‘Depoimento da Volks foi vazio’, diz presidente da Comissão da Verdade de SP após audiência

Para Adriano Diogo, montadora alemã focou mais em proteger imagem da empresa do que relatar os fatos em sessão na Assembleia Legislativa Estadual

"Lá, os alemães estão abrindo tudo e analisando todos os arquivos com vínculos ao nazismo. Aqui, a Volkswagen diz que é tudo mentira." A frase é do deputado estadual Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", órgão que realizou na segunda-feira e na sexta (02/03 e 27/02) audiência pública para esclarecer a colaboração do empresariado paulista na repressão aos trabalhadores durante o período da ditadura civil-militar (1964-1985). Entre as companhias convocadas a prestar explicações está a montadora alemã: "A Volkswagen passou vergonha", diz Diogo.

“A Volkswagen veio com estrutura fantástica à sessão. Mas acho que eles saíram muito mal na foto. Não responderam às perguntas, tinham uma tremenda de uma blindagem. O depoimento em si foi muito fraco e vazio, querendo proteger acima de tudo a imagem da empresa”, relata Adriano Diogo a Opera Mundi. A sessão no auditório da Assembleia Legislativa de São Paulo teve a presença de ex-funcionários da montadora que relataram experiências de repressão dentro da fábrica e, junto a Diogo, pressionaram a Volkswagen a esclarecer a suposta colaboração com os militares e a consequente violação de direitos humanos dos trabalhadores.

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Reprodução

Durante Passeata dos Cem Mil organizada contra a ditadura, em junho de 1968, manifestantes tombam Kombi no centro do Rio

Presente na sessão da comissão, Rogerio Varga, gerente de Assuntos Jurídicos da Volkswagen, declarou que a empresa respeitou o trabalho realizado por várias comissões da verdade em todo o Brasil, mas ainda estava revisando arquivos internos para ver se as acusações de colaboração eram verdadeiras.

"De forma nenhuma a Volkswagen contribuiu para a violação dos direitos humanos no Brasil", pontuou Varga. "A empresa nunca colaborou com a repressão", completou.

Na audiência, o discurso da empresa entrou em conflito com o testemunho dos ex-funcionários. Um dos trabalhadores é Lucio Bellentani, 70, que declarou que foi preso dentro de uma fábrica Volkswagen pela polícia em 1972 com a ajuda de um executivo sênior. Ele ainda conta que foi espancado e depois levado para uma prisão, onde foi mantido por mais de um mês. "Estou perplexo com algumas das coisas que foram ditas aqui hoje, que a Volkswagen nunca feriu os direitos humanos", disse Bellentani, em entrevista à agência Reuters.


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Responsabilização das empresas

Após dois anos de investigação, o relatório final da CNV (Comissão Nacional da Verdade) revelou em dezembro passado que a Volkswagen e outros grupos industriais tiveram papel fundamental no aparato repressivo dos anos de chumbo. A comissão paulista, então, resolveu convocar algumas empresas — casos em que há maior fartura de documentação e investigação indicando repressão fabril na ditadura — para prestar esclarecimentos.

Além da Volks, foram convocadas Aliperti, Cobrasma e a Companhia Docas de Santos, e também as firmas públicas Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica) e Metrô. Apenas a montadora alemã e a Docas enviaram representantes à audiência; no caso da Embraer, somente esteve presente o coronel Ozires Silva, presidente da companhia na década de 1980.

De acordo com movimentos sindicais que estudaram o período, o empresariado provocou perseguições, delações, torturas, demissões e até criou “listas sujas” contra trabalhadores no período. Contudo, para o Fórum dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Verdade, Justiça e Reparação, a CNV não acatou a responsabilização das empresas que colaboraram com a repressão, apesar de diversos documentos provarem suas participações diretas ou indiretas na ditadura civil-militar.

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"Apesar de serem extensas as provas que fazem constatar essa participação direta ou indireta de empresas na repressão aos trabalhadores, a CNV fez a opção política de omitir essa questão entre suas recomendações", escreve o fórum, em carta aberta.

Volkswagen e nazismo

No capítulo dedicado à repressão aos operários, intitulado ‘Violações de direitos humanos dos trabalhadores’, a CNV revela que Franz Paul Stangl, conhecido criminoso nazista que havia fugido para o Brasil após o fim da Segunda Guerra, trabalhou para a Volkswagen.

Nazista Stangl posa para fotógrafo em DüsseldorfOs documentos revelam que Stangl, preso no Brasil em 1967 e extraditado para a Alemanha, foi o “funcionário da Volkswagen do Brasil responsável pela montagem do setor de vigilância e monitoramento” da unidade de São Bernardo do Campo.

O aparato acompanhava de perto o cotidiano da fábrica e, especialmente atento às atividades sindicalistas consideradas “subversivas”, estava em contato com órgãos da repressão do governo brasileiro.

De acordo com Adriano Diogo, a montadora alemã ainda seria responsável por legalizar uma série de documentos de nazistas que vieram ao Brasil na condição de fugitivos. Um deles, apesar das frequentes negações de Varga, seria Stangl.

No ano passado, Opera Mundi revelou que a sede alemã da empresa já havia sido questionada por acionistas quanto ao papel exercido na ditadura militar brasileira. Em resposta aos questionamentos, a Volkswagen disse em maio de 2014 que iria esclarecer sua relação com o governo de exceção.

“Existe uma profusão de documentos que comprovam a cooperação da empresa [Volkswgen do Brasil] com órgãos policiais de segurança do Dops”, afirma o texto final da CNV.

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