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Eric Hazan, editor francês: "Publico livros contra a manutenção da ordem existente"

Editora La Fabrique publica cerca de doze livros ao ano e não pretende aumentar número para evitar dívidas

Radical ou militante são os adjetivos mais usados para descrever o escritor e editor Eric Hazan, de 76 anos, personalidade da extrema-esquerda francesa. Ele, no entanto, prefere o termo “subversivo”. Sua editora La Fabrique, fundada em 1998, se tornou um emblema da edição independente e engajada ao publicar livros que “questionam a ordem existente”.

“Em nossa pequena escala, com uma equipe de três pessoas em 40 metros quadrados, tentamos fazer como a toupeira de Karl Marx: escavar”, diz Hazan. E basta percorrer a lista dos últimos títulos lançados para entender a disposição combativa da casa: Feminismos islâmicos, A Dominação Policial ou ainda Os Patrões da Imprensa Nacional.

Giovanni Cittadini Cesi/Opera Mundi


Polemista ativo nos jornais e na Internet, Eric Hazan é alvo de críticas não só da direita, mas também da esquerda mais moderada, que condena sua apologia da insurreição. Ele recebeu a reportagem de Opera Mundi na pequena sede de La Fabrique em Belleville, bairro popular na região leste da capital francesa. À mesa de um café do outro lado da rua, Hazan falou sobre a trajetória da editora em uma conversa entrecortada por longas pausas e com um tom decididamente informal – um entrevistado que adota o tratamento “tu” logo nas primeiras frases é suficientemente raro na França para ser digno de nota.

Filho de um pai judeu egípcio e de uma mãe judia originária da Palestina, Hazan se especializou em cirurgia cardíaca infantil e trabalhou no Líbano durante a guerra nos anos 70, integrando uma associação franco-palestina. No início dos anos 80, abandonou o bisturi para dirigir a reputada editora de livros de arte Hazan, fundada por seu pai.

Depois que foi obrigado a vendê-la para o grupo Hachette devido a dificuldades financeiras, Eric Hazan criou a editora La Fabrique, que nos primeiros dois anos funcionava em sua própria casa, e prometeu a si mesmo nunca mais pedir dinheiro aos bancos.

“La Fabrique sobrevive porque decidi não crescer e não ter nenhuma dívida. No dia em que isso não for mais possível, fecharemos as portas. Publicamos cerca de uma dúzia de livros por ano. Recebemos muitos projetos interessantes, temos ideias, seria fácil aumentar a produção. Mas isso colocaria em risco nosso equilíbrio”, explica ele.

Essa estratégia é inspirada na trajetória de Jérôme Lindon, o mítico fundador das Éditions de Minuit, editor de Samuel Beckett e dos principais autores do Nouveau Roman, como Alain Robbe-Grillet e Claude Simon. Ele também publicou obras denunciando as torturas praticadas pelo exército francês durante a guerra da Argélia, teve livros confiscados pela polícia e militou em defesa das livrarias independentes.“Lindon sempre se recusou a crescer. Mesmo depois de ganhar o Goncourt (principal prêmio literário francês) com O Amante de Marguerite Duras e vender um milhão de exemplares. A editora continua na mesma sede modesta de quarenta anos atrás”, enfatiza Hazan.

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Outro modelo é François Maspero, editor de extrema-esquerda nos anos 60 e 70: “Ele tinha uma livraria magnífica chamada La Joie de Lire, no Quartier Latin, que foi uma verdadeira universidade política para a minha geração.”

La Fabrique iniciou suas atividades com um livro do filósofo francês Jacques Rancière e, desde então, a disciplina tem espaço garantido no catálogo da casa, com obras de Alain Badiou e Slavoj Zizek. Outros temas dominantes na produção da editora são a situação atual da sociedade francesa, a questão palestina e o mercado editorial. “Hoje em dia tento evitar livros que ofereçam simples constatações para privilegiar obras programáticas”, explica Hazan, citando como exemplo seu próprio ensaio, Um Estado Comum entre o Jordão e o Mar, em colaboração com Eyal Sivan, no qual defende que a única solução possível para o conflito entre israelenses e palestinos é a criação de uma só nação a ser compartilhada pelos dois povos.

Para quem se apresenta como um editor subversivo, não deixa de ser irônico que sua notoriedade se deva à polícia antiterrorismo. O manifesto anarquista "A Insurreição Que Está a Caminho", escrito por um coletivo anônimo e publicado por La Fabrique, foi atribuído pela polícia a um militante radical acusado de ter sabotado uma linha do trem rápido francês em 2008. Eric Hazan foi chamado a depor e a controvérsia provocada na França por esse episódio, conhecido como o “caso Tarnac”, fez com que o livro vendesse 50 mil cópias. O próprio editor admite que foi uma “virada” na história de La Fabrique.

Revolução

Apaixonado pela capital francesa, onde nasceu, Eric Hazan escreveu  A Invenção de Paris, um erudito passeio pela história da cidade por meio das rebeliões e revoluções que a sacudiram. O livro será publicado no Brasil este ano pela editora Estação Liberdade.

Grande conhecedor da evolução urbana de Paris, ele aponta que “a prefeitura se recusou recentemente a dar o nome de Robespierre a uma rua”. Comentário que enfatiza a atualidade de sua nova obra, Uma História da Revolução Francesa. O livro insiste na origem popular do impulso revolucionário e vai contra toda uma linhagem de eminentes historiadores franceses, de Alexis de Tocqueville a François Furet, para reabilitar a controversa figura de Maximilien de Robespierre, geralmente considerado o grande responsável pelos abusos do período do Terror.

“Robespierre é o emblema da revolução”, explica ele, que critica a glorificação oficial da queda da Bastilha em 1789 e o repúdio ao Terror de 1793-94. “A Revolução é tudo, não se pode dizer que somente uma parte foi boa”.

Para Hazan, Robespierre esteve à frente de seus contemporâneos em relação a vários temas, como o direito à propriedade. “Na declaração de direitos de 1789, a propriedade é um direito natural, ou seja, indiscutível. Em 1793, Robespierre diz que a propriedade é uma instituição social. Direito natural é o direito de existir, e nenhum é superior a ele. Se tenho armazéns cheios de trigo e o guardo esperando que o preço suba enquanto pessoas morrem de fome, Robespierre qualifica isso de bandidagem. E o conceito pode ser transposto para hoje. Ele havia entendido que o direito à propriedade era uma instituição social, e o que a sociedade pode instituir ela pode destituir”.

A ideia do livro nasceu da constatação de que os jovens sabem muito pouco sobre esse episódio histórico. Com a obra, Hazan tenta insuflar um pouco de “entusiasmo revolucionário” em uma época cínica e relativista, à espera de outra insurreição. “Em abril de 1789, a Revolução Francesa era inimaginável. Vivemos hoje o final de um ciclo no qual o capitalismo era capaz de dar a impressão de que as coisas melhoravam o tempo todo. Esse sistema chega ao limite das suas possibilidades. Mas não sei de onde virá a faísca. Será a juventude que vai desencadear as coisas, como sempre. A Revolução Francesa foi feita por pessoas que tinham entre 20 e 30 anos.”

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