Setenta anos depois, fome continua assombrando Bengala

No território, que engloba Bangladesh e boa parte do nordeste da Índia, pessoas continuam morrendo pelos mesmos motivos: não há trabalho ou comida

Durante a Segunda Guerra Mundial, a escassez e o racionamento foram comuns em todos os países envolvidos. No Reino Unido, bombardeado pelos alemães, foram tempos difíceis e comia-se pouco. Porém, os hindus, então cidadãos de segunda classe no império britânico, literalmente morreram de fome. Calcula-se que três milhões perderam a vida.

Arquivo histórico

Imagem da fome que assolou Bengala em 1943. Calcula-se que três milhões de pessoas perderam a vida na época

O caso mais dramático aconteceu nas planícies de Bengala, no nordeste do país, onde hoje, de vez em quando, camponeses continuam morrendo de fome. E ainda que já não seja como em 1943-44, quando apareciam como fantasmas pelas ruas de Calcutá para morrer pelas calçadas mendigando comida, há semelhanças.

Leia mais: Quase 53 mil pessoas desapareceram no México em oito anos, diz governo

Naquela época, o então premiê britânico Winston Churchill deixava claro seu desprezo pela Índia. Ele chegou a dizer quer era “um país com um povo e uma religião bestiais” e se opunha à sua independência. Milhares de hindus, no entanto, foram à guerra como soldados britânicos e milhares de artesãos produziam mensalmente centenas de paraquedas de algodão por mês para as tropas.

A cada ano, durante a Segunda Guerra Mundial, a arrecadação econômica incluía centenas de milhões de libras esterlinas, além de trigo e arroz para alimentar as tropas. Além disso, como parte de sua missão, a Índia e os soldados situados aqui deveriam parar o avanço japonês, que já ocupava a vizinha Birmânia.

Arquivo histórico

Uma das imagens mais famosas da fome em Bengala, durante a Segunda Guerra Mundial, mostra uma criança e um cachorro mortos 

Em 1942 era assim. Até que um ciclone atingiu a costa nordeste do país no final do outono. As colheitas de arroz em Bengala, em sua maioria, se perderam. Os funcionários britânicos começaram a alertar sobre a crise solicitando ajuda de Londres. Milhões de camponeses não tinham comida.

Reportagem especial: Jovens judeus vivem ruptura com sionismo

Churchill, ocupado em ganhar a guerra, disse que não. Durante mais ou menos 15 meses se negou a enviar arroz e trigo, que não era escasso. Ele ordenou armazenar o superávit de trigo que era produzido na Austrália para alimentar o leste da Europa quando fosse possível. Para a Índia, nada.

Um holocausto esquecido

A fome começou em janeiro de 1943 e não se deteria antes do verão de 1944. O governo de sua majestade lançou uma pequena operação de alívio, mas não enviou à Índia nem a quarta parte dos alimentos de que necessitava.

Wikileaks: Embaixada dos EUA no Brasil alertou Washington sobre 'tortura brutal' no DOI-Codi

Os camponeses deixaram de cultivar e, sentindo suas vidas já se perdendo, começaram a peregrinar para as cidades em busca de caridade. Chegaram centenas a Medinipur e Daca. A Calcutá, foram dezenas de milhares. A cada manhã, segundo depoimentos recolhidos pela jornalista Madhusree Mukerjee em seu livro A guerra secreta de Churchill, crianças amanheciam abandonadas em hospitais.

Imagens tomadas de Bengala durante a fome que assolou a região nos anos 40:


Quando o exército britânico ofereceu distribuir suas sobras entre as pessoas, já em 1944, o desastre era imenso. A fome se deteve e a operação de alívio durou até o fim da guerra. “Mas até hoje não há uma única desculpa, nem reparação por parte do Reino Unido”, disse Mukerjee a Opera Mundi. “Não apenas o negam, mas o justificam como parte da guerra”.

Conheça seis fatos sobre o piquenique que, 25 anos atrás, ajudou a derrubar o Muro de Berlim

Uma década e mais de três milhões de mortos depois, o famoso primeiro-ministro escreveria em suas memórias que a sua pequena ilha salvou a Índia durante a guerra. “A explicação oficial sobre a fome continua sendo difusa (guerra e especulação local)”, conclui Mukerjee.

Morrer em Darjeeling

Desde 1944, de período em período, as pessoas continuam morrendo de fome nesses campos férteis. Até agora, em 2014, 70 anos depois, dezenas de trabalhadores dos jardins de chá ao norte do Estado de Bengala Ocidental morreram porque seus jardins fecharam, deixando-os sem renda nem comida para continuarem vivendo.

Nessa região, na cidade de Darjeeling e nas encostas de Dooars, onde se cultiva o chá mais caro do mundo, há um refrão: “Aqueles que cultivam a colheita dourada não ganham para fazer duas refeições por dia”. De acordo com reportagens da imprensa nas últimas semanas, até 100 pessoas morreram – mil na última década. Sem serviços básicos nem de saúde, vítimas da malária e da tuberculose, esses camponeses do chá são, como no Estado de Assam, pessoas desnutridas, sem terras próprias ou capacidade de consumo.

Pallawib Ray, DAWN 

Atualmente, camponeses de Darjeeling ainda lutam contra a fome, assim como aconteceu no passado da região

Anuradha Talwar, diretora para a região do programa “Direito ao Alimento” e pesquisadora designada pela Suprema Corte de Justiça para estudar o fenômeno, afirma em entrevista que as cifras foram exageradas. De acordo com ela, o fenômeno vem acontecendo a cada dois anos há 10 ou 15 anos: “estamos falando de 65, 69 mortes desde então, não mais.”

Depois de realizar visitas à região, Talwar apresentou seu relatório nesta sexta-feira (22/08). Segundo ela, “se os jardins fecham, sem investimento e sem trabalho, buscando apenas lucros, os camponeses ficam sem sustento. E o governo não tem controle sobre tudo isso”.

Algumas ONGs e grupos de ativistas registram as mortes dos camponeses e dão outros números. Os membros do Grupo de Socorro aos Trabalhadores de Chá em Dooars e Darjeeling (Dawn, por sua sigla em inglês) apresentam, além disso, imagens que não são muito diferentes das vistas pelos seus avós em 1943-44.

Entre os mortos recentes – pelo menos 46 desde outubro de 2013, segundo o Dawm – estão Daniel Oraon, Jayant Munda e Jeet Bahat Munda, que morreu na sexta-feira (18/09).

Além das carências, de novo a negação. O governo estatal de Bengala Ocidental, presidido por Mamata Banerjee, primeiro negou os fatos, depois tentou minimizá-los. Há dez dias enviou algum dinheiro e comida. Mas, dizem no Dawn, um pouco tarde demais. Dilip Biskawarma morreu há uma semana. Sem contar que há alguns funcionários denunciados penalmente por distribuir-lhes arroz não apto para consumo humano, o que acabou matando mais de uma pessoa.

O que é a fome? Talvez uma versão moderna do refrão bengali, como explica Dawn, na qual um quilo de tomates custa hoje 95 rúpias e um trabalhador camponês do chá ganha apenas 90, quando tem trabalho. É isso, provavelmente, em um país agrícola e imensamente rico.

Novo líder indiano tem biografia atrelada ao hinduísmo radical e à violência comunal

Relatório de inteligência ataca trabalho de ONGs e ativistas ambientais na Índia

Poesia sob conflito: ativismo em versos na Índia, Turquia e Ucrânia

 

Leia Mais

PUBLICIDADE

Outras Notícias

PUBLICIDADE
X

Assine e receba as últimas notícias

Destaques

Publicidade

Promoção 100 livros para os 100 anos da Revolução

Promoção 100 livros para os 100 anos da Revolução

Inspirada pela Revolução Russa, a Alameda Casa Editorial fez uma seleção de 100 livros com desconto de 20% e frete grátis. São livros que tratam da sociedade capitalista, do mercado de trabalho, do racismo, do pensamento marxista, das grandes depressões econômicas, enfim: do pensamento social que, direta ou indiretamente, foi influenciado pela revolução dos trabalhadores de 1917. Aproveite.

Leia Mais

O melhor da imprensa independente

PUBLICIDADE

A revista virtual
desnorteada

Mais Lidas

Últimas notícias

China mantém crescimento acima da meta anual

Expansão de 6,8% da segunda maior economia do mundo no terceiro trimestre fica ligeiramente abaixo da alta no restante do ano; presidente afirma que perspectivas são "brilhantes", mas que país enfrenta "sérios desafios"