Eduardo Galeano: 'Na maioria dos países, a vida humana vale pouco ou nada, principalmente quando é a vida de um pobre'

Em 2011, escritor falou sobre relação com o Brasil e direitos humanos na América Latina: 'igualdade de gêneros ainda é um direito a se conquistar; o que chamamos violência doméstica é espelho do medo do homem de uma mulher sem medo'

Donostia Kultura / Flickr CC

O escritor Eduardo Galeano em evento em São Sebastião, Espanha, em 2012

Morreu nesta segunda-feira (13/04), aos 74 anos, o escritor, jornalista e ensaísta uruguaio Eduardo Galeano. Nessa entrevista concedida à revista Brasileiros em 2011, Galeano fala sobre direitos humanos, tema que norteou sua obra e sua vida.

Quando lançou “As Veias Abertas da América Latina” (1971), o uruguaio Eduardo Galeano provocou alvoroço. Mais de 40 anos e mais de 40 livros depois, o jornalista e escritor continua provocador. Ele está preparando um novo livro e já concluiu a primeira versão. “Estou trabalhando na segunda, que, certamente, não será a última. Cada livro me leva ao menos quatro ou cinco anos de trabalho. Nasci perfeccionista, signo de Virgem.” O tema da obra ele prefere guardar em segredo. “Se contar, perco a vontade de escrevê-lo.”

Com uma trajetória marcada pela luta contra a ditadura – em 1973 foi preso no Uruguai, exilou-se na Argentina, mas com o Golpe Militar teve de se refugiar na Espanha até 1985 –, Galeano pediu que a entrevista, no histórico Café Brasilero, em Montevidéu, se restringisse a Direitos Humanos na América Latina. Mas a conversa foi além.

Com a equipe do documentário “Mais Náufragos do que Navegantes” também presente – a expressão que dá título ao filme, retirada de “As Veias Abertas da América Latina”, foi gentilmente cedida para o documentário do diretor uruguaio radicado no Rio de Janeiro Guilhermo Planel –, Galeano não deixou de se lembrar da sua relação com personagens ilustres da nossa história.

Um deles foi Almino Affonso, ex-ministro do Trabalho de João Goulart, sobre quem fez uma série de reportagens cobrando das autoridades uruguaias sua permanência, como exilado, no país – havia pressão da ditadura brasileira para que ele fosse expulso. Mesmo com manifestações de estudantes e trabalhadores, incentivados por essas reportagens, Almino teve de seguir para o Chile.

O escritor também citou o jornalista, ex-militante e ex-asilado político Flávio Tavares. Em uma atitude de coragem e solidariedade, Galeano costumava emprestar o próprio passaporte para que Tavares participasse de ações clandestinas pela América Latina.

Ao ouvir como esses dois personagens eram gratos a ele, o escritor respondeu: “Foi um tempo muito solidário. Os brasileiros foram bem recebidos e deixaram pegadas”.

Galeano mencionou ainda Darcy Ribeiro como figura emblemática de todos aqueles que passaram pelo Uruguai nos chamados Anos de Chumbo: “Eu me lembro de que ele sofria com um câncer já muito avançado e os milicos do Brasil o deixaram entrar porque tinham certeza de que ele iria morrer. Acharam que o direito de morrer em sua terra natal era algo que seria bem-visto pelos inimigos da ditadura, uma boa propaganda. Mas Ribeiro entrou para morrer e não morreu. Ele foi fundamental para mim. Lembro de nossos longos papos. Fui formado por ele em muitas coisas de nossa realidade da América Latina, uma realidade muitas vezes difícil de compreender”.

Há quase meio século, o escritor frequenta o Café Brasilero, que já foi fechado três vezes. Mas, se depender dele, isso jamais voltará a acontecer: “Todos os dias, faço orações para Deus e o diabo para que esse café não seja fechado novamente”.

Foi com toda essa bagagem que Galeano aterrissou em nosso encontro.

Direito a um trabalho digno: “No mundo inteiro, talvez um pouco mais na América Latina, as palavras e a prática raramente se encontram e quando se encontram não se saúdam, pois não se reconhecem. Isto, sobretudo, com o tema dos Direitos Humanos. Se as Declarações dos Direitos Humanos se traduzissem em realidade, estaríamos habitando o mais feliz dos planetas. Mas ocorre que as declarações parecem reportar a um planeta que não é o nosso. Vou citar um exemplo dos mais glamourosos: todos concordam em estabelecer como direito fundamental o direito ao trabalho. O direito a um trabalho digno e o de integrar sindicatos, mas hoje, na realidade, ocorre que o trabalho vale menos que o lixo. O mundo de hoje confunde valor e preço e o preço do trabalho está cada vez mais barato. Nota-se, por exemplo, que duas das empresas mais bem-sucedidas do planeta, que são o Walmart e o McDonald’s, não permitem que seus trabalhadores se sindicalizem. Dois séculos de luta, de muito sacrifício e dor para que o mundo inteiro reconheça o direito da sindicalização e, hoje, empresas de grande sucesso negam o direito dos trabalhadores terem sindicato. Tudo isso depois do que passaram os trabalhadores de Chicago, naquele 1o de maio que o mundo recorda a cada ano: os mártires de Chicago que reivindicavam o direito ao trabalho, à segurança e de ter sindicatos. Também negam o direito de trabalhar dignamente ou simplesmente trabalhar, como é o caso do Movimento dos Sem Terra no Brasil, com numerosos mártires – os muitos trabalhadores rurais que foram fuzilados pelo delito de querer trabalhar, de querer trabalhar a terra. Eles tinham de ser todos condecorados, porque não é crime trabalhar, muito menos trabalhar a terra no mundo. Mas esse mundo recompensa a figuração e despreza o trabalho.”

Direito de respirar: “É curioso como este nosso planeta está trabalhando com tanto entusiasmo para sua própria aniquilação. São negados alguns dos direitos humanos dos mais elementares de todos. Por exemplo, o direito de respirar. Quando era menino, a mestra me dizia: ‘Respirar Eduardito, é o que é importante’. E respirar está cada vez mais difícil, pois o ar está envenenado, principalmente nas grandes cidades, onde a ditadura dos automóveis vai contra os transeuntes, que não podem caminhar. Cidades que nasceram, segundo dizem, como lugares de encontros entre as pessoas e agora são lugares de encontros entre as máquinas, e as pessoas incomodam.”

Direito à vida: “O direito à vida é o direito fundamental de todos os habitantes do planeta, mas é o mais violado de todos, pois ele é privilégio de quem pode pagar; quem não pode se vira como pode para viver ou morrer nesse intento. Na verdade, na grande maioria dos países do mundo a vida humana vale pouco ou nada, principalmente nos subúrbios, quando é a vida de um pobre. Nas grandes cidades sobram pessoas, porque esse sistema, que quando eu era criança se chamava capitalista, mas agora se chama economia de mercado, tem mais náufragos que navegantes. Ou seja: os excluídos, os marginais, os que são expulsos são muito mais do que os que estão integrados. Esse sistema não sabe o que fazer com essa contradição que ocorre, então converte a pobreza em delito e a castigam. Matam.”

Violência de homens contra mulheres: “A Declaração dos Direitos Humanos também fala da igualdade de gêneros que ainda é um direito a se conquistar. Na maior parte do planeta, as mulheres são muito maltratadas. Eu diria que, na realidade, elas são tratadas pior que nas letras de tango. Como se sabe, nesse ritmo musical, as mulheres são todas putas, menos a mama. E essa realidade de tratar as mulheres pior do que são tratadas nos tangos se traduz em muitíssimos casos, lugares e na violência direta que o macho exerce sobre a fêmea. Isso que chamamos curiosamente de violência doméstica e que consiste na forma mais repulsiva do exercício de direito de propriedade, que é o direito de propriedade entre pessoas. Direito de propriedade que o macho se atribui sobre a fêmea. E quando acontecem esses casos, que às vezes se registram nas crônicas policiais e às vezes não, o macho dominante, o criminoso, se explica dizendo: ‘Matei porque era minha’. Como se fosse realmente parte de seu direito de propriedade o de aniquilar a mulher que a sorte – a vida – lhe deu. Nenhum macho ou supermacho que seja, nem o mais valente de todos, se anima em dizer que a verdade não é essa. Nada a ver com: ‘Matei porque era minha’. Na verdade, deveria confessar: ‘Matei-a por medo’. Porque a violência do homem é o espelho do medo do homem de uma mulher sem medo.”

Iguais perante a lei?: “Teoricamente, somos todos iguais perante a lei, isso diz a Constituição. Algumas constituições não diziam isso, mas foi incorporado depois. A primeira Constituição dos Estados Unidos, que sempre se toma como modelo de democracia, estabelecia que uma pessoa negra era equivalente a três quintos de uma pessoa branca. Menos mal que essa Constituição tenha mudado bastante, porque, caso contrário, o Obama não poderia ser presidente, pois nenhum país pode ser governado por três quintos de uma pessoa. É bom que depois foram corrigindo a Constituição e passaram a ser menos racistas e machistas. Mas, na realidade, as coisas não mudaram tanto. Por exemplo, em relação à situação dos pobres condenados por serem pobres, condenados por um sistema que é incapaz de combater a pobreza. Sistema que está em guerra contra os pobres que o próprio sistema gera. A discriminação se aplica de tal modo que às vezes não a vemos. Posso citar como exemplo a tortura. Os militantes de esquerda estão acostumados, como eu, entre outros, a denunciar a tortura, mas, muitas vezes, nos esquecemos de que a tortura não se aplica somente aos chamados presos políticos. Nós nos esquecemos de que a tortura também é aplicada nos chamados presos comuns, que são também políticos, pois são o triste resultado de um sistema que funciona para poucos. Esquecemos, portanto, de que a polícia impunemente tortura os chamados delinquentes comuns, que são algemados e, às vezes, torturados até a morte. Isso não se registra em parte alguma. O que me parece muito injusto e também muito revelador.

Bom, acho que terminei porque eu poderia continuar falando e falando. E falo sobre o tema porque é muito injusto. Falo com uma autocrítica danada, porque muitas vezes nos esquecemos dessa situação.”

 
Matéria original publicada no site da Revista Brasileiros.

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