Etiópia é novo paraíso da mão de obra barata para a indústria têxtil

Salários baixos são atrativo para investidores, apoiados por um governo decidido a transformar o país em polo têxtil

"Made in Bangladesh", "made in Vietnam", "made in China": uma breve olhada no interior das roupas vendidas na Europa revela onde foi fabricada a camiseta, o pulôver, a calça. E agora se lê cada vez mais, nas pequenas etiquetas das grandes marcas, "made in Ethiopia".

Apesar de se tratar de um dos 20 países mais pobres do mundo, a economia da Etiópia cresce em velocidade vertiginosa. A tal ponto que ela está no bom caminho de se tornar o centro da produção têxtil no continente. Esse é pelo menos o plano do governo em Adis Abeba.

E este pensa em grandes dimensões: em 2025, mais de 30 gigantescos parques industriais deverão estar abastecendo o mundo com roupas "made in Ethiopia". Mão de obra é o que não faltará: com 110 milhões de habitantes, é o segundo país africano mais populoso, depois da Nigéria.

Para Temesgen Tilahun, vice-presidente da Comissão Etíope para Investimentos, esse é um importante trunfo na competição com a Ásia: "Entre 60% e 70% do povo aqui é jovem, na melhor idade para trabalhar, e bom de treinar. Precisamos utilizar esse potencial para transformar a Etiópia num polo de produção."

Uma parte importante do cálculo de Temesgen é que os salários não serão altos, e "justamente esse aspecto desempenha um papel importante para quem considera investir na Etiópia". Em Bangladesh – que, o mais tardar desde o desmoronamento da fábrica do Rana Plaza, em 2013, é o símbolo da mão de obra barata na indústria têxtil –, os operários recebem três vezes mais do que na Etiópia. Na China, o pagamento é mais de dez vezes maior.

Em nenhum outro lugar se pagam no setor salários tão baixos quanto nessa nação do Leste da África. Segundo pesquisas da Universidade de Nova York, eles muitas vezes nem chegam ao equivalente a 23 euros por mês. A Comissão para Investimentos ressalva, contudo, que ao salário se somam certas prestações de serviço das fábricas, como o almoço diário.

Além dos salários baixos, a Etiópia atrai por sua boa localização, benefícios fiscais e energia barata. Com esses argumentos, o governo pretende atrair empresas têxteis de todo o mundo. E está conseguindo: segundo a consultora empresarial McKinsey, numa enquete realizada em 2017 quase um terço das 40 firmas indagadas confirmou a intenção de produzir na Etiópia, dentro de cinco anos.

O boom já começou: por toda parte no país se cria nova infraestrutura, envolvendo investimentos que já chegam a 1,3 bilhão de dólares. Multinacionais como a H&M, Levi's, Primark, Calzedonia, Calvin Klein, Tommy Hilfiger, mas também as alemãs Tchibo, Aldi e Lidl, já produzem no país.

Atualmente, o maior local de manufatura de roupas é o Hawassa Industrial Park, no sul do país. Numa área equivalente a 420 campos de futebol, 23 mil pessoas trabalham em regime de turnos, a maioria mulheres; e em breve serão 60 mil operários.

Para alguns, o parque industrial é um modelo do futuro da produção têxtil: condições seguras de trabalho, instalações ultramodernas e também ambientamente corretas. Outros veem o local como um exemplo de como explorar mão de obra – com profissionalismo e em grande estilo.

A jovem Desta [nome alterado pela redação], de 20 e poucos anos, trabalha como costureira em Hawassa. Quando pega o primeiro turno, seus dias começam de madrugada, às 4h, e isso seis dias por semana. Ela recebe por mês 900 birr etíopes, cerca de 27 euros, além do almoço diário e o ônibus shuttle para o trabalho.

O pagamento é um tema constante entre as costureiras: "O que nós recebemos não é suficiente, de jeito nenhum, porque é totalmente desproporcional ao trabalho que nós fazemos." Desta passa oito horas por dia diante da máquina de costura, confecciona 600 camisetas por dia: "É muito trabalho para pouco dinheiro, isso não é justo."

Os salários extremamente baixos resultam numa grande flutuação nos parques industriais. Os empregadores alegam que cerca da metade do contingente operário se demite já no primeiro ano, mas segundo as investigações da Universidade de Nova York, a taxa real seria de quase 100%. As greves são frequentes e reprimidas com violência policial.

Num subúrbio de Hawassa, Desta mostra seu quartinho na cabana de barro que divide com duas outras mulheres, pois não teria como arcar com o aluguel de 500 birr. Elas tentam dividir todos os custos, cozinham juntas. "Na verdade, não há como viver com mais economia, e mesmo assim muitas vezes o dinheiro não dá para o mês inteiro." A costureira torce que alguma hora as coisas melhorem.

Mas no momento não parece que vá ser o caso. As empresas lucram com os salários baixos e responsabilizam o governo. Este, por sua vez, se diz de mãos atadas na luta pelos investimentos: há numerosos parques industriais em construção, exigindo ainda muitos novos investidores. E não é hora de espantá-los com exigências de salário mínimo.

DW/F. Fleig
Parques industriais têxteis na África alimentam o consumo de moda ocidental

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