para ela, a perseguição e o silenciamento são palpáveis. “Há mais de um ano, trabalhadoras sexuais progressistas e pesquisadoras da área de Estudos do Trabalho Sexual se organizaram para denunciar a forma como a Meta bania seus conteúdos e contas. Falar sobre o tema com o mínimo de compromisso e dignidade era posto como um ato violador de normas da plataforma”, denuncia.

A misoginia, segundo ela, limitou o apoio de personalidades de outras pessoas do campo progressista. “Infelizmente, devido à forte misoginia, as ações que empreendemos tiveram pouco apoio dentro do campo progressista. No entanto, sabíamos que essas medidas arbitrárias seriam aplicadas a todos e todas, e é o que vemos hoje”.

Ver | ‘Israel tem funcionária na Meta acusada de censurar post pró-Palestina’, diz Intercept

Banir uma pessoa da plataforma é um modo de excluir do círculo das redes seus projetos e ideais, avalia ela. “Para mim, a principal motivação é criar uma rede com menos discussões políticas e sociais progressistas. Hoje, as redes são uma grande ferramenta de mobilização. Retirar militantes é cortar essa possibilidade de partilha e criação de vínculos para a ação política que a rede proporciona”.

A desativação de seu perfil no Instagram vem prejudicando o seu trabalho de manter ativo o grupo de estudos. “O Leituras Pretas é um projeto que foi todo pensado para existir dentro das redes. Através dele, todo ano eu atendia dezenas de alunos, além de manter o grupo de estudos que mensalmente promovia um encontro para estudarmos autores negros, tudo de forma gratuita”.

Como o trabalho é voluntário, ela vê que uma das principais perdas foi a rede de contato intelectual. Uma vez que, através do Instagram, ela estabeleceu parcerias, criou projetos e manteve um bom diálogo com o público. “Além disso, é como se a gente perdesse nosso grande portfólio. Foram deletadas fotos, vídeos, meu trabalho intelectual. Sou palestrante e, infelizmente, as redes sociais seguem sendo uma parte do nosso currículo, e no meu caso, não existe mais”.

O grupo de estudos cumpre uma função social direta, relata. Organizando ações e projetos nas comunidades, o perfil entrava no portfólio como um produto quando buscamos editais. “É como se todo um trabalho de seis anos não tivesse credibilidade por não haver o registro online, e isso afeta diretamente em editais e propostas de trabalho”.

Para ela, é curioso o fato de que seu perfil caiu no início de julho de 2025, na mesma semana em que recebeu uma menção honrosa na categoria Produto de Editoração e Comunicação do Prêmio ANPUH – Ori Beatriz Nascimento, promovido pela Associação Nacional de História. “No dia em que recebi em mãos o certificado em uma cerimônia reconhecendo a importância do projeto a nível nacional, ele já não existia mais. Atualmente, estou com um processo jurídico em andamento, mas há muita resistência da plataforma”, lamenta.

Thiago Torres, o ‘Chavoso da USP’, Tiago Santineli e Bruna Santiago tiveram suas contas suspensas em plataformas da Meta
Reprodução / Instagram

Meta se recusa a responder questões

A reportagem enviou questões à Meta sobre quais critérios específicos são utilizados para identificar e remover perfis por suposta violação das Diretrizes da Comunidade, bem como com relação a eventual realização de auditorias internas para verificar se suas políticas estão sendo aplicadas de forma politicamente neutra. Outro questionamento é sobre a justificativa objetiva da sanção, já que muitos criadores relatam receber apenas mensagens genéricas ao terem contas suspensas ou conteúdos derrubados, sem indicação precisa da violação.

Também foi questionado se os processos de moderação que levaram à derrubada desses perfis foram automatizados e, em caso positivo, quais salvaguardas existem para evitar falsos positivos. Em resposta, a empresa disse apenas que “não irá comentar”.

Compromisso das empresas com o neoliberalismo

Flávia Lefèvre Guimarães, advogada especializada em direito do consumidor e direitos digitais, classifica as situações relatadas como “opacas” à moderação dos conteúdos pela Meta e demais big techs nas plataformas digitais.

Questionada se é possível definir essas situações como censura, ela avalia que esse termo pode ser aplicado. “Sim, as big techs, não só a Meta, sempre calibraram seus sistemas algorítmicos de moderação de conteúdos, recomendação e impulsionamento de conteúdos de forma muito opaca”.

Na visão dela, não há imparcialidade dentro das grandes empresas de tecnologia. “O compromisso dessas empresas com os interesses neoliberais ficou evidente de forma incontestável com a já famosa foto da posse do Trump, com os representantes dessas empresas presentes e tendo apoiado de forma maciça a campanha dele”.

Em janeiro, Zuckerberg afirmou que promete “trabalhar” com o presidente eleito nos Estados Unidos, Donald Trump. O CEO do conglomerado de redes sociais afirmou que irá ajudar o governo trumpista “a pressionar governos ao redor do mundo que estão perseguindo empresas americanas e pressionando para censurar mais”.

Diante disso, a regulamentação das redes sociais poderia romper com esse tipo de conduta promovido pelas plataformas digitais, afirma Lefèvre. “Certamente poderia. O PL 2630/2020, que, com o apoio do Arthur Lira, conseguiram enterrar, trazia uma série de dispositivos impondo obrigações de informação e transparência e rotulagem, contra as quais as big techs sempre resistiram”.

Regulamentação das redes sociais poderia limitar suspensões

Proposto pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), em maio de 2020, e aprovado pelo Senado no mesmo ano, o PL 2630 foi retirado de pauta em maio de 2023, após forte pressão das big techs para modificar o projeto e retirar, por exemplo, a obrigação das plataformas de divulgar relatórios de publicidade e dar aos usuários o direito de recorrer da remoção de contas.

Conhecido como PL das Fake News, propõe um conjunto de medidas de responsabilidade e transparência para redes sociais, além da proteção de crianças na internet e inteligência artificial.

Intervenções como a responsabilização por conteúdo de terceiros, a nacionalização de contratos de publicidade, a responsabilidade solidária dos provedores de anúncios por propaganda enganosa, a produção de relatórios de transparência e o pagamento pelo uso de conteúdo jornalístico eram inaceitáveis para as empresas tecnológicas.

O projeto aponta que, no caso de as plataformas digitais excluírem uma conta, é preciso, entre outras coisas: notificar o usuário sobre a fundamentação específica, que deve necessariamente apontar a cláusula aplicada de seus termos ou políticas de uso ou a base legal para a aplicação, além de explicitar o conteúdo ou a conta que deu causa à decisão; informar se a decisão foi tomada exclusivamente por meio de sistemas automatizados e fornecer informações precisas e adequadas a respeito dos critérios e dos procedimentos utilizados para a decisão.