Wikileaks: Impunidade no governo Uribe fortaleceu paramilitares na Colômbia

Wikileaks: Impunidade no governo Uribe fortaleceu paramilitares na Colômbia

Paulo Cesar Monteiro

A Colômbia aprovou, em 2005, a Lei de Justiça e Paz, medida que teve como objetivo acabar com a atuação dos paramilitares devido às inúmeras acusações de assassinato, corrupção e tráfico de drogas. Uma série de documentos publicados pelo Wikileaks, porém, revela os bastidores do processo de julgamentos dos paramilitares e indica as brechas que permitiram a reorganização e a continuidade destes grupos.

O diretor da Comissão Colombiana de Juristas (CCJ), Gustavo Gallon, afirmou que o processo de julgamento dos paramilitares não iria resolver o problema provocado pela AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia), grupo que reunia os paramilitares. A acusação aparece em despacho de abril de 2006, escrito pelo embaixador William Wood.

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“Gallon disse que a política de segurança vai beneficiar somente criminosos e apenas determinados indivíduos, o processo de desmobilização [dos paramilitares] é fraco, 99 % deles não serão punido por seus crimes”, consta na mensagem.

Para Gallon, que fez tais afirmações em um encontro com o senador Jack Reed, a desmobilização dos paramilitares não era algo para ser “levado a sério”. Ele disse que, entre 2002 - ano que em começou o acordo de cessar fogo com o governo - até 2005, os paramilitares “violaram diversos pontos do acordo, incluindo o assassinato de mais de 2.500 pessoas”.

As críticas da CCJ são dirigidas ao governo do então presidente Álvaro Uribe (2002-2010), no qual o atual presidente, Juan Manuel Santos, era ministro da Defesa. Gallon afirma que um decreto assinado por Uribe impede que sejam abertos novos processos judiciais contra os paramilitares desmobilizados. Além disso, aponta que o governo pretende processar “apenas 1% dos 29 mil que se desmobilizaram”.

Wood conclui o despacho dizendo não “concordar muito” com a opinião de Gallon e avalia que a Lei de Paz e Justiça foi aperfeiçoada.

Colômbia preferiu negociar com paramilitares

Um outro despacho com data de junho de 2006 apresenta o relatório de uma conversa entre Sergio Caramagna, da OEA (Organizações dos Estados Americanos), com o embaixador William Wood. Segundo o documento, Caramagna disse à embaixada que nada “havia unido tanto” os líderes da AUC como o julgamento da Lei de Paz e Justiça.

O representante da OEA expõe uma divergência entre Luis Carlos Restrepo, uma das principais forças do partido governista, que foi indicado por Uribe para manter o diálogo com a AUC, e o ministro da Justiça, Sabas Pretelt. O ministro criticou Restrepo por ter oferecido aos paramilitares “promessas que o governo não poderia cumprir”.

Outro trecho descreve a pressão exercida pelos paramilitares. Caramagna narra uma conversa com Vicente Castaño, uma das lideranças da AUC. Ele explica que, de acordo com Castaño, caso “o processo falhasse” os grupos poderiam se reorganizar, inclusive praticando sequestros para pressionar o governo. Porém, Castaño avisa que a reação “poderia ser evitada” se os paramilitares fossem reconhecidos politicamente pelo Estado.

Ressurgimento de grupos armados

Em mais uma mensagem, de junho de 2006, o embaixador Milton Drucker faz um relatório sobre a entrega de armas dos paramilitares e constata que há uma preocupação com um possível desvio dessas armas. De acordo o despacho, enquanto em processos de desarmamentos a média mundial é de 2:1 (dois combatentes para cada arma devolvida), alguns grupos como o “Bloco Central Bolívar” chegavam a apresentar uma taxa de três ou até quatro combatentes por arma devolvidas.

O embaixador reproduz o aviso de que os paramilitares poderiam se reorganizar, caso o governo não estabelecesse políticas de prevenção. “Analistas afirmam que as estruturas econômicas e políticas dos paramilitares permanecem ativas e, se governo colombiano não fornecer a segurança necessária nas principais regiões [de atuação dos grupos armados], eles podem se reorganizar”, diz Drucker.

A continuidade da ação dos paramilitares é tema de um despacho de fevereiro de 2007, escrito pelo embaixador John Creamer. Na mensagem, o diplomata descreve a existência de novos grupos armados que surgiram “na sombra dos paramilitares”. Ele, baseado em informações da OEA e do governo colombiano, explica que existem cerca de 21 grupos, com cerca de três mil membros, sendo que os paramilitares representavam quase 20% desse total.

O embaixador informa também que a liderança desses novos grupos era exercida por ex-membros dos paramilitares, os quais tinham uma posição intermediária na hierarquia dos antigos grupos.

Diferente da AUC, de acordo com informações relatadas pela embaixada, essas novas organizações são bem equipadas, mas “dispersas” e não apresentam “qualquer política de organização ideológica comum”.

De acordo com o despacho, Creamer conversou com o general Jesuz Gomez Lopez, responsável por combater as novas organizações. Segundo o militar, esses grupos não se tornariam uma “ameaça nacional”, mas eram difíceis de serem combatidos porque os seis “ex-amigos militares” lhe passavam informações e, por terem muito dinheiro, conseguiam corromper várias instituições do governo.

Porém, Creamer diz que, para os colombianos, não havia muito diferença entre os “novos grupos” e a AUC. A semelhança está no fato de que ambos se dedicam ao combate ao tráfico, além de agirem nas mesmas regiões. Um deles usa o mesmo símbolo da Águias Negras, antigo grupo paramilitar, “para instigar o medo na população”.


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