Bachelet nomeia “neoliberal” para Ministério da Educação; PC volta a ter cargo no governo

Nicolás Eyzaguirre, que será responsável por reforma educacional, já foi criticado por se render ao lobby dos mercados

Victor Farinelli

Depois de quarenta dias, e após uma semana de atraso do prometido inicialmente, a presidente eleita do Chile, Michelle Bachelet, anunciou os 23 nomes que vão compor o gabinete do seu segundo governo. A posse acontece no próximo dia 11 de março.

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O Ministério da Educação, pasta que será responsável por realizar a reforma educacional prometida por Bachelet durante a campanha, será ocupado pelo economista Nicolás Eyzaguirre. O nome escolhido foi considerado decepcionante por parte dos movimentos sociais chilenos que classificam o novo ministro como "neoliberal".

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Nome de Nicolás Eyzaguirre para ministro da Educação desagradou parte do movimentos sociais chilenos

Amigo pessoal de Bachelet, Eyzaguirre foi ministro da Fazenda durante o governo de Ricardo Lagos Escobar (2000-2006), período em que foi criticado por ser “um típico socialista que se rendeu ao poder de lobby dos mercados”, segundo declarou à imprensa o ex-líder estudantil Gabriel Boric, recentemente eleito deputado pelo movimento Esquerda Autônoma.

Como ministro da Fazenda, a atuação de Eyzaguirre - no que diz respeito a políticas ligadas à educação - pode ser considerada polêmica.

Em 2005, depois que o governo de Lagos desistiu de fazer uma reforma tributária em favor da educação, ele foi o principal articulador e considerado responsável pela criação do chamado CAE (Crédito com Aval do Estado), um programa de bolsas de estudo estatais que não resolveu o problema do alto endividamento das famílias por conta da educação. Foi justamente um problema com a entrega do CAE, em abril de 2011, que provocou as primeiras marchas estudantis, no mês de junho daquele ano.

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A porta-voz da Confech (Confederação dos Estudantes do Chile), Melissa Sepúlveda, confirmou a frustração do Movimento Estudantil com o nome de Eyzaguirre: “todos sabem que é um pragmático, por isso trouxe o temor de qual será finalmente o conteúdo da reforma educacional que Bachelet pretende. Não sabemos o que ele pensa a respeito da gratuidade na rede pública, mas com relação ao lucro na educação sim, pois é bem conhecida sua relação com os privados”, critica Sepúlveda.

A dirigente estudantil se refere ao fato de que Eyzaguirre passou os últimos oito anos fazendo consultorias a empresas e organizações patronais, como a Sofofa (Sociedade de Fomento Fabril, equivalente à FIESP em São Paulo). O economista também é ligado ao Grupo Luksic, um dos mais poderosos grupos mineiros privados do país. Seu último emprego de destaque foi quando exerceu como diretor-presidente do Canal 13 de televisão, quando este foi adquirido pela holding.

PC e Assembleia Constituinte

Já em relação ao movimentos sociais e à esquerda no governo, as especulações sobre a participação do Partido Comunista na formação do gabinete de Bachelet se confirmaram em parte. A legenda voltou a ter um cargo ministerial, algo que não conseguia desde o governo de Salvador Allende (1970-1973), com a nomeação da antropóloga Claudia Pascual para o Ministério da Mulher. Porém, não se cumpriu a expectativa de que o PC teria cargos de maior relevância.

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Por outro lado, algo que pode ser considerado relevante foi a nomeação de conhecidos defensores da ideia de assembleia constituinte em cargos que podem ser preponderantes para que ela saia do papel. A começar pelo Ministério da Justiça, que será ocupado por José Antonio Gómez. Ele foi pré-candidato presidencial em junho de 2013, campanha na qual defendeu enfaticamente a realização de um plebiscito a respeito do tema.

Outro cargo importante ligado à reforma constitucional é a Secretaria Geral da Presidência (espécie de Casa Civil chilena, pasta responsável pelo manejo político). A pasta será ocupada pela senadora Ximena Rincón.

Considerada a ovelha negra do Partido Democrata Cristão (o mais conservador dentro da nova coalizão governista), Rincón participou dos eventos do movimento Marca AC na época em que o presidente do seu partido, o também senador Ignacio Walker, criticava a iniciativa por “gerar instabilidade institucional no país”.

Aposta personalista no Interior

A grande surpresa do ministério anunciado por Bachelet foi a do cargo mais importante. O Ministério do Interior, responsável pelas políticas de segurança pública e integração dos demais ministérios, além de ter atribuições de vice-presidente (é quem assume o poder na ausência do presidente), será ocupado por Rodrigo Peñailillo.

Ou talvez não seja tão surpreendente, já que o advogado é conhecido no meio político chileno por ser o principal assessor de Bachelet desde o seu primeiro governo. Segundo a jornalista Patricia Politzer, autora do livro “Bachelet em Terra de Homens”, em que narrou o primeiro período presidencial da socialista, “Bachelet tem um grupo bastante reduzido de pessoas próximas, e ainda assim não costuma dar confiança a eles. A única pessoa em que ela realmente confia é em Rodrigo Peñailillo”.

O analista político Claudio Fuentes, da Universidade Diego Portales, acredita que a nomeação de Peñailillo é uma aposta personalista da nova presidente, e ao mesmo tempo arriscada. “Ele é uma pessoa sem experiência em manejo político. É um excelente assessor, mas para comandar o ministério mais importante do país precisará de mais que isso”.

Fuentes também vê semelhanças entre Bachelet e Piñera nesse aspecto: “o primeiro ministro do Interior de Piñera foi Rodrigo Hinzpeter, que era seu advogado e homem de confiança, algo que também é arriscado, e o exemplo de Piñera mostra isso. Os deslizes de Hinzpeter no cargo afetavam muito a imagem do presidente, e o mesmo tende a acontecer com Peñailillo e Bachelet”, analisa.

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