Philip Roth: um escritor aberto ao outro

Aos poucos, a geração de escritores que me formou e que foi decisiva na minha opção por estudar a literatura contemporânea vai terminando; e eu vou ficando cada vez menos contemporâneo

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Nos últimos dias, Nicole Krauss publicou um texto bonito na New Yorker no qual conta como, a partir de uma carta difícil, se aproximou de Philip Roth

Eu estive em 2015 por duas semanas na Biblioteca do Congresso dos EUA para fazer uma pesquisa na imensa correspondência do autor lá depositada: me interessava principalmente o período em que ele estava escrevendo a primeira trilogia Zuckerman. Ali, pude ver como esses contatos de fato faziam parte da vida dele. Era alguém permanentemente aberto ao outro, e as cartas mostram claramente o início e a consolidação de inúmeras amizades. Mas mostram também às vezes um homem duro, principalmente quando qualquer aspecto de sua obra estivesse envolvido, fosse com editores, fosse com tradutores, fosse mesmo com os escolhidos para ler versões prévias de seus textos que falassem algo menos inteligente.


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As minhas mínimas aproximações com Roth foram duas, bem diferentes. Na primeira, nos anos 1990, após uma longa negociação com seu agente, surgiu a chance de entrevistá-lo. Mas era preciso primeiro enviar as perguntas. Depois de quebrar a cabeça para preparar algumas questões num tempo bem reduzido, recebi apenas o aviso de que o escritor não queria dar mais a entrevista.

A segunda aconteceu faz poucos anos, em 2013, quando ele completava 80 anos. Fui a Newark assistir a um congresso dedicado aos seus livros. No primeiro dia acontecia a parte acadêmica; no segundo, uma homenagem a ele. Nessa noite, primeiro alguns convidados subiram ao palco para fazer breves discursos. Por fim, foi a vez de Roth. Depois de alguns agradecimentos e de umas poucas palavras, ele avisou que leria um trecho de um de seus livros. Eu fiquei então meio desapontado, queria ouvi-lo falar mais, mas então ele começou a ler o longo trecho em que o velho protagonista de O Teatro de Sabbath circula pelo cemitério, vendo nomes e datas nas lápides, se lembrando de pessoas, pensando na vida, pensando na morte. Eu não sabia que era possível ler tão bem em voz alta, nem que aquele trecho daquele romance tão impressionante poderia ser ainda mais forte. 

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Nos últimos 20 e poucos anos, escrevi muitos textos sobre os livros de Roth, em jornal, em revistas culturais, em revistas acadêmicas (o último, sobre The counterlife, foi publicado há poucos meses, na revista Matraga, da UERJ). Aos poucos, a geração de escritores que me formou e que foi decisiva na minha opção por estudar a literatura contemporânea vai terminando. E eu, como deve ser sempre inevitável, vou ficando cada vez menos contemporâneo do que resta.

*Adriano Schwartz é professor de literatura contemporânea na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

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