Além de vender armas, governo Obama é acusado de lavar dinheiro do tráfico mexicano

Polêmica operação teria apoio do presidente Felipe Calderón em nome da famigerada "War on Drugs"

Fillipe Mauro

Mais um capítulo da polêmica que envolve a administração Obama com a venda de armas à cartéis mexicanos surgiu nesta terça-feira (6/12). Uma investigação conduzida pela jornalista Ginger Thompson, do jornal The New York Times coloca que, na ânsia de “auxiliar o vizinho na luta contra os cartéis de drogas”, membros da DEA, a Força Administrativa Anti-Narcóticos, teriam se envolvido com o fluxo financeiro do tráfico, o que inseriria a agência federal em um crime de lavagem de dinheiro.

A reportagem do jornal enfatizou a linha tênue que o governo norte-americano estabeleceu entre o combate e a manutenção dos cartéis armados.  Em artigo publicado no Los Angeles Times, o volume movimentado pela lavagem de dinheiro que, em tese, possuía como objetivo a identificação dos “chefões”, chega a 3% da economia mexicana – o equivalente a 50 bilhões de dólares.

Em setembro, Opera Mundi já havia publicado parte do escândalo

Efe

Quase duas mil armas norte-americanas de alto calibre espalharam-se por todo o méxico nas mãos de traficantes. 

Ex-agentes da DEA disseram ao New York Times que uma diferença de gravidade deve ser considerada entre a operação Velozes e Furiosos e a mais recentemente descoberta. Uma, segundo eles, envolve armas e risco de vida, enquanto que, a segunda, lida “apenas” com dinheiro. Pelo mundo inteiro, o jornal contabilizou cerca de 50 ações do gênero, que ocorrem quando e como o governo norte-americano bem entender.

A resposta da oposição republicana foi ágil. O blog Townhall acusou Washington de, em nome de sua operação, “não apenas financiar o tráfico com armas, mas também com dinheiro”. Em sites como o Freerepublic.com, não são raros os leitores que se perguntam, em seus comentários, quantos são os burocratas e funcionários públicos contratados pelos cartéis e incluídos na folha de pagamento do governo.       

Histórico

Ao inaugurar o Fórum das Américas do ano de 2009, o presidente norte-americano Barack Obama foi contundente, asseverando que ninguém deveria “tolerar a violência e a insegurança”, independentemente de onde ela viesse. Em seu discurso, “crianças deveriam se sentir seguras para brincar nas ruas”, “policiais deveriam ser mais poderosos do que chefões” e “juízes melhor empenhados no progresso das leis”. Evitar que armas ilegais “corressem livremente pelas mãos de criminosos” e que “entorpecentes destruíssem vidas” seriam os meios mais eficientes para a construção desse cenário. O país que se propusesse a essas metas, segundo Obama, teriam o amparo de seu governo, “porque os EUA são amigos de toda nação e pessoa que persegue um futuro de segurança e dignidade”.

A surpresa frente a esse esforço do presidente surgiria apenas após dois anos de seu encontro com os líderes americanos. O fracasso da operação “Velozes e Furiosos”, conduzida entre os anos de 2009 e 2010 pelo ATF (Departamento de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo dos EUA, na sigla em inglês) contra o tráfico de drogas mexicano, eclodiria, no último mês de setembro, em um dos maiores escândalos do governo Obama.

A estratégia dos oficiais do estado de Phoenix era depositar quase duas mil armas nas mãos de traficantes do México, de modo que, conforme percorressem a sofisticada rede de criminalidade do país, chegassem aos principais chefes do tráfico e fossem, então, rastreadas.

As autoridades responsáveis pela tática só não esperavam que o radar que rastrearia esses armamentos falhasse, fazendo com que todo o arsenal adquirido pelo governo norte-americano se espalhasse México adentro, perdendo-se nas mãos de mafiosos. A comissão que investiga o lobby da indústria bélica dos EUA frente ao ATF e ao FBI calcula que cerca de 200 delitos tenham sido praticados com essas armas de alto calibre. o assassinato do agente da Patrulha da Fronteira Brian Terry, em 14 de dezembro de 2010, ocorreu por meio de um fuzil AK-47 e foi contabilizado pelo grupo de congressistas.

A denúncia mais severa partiu da emissora Fox News, que disse ter tido acesso a documentos que comprovam o uso de dinheiro público para a compra dessas armas no Arsenal Lone Wolf. O principal destino teria sido o Cartel de Sinaloa, liderado por Joaquín “El Chapo” Guzmán – o traficante mais poderoso da américa latina, com uma fortuna estimada em um bilhão de dólares e atuação em mais de 40 países.

Na outra margem

O México já havia proibido esse tipo de operação após o ano de 1998, quando agentes americanos atuaram no país, desbancando um esquema de 110 milhões de dólares conduzido por 12 bancos mexicanos.

A autorização, desta vez, contudo, partiu da elite do governo de Felipe Calderón, cujo partido, em julho de 2012, enfrentará eleições gerais. Críticos acusam o presidente de insistir “teimosamente” nos ataques aos cartéis, o eu já vitimou cerca de 50 mil pessoas - um “banho de sangue”, dizem.

Wikicommons

Felipe Calderón é acusado pela oposição de causar um "banho de sangue" com sua política de repressão aos cartéis. 50 mil já foram vitimados.

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