Mostra Truffaut em SP: Especialistas discutem legado do francês como crítico e diretor

Exposição ''Truffaut: Um Cineasta Apaixonado' vai até outubro e joga luz sobre trajetória do francês, com mais de 600 itens do expoente da Nouvelle Vague

Pierre Zucca/Divulgação/MIS

Truffaut na divulgação do filme 'Beijos Proibidos' (1968); mostra do cineasta no MIS começa nesta terça (14/07) e vai até outubro

Desde 2011, ano em que André Sturm assumiu a direção executiva do MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo, o espaço se tornou sinônimo de exposições bem-sucedidas em termos de público e crítica. Além das instalações com foco no músico David Bowie e no programa de TV Castelo Rá-Tim-Bum, o cinema marcou presença na programação com as homenagens ao pioneiro Georges Méliès e ao visionário Stanley Kubrick. A nova aposta do museu é um tributo a um dos mais conhecidos cineastas franceses: François Truffaut (1932-1984).

A mostra "Truffaut: Um Cineasta Apaixonado", que tem abertura nesta terça-feira (14/07) e se estende até 18 de outubro no MIS, terá em São Paulo apenas a sua segunda montagem no mundo. A concepção inicial foi realizada pela Cinemateca Francesa, em Paris, por ocasião do trigésimo aniversário da morte de Truffaut. Ela permaneceu em cartaz ali de outubro do ano passado a fevereiro deste ano, e atraiu mais de 80 mil visitantes.

A exposição apresenta mais de 600 itens, como desenhos, fotos, objetos, livros, revistas e roteiros com anotações, além de trechos de filmes e entrevistas do diretor. As peças, doadas à Cinemateca Francesa pela família de Truffaut, estarão divididas no MIS em cinco eixos principais: juventude; início na Nouvelle Vague e atuação como crítico de cinema; trabalho como diretor; paixão pelas mulheres; e um segmento especial dedicado ao filme Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois.

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Carta de Truffaut a Robert Lachenay, parte da exposição no MISParalelamente à exposição, serão realizados cursos sobre a obra de Truffaut no MIS e relançamentos em DVD de alguns dos trabalhos do cineasta. Embora ainda sem data confirmada, uma mostra no Caixa Belas Artes com a maior parte dos filmes de Truffaut deve ocorrer até o fim deste ano [veja mais informações sobre as atividades paralelas abaixo].

Tendo em vista esse momento em que a obra de Truffaut volta aos holofotes no Brasil, Opera Mundi conversou com quatro especialistas que falaram a respeito da trajetória do cineasta e discutiram o seu legado tanto como cineasta quanto como crítico de cinema.

Gestação da Nouvelle Vague

O tumultuado relacionamento familiar, o choque com o autoritarismo do ensino escolar e o flerte com a delinquência juvenil são fatores que fizeram parte tanto da vida do protagonista de Os Incompreendidos (1959), longa-metragem de estreia de François Truffaut, quanto da infância do próprio cineasta. Com uma mãe ausente e sem contato com o pai biológico, ele encontrou refúgio nos filmes, que logo viraram a sua obsessão.

Tendo como tutor André Bazin, um dos mais respeitados críticos de cinema da história, Truffaut passou a escrever para a revista Cahiers du Cinéma no início dos anos cinquenta. Atuando ao lado de outros críticos que viriam a se tornar cineastas importantes, como Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Jacques Rivette e Claude Chabrol, ele assumiu papel de liderança na publicação, na qual entrou para a história do cinema antes mesmo de filmar os seus primeiros trabalhos.

Em Cinefilia, livro de Antoine de Baecque lançado no Brasil pela editora Cosac Naify, o autor aponta o artigo “Uma Certa Tendência do Cinema Francês”, publicado na Cahiers em 1954, quando Truffaut tinha apenas 22 anos, como “o texto crítico a empreender a mais vigorosa ruptura na história de uma arte”.

Assista ao trailer do filme 'Jules e Jim' (1962), de François Truffaut:

Dois pontos vitais, que se tornaram base para a posterior eclosão do movimento cinematográfico da Nouvelle Vague, servem para justificar tal ponto de vista: a negação de um tipo de cinema francês da época baseado em adaptações literárias (o chamado “Cinema de Qualidade”) e a afirmação de uma ideia de autoria centralizada na figura dos diretores.

“Esse texto era um panfleto virulento contra o cinema de roteiristas, em favor do cinema de mise en scène — feita pelo diretor — como verdadeiro definidor do estilo e da forma do filme”, explica Pedro Maciel Guimarães, professor e pesquisador em História e Estética do Cinema e do Audiovisual que dará a partir de setembro, no MIS, um curso em que aborda a relação de Truffaut com as atrizes e atores de seus filmes [veja mais informações abaixo].

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Posteriormente desenvolvida por Truffaut e outros críticos e intitulada como “política dos autores”, essa ideia foi a base para a valorização do trabalho de cineastas como Alfred Hitchcock, Howard Hawks, Samuel Fuller e Nicholas Ray, anteriormente desdenhados pela crítica dos EUA. O conceito também foi central para o cinema feito pelos ex-críticos da Cahiers du Cinéma a partir do final dos anos cinquenta, e permanece até hoje influente na análise de filmes.

“Toda essa geração provou que um crítico tem muito mais condições de dirigir um filme do que qualquer outro técnico de cinema. Porque a crítica, nos moldes da Cahiers (ou seja, fundada sobretudo na mise en scène) é um grande aprendizado para um diretor de cinema. Truffaut foi muito importante como crítico porque foi o líder e o mais eloquente dos jovens turcos. Como cineasta, apesar de muito bom, por vezes genial, não representou tamanha liderança, a não ser bem no começo, até 1960, 1961, mais ou menos”, opina o professor e crítico de cinema Sérgio Alpendre.

Truffaut, o autor

Apesar de ter morrido jovem, aos 52 anos, vítima de um tumor cerebral, François Truffaut deixou uma obra prolífica como diretor. Entre 1959, ano em que lançou Os Incompreendidos, e 1984, data de seu falecimento, ele dirigiu 21 longas-metragens, sendo que quatro deles foram lançados recentemente em DVD no Brasil pela Versátil Home Video: Atirem no Pianista; A Noite Americana; De Repente, Num Domingo (os três no box “A Arte de François Truffaut”); e Um Só Pecado (no box “Nouvelle Vague”).

“Acredito que seja possível dividir a filmografia de Truffaut em três grandes períodos — a fase heroica da Nouvelle Vague, dos primeiros curtas-metragens até Um Só Pecado; um segundo período, marcado pela experimentação com diferentes gêneros, no qual a influência do cinema norte-americano e o diálogo com a literatura ficam ainda mais evidentes, começa com Fahrenheit 451 e vai até Uma Jovem Tão Bela Como Eu. Por fim, a terceira e última fase tem início com A Noite Americana, sendo caracterizada por filmes intimistas e romanescos”, aponta Fernando Brito, curador da Versátil.

Pierre Zucca/Divulgação/MIS

Jean Pierre Léaud e Truffaut no set de Domicílio Conjugal' (1970)

Talvez a melhor maneira para acompanhar a trajetória de amadurecimento de Truffaut como diretor seja assistir aos filmes que são protagonizados pelo personagem Antoine Doinel, um alter ego de Truffaut interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud em diferentes fases de sua vida. Doinel aparece pela primeira vez em Os Incompreendidos, de 1959, e em seguida é retomado no média-metragem Antoine e Collette e nos longas Beijos Proibidos (1968), Domicílio Conjugal (1970) e O Amor em Fuga (1979).

Com o recente lançamento de Boyhood, filme do norte-americano Richard Linklater que teve como peculiaridade ter sido filmado com os mesmo atores durante doze anos, o ineditismo do trabalho de Linklater foi relativizado quando comparado com os filmes protagonizados por Antoine Doinel, embora no caso de Truffaut as filmagens intermitentes tenham resultado em filmes distintos.

“Mais importante do que saber se o fato é inédito ou copiado, é preciso se perguntar em que esses tantos anos trabalhando com os mesmos atores traz para a obra de um diretor. No caso do Truffaut, foi essencial para definição da carreira dele, pois sua relação com Léaud foi algo que determinou seus primeiros passos como cineasta. É a fase mais romanesca e romântica da filmografia dele, em que ele exaure o assunto em torno da vida do Antoine Doinel e, consequentemente, do seu amadurecimento”, afirma Pedro Maciel Guimarães.

Em meio a tantos trabalhos distintos, quais características uniram temática e esteticamente as obras de Truffaut? Em outras palavras, o que o Truffaut crítico poderia apontar como traços de autoria na obra do Truffaut cineasta?

“A infância, as relações familiares, os casamentos e os relacionamentos amorosos, as conexões entre a arte e a vida, a paixão pelo cinema — um mapeamento de seus temas recorrentes começaria por aí. E, a partir daí, alcançaríamos também o que mais se destaca na estética de seus filmes: um tratamento ao mesmo tempo naturalista e romântico na busca por traduzir os sentimentos ambivalentes da vida — felicidade e tristeza, prazer e frustração, amor e ódio”, analisa o professor e crítico de cinema Sérgio Rizzo, que ministrará em agosto um curso sobre o cinema de François Truffaut no MIS.

Os especialistas apontam seus filmes preferidos de Truffaut

Fernando Brito – “Gosto igualmente das três fases. No entanto, tenho meus filmes favoritos: Jules e Jim, Os Incompreendidos, Antoine e Colette (episódio de O Amor aos 20 Anos), Beijos Proibidos e As Duas Inglesas e o Amor. Acho que o primeiro é uma perfeita tradução em imagens do turbilhão da vida e do amor que tanto fascinou o diretor ao longo de sua carreira. Por sua vez, os três primeiros filmes do ciclo de aventuras de seu alter ego Antoine Doinel, o primeiro Boyhood do cinema, são uma crônica da infância e da juventude que traz um frescor de realização inigualável. Por fim, As Duas Inglesas e o Amor é seu romance mais pleno, amargo e literário. Afinal, Truffaut não amava apenas as mulheres e o cinema, mas também a literatura.”

Pedro Maciel Guimarães – “Gosto particularmente dos filmes com a Catherine Deneuve — A Sereia do Mississipi e O Último Metrô —, do Farenheit 451 e de A Noiva Estava de Preto, que são filmes muito diferentes entre si. Particularmente, seus filmes mais noirs, baseados em romances de detetive, me deixam menos impressionados. Gosto quando ele é pessoal e intimista.”

Sérgio Alpendre – “Meus preferidos são As Duas Inglesas e o Amor e O Quarto Verde. Não saberia dizer por que sem escrever uma longa crítica a respeito, mas penso que são os mais românticos que ele fez, e talvez, por isso mesmo, os sinais mais intensos de sua personalidade”

Sérgio Rizzo – “Gosto de entender o conjunto da obra de François Truffaut como se fosse um grande e único filme dividido em ‘episódios’. No primeiro se encerra o último, e vice-versa. Por causa disso, tenho dificuldades em apontar favoritos. Mas o que provavelmente mais revi foi Os Incompreendidos.”

* Adriano Garrett é editor do site Cine Festivais

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SERVIÇO
Exposição “Truffaut: um Cineasta Apaixonado”, no Museu da Imagem e do Som
Endereço: Avenida Europa, 158 – Jardim Europa – São Paulo – SP
Data: De 14 de julho a 18 de outubro de 2015
Ingressos: R$ 10 (inteira); R$ 5 (meia) – entrada gratuita às terças-feiras
Site: http://www.mis-sp.org.br/

 

Além da exposição – conheça outras atividades relacionadas ao universo do cineasta francês

Curso “O Cinema de François Truffaut”, com o crítico Sérgio Rizzo
Data: De 3 a 31 de agosto (segundas, das 19h às 22h)
Valor: R$ 150
Inscrições aqui

Curso “Ouvindo Truffaut: Um Panorama da Música dos Filmes do Cineasta”, com o produtor musical Tony Berchmans
Data: De 6 a 14 de agosto (quintas e sextas, das 19h às 22h)
Valor: R$ 100
Inscrições aqui

Curso “Truffaut, o Homem que Amava as Atrizes… e Jean-Pierre Léaud”, com o pesquisador Pedro Maciel Guimarães
Data: De 21 de setembro a 5 de outubro (segundas, das 19h às 22h)
Valor: R$ 80
Inscrições aqui

Lançamento do Box “A Arte de François Truffaut”, com os filmes Atirem no Pianista, A Noite Americana e De Repente, Num Domingo
Distribuidora: Versátil Home Vídeo
Valor: R$ 49,90

Lançamento do Box “Nouvelle Vague”, com seis DVDs, que inclui o filme Um Só Pecado
Distribuidora: Versátil Home Vídeo
Valor: R$ 69,90

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