Trump chama Haiti e nações africanas de 'países de merda'

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Declaração causa revolta entre associações de imigrantes e membros dos partidos Democrata e Republicano; ONU afirma que comentário, feito durante reunião para debater imigração, é claramente racista

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Atualizada às 15h15

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamou El Salvador, Haiti e nações africanas de "países de merda" (shithole countries) durante uma reunião com legisladores, nesta quinta-feira (11/01), e indicou que prefere abrir as portas a imigrantes procedentes de países como a Noruega.

"Por que temos todas essas pessoas de países de merda vindo para cá?", disse Trump durante uma reunião com congressistas na Casa Branca, segundo meios de comunicação americanos, como o jornal Washington Post, que cita pessoas que participaram do encontro.

A Casa Branca não desmentiu as declarações atribuídas ao presidente. Ele próprio, porém, afirmou no Twitter, horas depois de iniciada a polêmica, que "este não foi o linguajar usado" por ele, ainda que ele tenha sido "duro".

Segundo os participantes, Trump recorreu ao palavrão depois que dois senadores lhe apresentaram um projeto de lei de abrigo a imigrantes, segundo o qual seriam concedidos vistos a alguns cidadãos de países que foram recentemente retirados do Estatuto de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês), como El Salvador, Haiti, Nicarágua e Sudão.

O comentário do presidente gerou críticas de deputados democratas e republicanos. "Os comentários do presidente são grosseiros, divisórios, elitistas e contrários aos valores da nossa nação. Esse comportamento é inaceitável do líder da nossa nação", afirmou a deputada republicana Mia Love, cujos pais vieram do Haiti.

O líder da bancada negra no Congresso dos EUA, Cedric L. Richmond, criticou Trump e disse que a declaração é mais uma prova de que a agenda Make America great again ("Faça os EUA grandes de novo") é, de fato, uma agenda "Faça os EUA brancos de novo".

picture-alliance/abaca/O. Douliery

Trump, em reunião na Casa Branca: "Por que temos todas essas pessoas de países de merda vindo para cá?"

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"Envergonhado por ele ser presidente dos EUA"

As Nações Unidas afirmaram que a declaração do presidente dos EUA, se confirmada, é "chocante, vergonhosa e racista". "Desculpe, mas não se pode usar outra palavra além de racista", disse o port-voz de direitos humanos Rupert Colville, em Genebra.

A American Haitian Foundation chamou os comentários de Trump de ignorantes e racistas. "Os comentários do presidente [refletem] uma total desconsideração para com a dignidade humana do povo haitiano", afirmou Jack Davidson, diretor-executivo da fundação com sede no Tennessee. "Estou envergonhado por ele ser presidente dos Estados Unidos."

A porta-voz da União Africana (UA), Ebba Kalondo, considerou as declarações de Trump inaceitáveis, tendo em conta a realidade histórica e a quantidade de africanos que chegaram aos EUA como escravos. "Isso é particularmente surpreendente por os EUA continuarem sendo um exemplo global de como a migração deu origem a uma nação baseada em valores fortes de diversidade e oportunidade", destacou.

O TPS é um benefício concedido pelos Estados Unidos a imigrantes sem documentos, que não podem regressar aos países devido a conflitos civis, desastres naturais ou outras circunstâncias extraordinárias, permitindo-lhes trabalhar no país com uma autorização temporária. Em sua resposta, Trump sugeriu que os Estados Unidos deveriam atrair mais imigrantes de países como a Noruega, com cuja primeira-ministra, Erna Solberg, reuniu-se na véspera.

Os deputados presentes na reunião ficaram chocados com os comentários, de acordo com o Washington Post, que não esclareceu se o presidente americano se referia também à Nicarágua e não identificou os países africanos em causa. O jornal Los Angeles Times corroborou a informação e acrescentou que, antes de proferir o palavrão, Trump exclamou: "Para que é que queremos haitianos aqui? Para que é que queremos todas estas pessoas da África aqui?"

O âncora da CNN Anderson Cooper liderou as críticas a Trump e defendeu – emocionado – o Haiti e seu povo – Cooper foi um dos primeiros jornalistas a chegar à ilha caribenha depois do devastador terremoto em 2010, que causou a morte de mais de 220 mil pessoas. Em seu programa, ele disse que os haitianos "passaram por mais, resistiram a mais, lutaram contra mais injustiça do que nosso presidente jamais viu".

"Para o presidente acreditar que os haitianos não contribuíram extraordinariamente para a sociedade americana, isso é ignorância. Classificar todos os países africanos de 'buracos de merda' é abominavelmente ignorante", disse.

Casa Branca não desmente

A Casa Branca não negou que Trump tenha feito o polêmica comentário. "Certos políticos de Washington escolhem lutar por países estrangeiros, mas o presidente Trump sempre lutará pelo povo americano", afirmou em comunicado. "O presidente Trump luta para conseguir soluções permanentes que tornam o nosso país mais forte, ao dar as boas-vindas àqueles que possam contribuir para a nossa sociedade, fazer crescer a nossa economia e se integrar na nossa grande nação."

Trump "sempre rejeitará as medidas temporárias, débeis e perigosas que ameacem as vidas dos americanos que trabalham duro e que prejudiquem aqueles imigrantes que procuram uma vida melhor nos Estados Unidos por meio de uma via legal", acrescentou a Casa Branca.

O projeto de lei negociado por seis senadores de ambos os partidos – republicano e democrata – prevê a eliminação da chamada "loteria dos vistos", programa eletrônico que seleciona aleatoriamente imigrantes de países com baixas taxas de migração para os Estados Unidos. Anualmente, cerca de 50 mil pessoas entram no país por meio deste programa, que abre caminho à cidadania americana e beneficia majoritariamente países de África.

Uma fonte do Senado, que pediu por anonimato, indicou à agência de notícias espanhola Efe que metade desses vistos seria consignada aos que até agora estavam protegidos pelo TPS e que a outra metade estaria reservada a imigrantes com qualificações profissionais que merecem entrar nos Estados Unidos, o famoso "mérito" defendido por Trump.

PV/lusa/efe

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