Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Desde uma caminhada romântica no Parque Ibirapuera de São Paulo, sussurros de famosas frases de k-dramas a momentos mais íntimos com um “oppa” , ou melhor, um sul-coreano, eram alguns dos serviços vendidos pelo site de encontros Kdramadate.

O portal prometia proporcionar encontros com homens sul-coreanos ao estilo das novelas do país asiático oferecendo pacotes precificados em atividades diversas. A depender do tempo de “aluguel”, os valores variavam entre R$ 70,00 e R$ 170,00, tendo de ser pagos via PIX, cartão de crédito, débito ou transferência bancária.

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No entanto, tratava-se de uma suspeita de golpe. Ou pelo menos, esta é a principal linha de investigação alcançada a partir das provas colhidas ao longo de semanas, já que nenhuma vítima concreta se manifestou diretamente. Após as denúncias da Associação Brasileira de Coreanos e do Consulado Geral da República da Coreia do Sul, o site saiu do ar.

Reprodução/Associação Brasileira dos Coreanos

A Opera Mundi, o presidente da Associação Brasileira de Coreanos, Bruno Kim, afirmou que as primeiras denúncias chegaram em 22 de outubro, com internautas e fãs da cultura asiática enviando prints do portal e de conversas em que o suposto golpista, até o momento não identificado, respondia aos chamados. 

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“Não temos nenhuma vítima, só que a situação levanta suspeitas, a questão da exploração da cultura para atrair pessoas. Todos esses sinais levam à suspeita do golpe. A gente, a própria polícia, os jornais, os meios de comunicação, todos entraram em contato com Whatsapp [do serviço], e ninguém respondeu. Só que antes, esse Whatsapp era funcional. Antes dos meios de comunicação entrarem em contato, havia resposta, inclusive, oferecendo os serviços”, disse.

A equipe investigadora, que inclui o advogado criminal do consulado Rafael Kang, chegou a verificar o endereço divulgado pelo Kdramadate como sendo a sua sede. Quando foram ao local, no bairro da Liberdade, depararam-se com o Centro Cultural de Hiroshima. Alertando sobre o uso indevido da localização, o instituto prontamente emitiu uma notificação extrajudicial para o e-mail que constava no site de encontros.

“E aí responderam dizendo que iam mudar [o endereço], e realmente mudaram. Então, tinha alguém atrás do e-mail e do Whatsapp”, disse Kim, acrescentando que a investigação de dividiu em duas hipóteses. “Ou o sujeito estava querendo pegar o dinheiro das ‘senhoras dorameiras’. Entre aspas. […] ou era o golpe do Tinder, o golpe do amor”.

Feitas as apurações preliminares, em 31 de outubro, o consulado publicou um comunicado declarando que não poderia de pronto concluir que se tratasse, de fato, de um golpe ou estelionato, mas que envolvia um possível crime de exploração sexual. A reportagem também obteve relatos de que nesse mesmo período números desconhecidos passaram a entrar em contato com homens sul-coreanos que residem em São Paulo ofertando serviços noturnos. No entanto, todos recusaram.

Opera Mundi também tentou contato com o Kdramadate, mas não obteve resposta. Contudo, pelo seu aplicativo de comunicação, o serviço ainda consta como tendo as suas atividades ativas e segue fornecendo dois tipos de pacote:

  1. “Romance no Parque”, que inicialmente custava R$ 110,00 mas com uma promoção passou a valer R$ 70,00, inclui uma caminhada pelo Parque Ibirapuera “em clima de date”, “parada estratégica em bancos icônicos para sessão de fotos” e “‘Oppa’ sussurra frases de doramas famosos”.
  2. “Sweet Oppa Café Tour”, que também passou de R$ 110,00 para R$ 70,00, conta com um passeio por duas a três cafeterias coreanas pelo bairro do Bom Retiro, degustação de tteokbokki (prato que consiste em massinhas de arroz refogadas ao molho apimentado) e bingsu (raspadinha), além de uma sessão de fotos “estilo dorama para Instagram/TikTok”.

Antes de sair do ar, o site também oferecia uma categoria de serviços íntimos. A reportagem obteve prints de conversas de Whatsapp compartilhados por usuários da plataforma em que aparentam consultar os detalhes do pacote em questão.

Reprodução/Associação Brasileira dos Coreanos

O presidente da Associação Brasileira dos Coreanos também apontou o fato de que os homens sul-coreanos retratados em imagens no site eram irreais, sendo suas figuras criadas por meio da tecnologia de inteligência artificial. Por outro lado, algumas das fotos inseridas na página não eram falsas, e sim “antigas”, de acordo com internautas da rede social X que verificaram a reutilização indevida de imagens de outras plataformas. 

Reprodução/Associação Brasileira dos Coreanos

“Estavam simplesmente utilizando termos, situações, conceitos relacionados à Coreia [do Sul] para atrair vítimas. Me aparece lá um camarada: ‘Ai, eu quero ser seu oppa’. E aí coloca um monte de fotos da Coreia [do Sul], fotos de, entre aspas, um coreano. É essa questão da cultura coreana ser utilizada como isca para atrair vítimas. Isso incomodou bastante muitas pessoas que ficaram sabendo da situação, inclusive os coreanos”, acrescentou a liderança.

(*) “Oppa” é utilizado por mulheres quando se referem a homens mais velhos (sejam irmãos, namorados ou amigos), mas o termo se popularizou entre a comunidade de fãs da cultura sul-coreana para se referir a homens considerados de boa aparência, com conotação romântica.