Oito minutos cronometrados foram suficientes para que criminosos experientes invadissem o Museu do Louvre, em Paris, e levassem joias da coroa francesa de valor histórico incalculável. O roubo, ocorrido na manhã de domingo (19/10), expôs falhas graves na segurança dos museus franceses e provocou uma reação imediata do governo, que prometeu reformas estruturais e reforço na proteção do patrimônio cultural.
O Museu do Louvre, o mais visitado do mundo, permanece fechado pelo segundo dia consecutivo após um roubo cinematográfico. Quatro criminosos mascarados invadiram a Galeria Apolo, que abriga as joias da coroa francesa, utilizando um guindaste e um elevador de carga para acessar o primeiro andar do prédio. Com motosserras, quebraram vitrines de alta segurança e fugiram em motocicletas, levando oito peças do século XIX — entre elas tiaras, colares e brincos de diamantes, esmeraldas e safiras.
A operação durou apenas oito minutos e não deixou feridos, mas causou enorme repercussão internacional. Uma das joias, a coroa da imperatriz Eugênia, foi encontrada danificada nas imediações do museu.
A promotora de Paris, Laure Beccuau, afirmou que os autores podem ter agido a mando de um colecionador ou com o objetivo de desmontar as peças para lavagem de dinheiro. Segundo especialistas, as joias são praticamente impossíveis de revender em seu estado atual.
O presidente francês, Emmanuel Macron, classificou o roubo como um “ataque ao patrimônio histórico” do país e prometeu que os responsáveis serão levados à Justiça. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, reconheceu falhas graves na segurança e disse que o episódio projeta uma imagem “deplorável” da França. A ministra da Cultura, Rachida Dati, afirmou que o crime foi “profissional e silencioso”, e que há décadas os museus franceses enfrentam negligência em investimentos na segurança.
Em um pré-relatório consultado pela AFP nesta segunda-feira, o Tribunal de Contas da França — órgão responsável por fiscalizar o uso de recursos públicos — já criticava, antes mesmo do roubo, o “atraso persistente” do Museu do Louvre na implementação de equipamentos de segurança para proteger seu acervo.
A presidente do museu, Laurence Des Cars, será convocada a prestar esclarecimentos. Ela será ouvida nesta quarta-feira (22/10) pela Comissão de Assuntos Culturais do Senado francês, segundo o presidente da comissão, Laurent Lafon, que afirmou querer “explicações após o roubo”.
A investigação mobiliza cerca de 60 agentes da Brigada de Repressão ao Banditismo e do Escritório Central de Combate ao Tráfico de Bens Culturais. Imagens de câmeras de segurança e vídeos feitos por visitantes estão sendo analisados. Um dos suspeitos aparece usando um colete amarelo, já apreendido pela polícia.

O roubo reacendeu o debate sobre a vulnerabilidade dos museus franceses. O relatório do Tribunal de Contas, ainda não publicado oficialmente, aponta que 75% das salas da ala Richelieu e 60% da ala Sully não possuem câmeras de vigilância. Além disso, o Louvre perdeu 200 agentes de segurança nos últimos 15 anos, enquanto o número de visitantes aumentou em 50%.
O governo francês anunciou uma revisão urgente dos protocolos de segurança em todos os museus do país. A CGT Cultura, sindicato que representa trabalhadores do setor, exige o reforço imediato de pessoal e investimentos em tecnologia. O projeto “Louvre Nouvelle Renaissance”, lançado em janeiro, prevê reformas avaliadas entre € 700 e 800 milhões ao longo de uma década, mas apenas uma parte será financiada pelo Estado.
Enquanto isso, o museu segue fechado, sem previsão de reabertura. Visitantes que haviam comprado ingressos estão sendo reembolsados. A cena do crime permanece isolada para perícia, e a busca pelos criminosos continua.
Antes do roubo das joias da coroa francesa no Louvre, outros museus ao redor do mundo já haviam sido alvo de furtos espetaculares. Em 1911, a Mona Lisa foi levada por um vitreiro italiano que havia trabalhado no museu e manteve a obra escondida por dois anos. Em 1972, o Museu de Belas Artes de Montreal perdeu 18 pinturas e dezenas de joias em um assalto armado — a maioria das peças nunca foi recuperada. Já em 1990, o Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, foi enganado por falsos policiais que roubaram 13 obras de mestres como Rembrandt e Vermeer, num prejuízo estimado em meio bilhão de dólares.
Em 2003, o museu de Viena perdeu a peça renascentista, O Saleiro, de Benvenuto Cellini, avaliada em mais de € 50 milhões, recuperada três anos depois enterrada numa floresta. No Museu Munch, em Oslo, dois homens armados roubaram em 2004 os quadros O Grito e A Madona em plena luz do dia, diante de visitantes. As obras foram encontradas danificadas dois anos depois. Em 2010, o Museu de Arte Moderna de Paris teve cinco obras de Picasso, Matisse e outros artistas furtadas após falhas nos sensores de movimento — nenhuma delas foi recuperada.
Mais recentemente, em 2019, o museu Grünes Gewölbe, em Dresden, na Alemanha, foi invadido por um grupo ligado a um clã criminoso de Berlim, que levou joias do século XVIII avaliadas em mais de € 113 milhões. Parte do acervo foi devolvida após acordos judiciais, mas algumas peças estavam danificadas ou incompletas. Esses episódios mostram que, apesar de avanços tecnológicos, museus continuam vulneráveis a ações ousadas e bem planejadas — como a que, em apenas oito minutos, mudou para sempre a história do Louvre.
No dia seguinte ao roubo das joias da coroa francesa no Museu do Louvre, o Ministério da Cultura da Itália anunciou o desenvolvimento de sistemas de segurança baseados em inteligência artificial (IA), capazes de identificar comportamentos suspeitos em torno de obras de valor inestimável. Em comunicado oficial, o governo italiano afirmou que “a proteção do patrimônio cultural passou a ser uma prioridade absoluta”, embora não tenha mencionado diretamente o furto em Paris.
A iniciativa envolve dois grandes projetos experimentais voltados ao patrimônio arqueológico, financiados por mais de € 70 milhões em recursos da União Europeia. Os sistemas utilizarão IA, análise de big data e ferramentas de cibersegurança para aprimorar a vigilância e a prevenção de crimes em museus e sítios históricos.
Segundo o ministério, os novos sistemas serão capazes de realizar análises de vídeo inteligentes, detectar movimentos e comportamentos anormais com alta precisão e emitir alertas preditivos em tempo real, respeitando as normas de privacidade. A medida foi anunciada poucas horas após o “roubo do século” no Louvre.