Rodolfo Walsh: 35 anos sem o ícone do jornalismo investigativo na Argentina

Morto pela ditadura, escritor e militante teve alguns de seus livros recentemente publicados no Brasil

Dafne Melo

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La Plata, noite de 9 de junho de 1956. Um homem escuta da janela de sua casa uma frase que mudará sua vida. “Não me deixem sozinho, filhos da puta!”. O desabafo veio de um soldado ferido que morria em frente à sua porta. O grito o incomoda, o insulta. Dias depois, o homem descobre que, naquela mesma noite, o regime militar havia fuzilado 18 civis em algum lugar da Grande Buenos Aires.

Seis meses mais tarde, um conhecido lhe afirma que um dos fuzilados está vivo. O homem, sem saber muito bem por que, procura o sobrevivente e faz as primeiras entrevistas que viriam a compor uma das mais importantes obras de jornalismo investigativo e literário da América Latina. O homem se chama Rodolfo Walsh, e sua obra-prima, Operação Massacre.

Ícone do jornalismo investigativo na Argentina, Walsh foi assassinado em 1977, durante a última ditadura militar do país (1976-1983). No primeiro aniversário do golpe, o jornalista escreveu um dos documentos mais contundentes sobre o regime, a “Carta Aberta de um Escritor à Junta Militar”. No dia seguinte, 25 de março de 1977, Walsh – nessa época agrupado na organização Montoneros - caminhava rumo a um encontro com outro militante, quando agentes da repressão lhe deram voz de prisão. Com um revólver calibre 22 nas mãos, resiste, mas é ferido. E morte.

Na época em que escreveu Operação Massacre, a Argentina vivia um outro regime militar, que havia deposto o presidente Juan Domingo Perón. Na noite narrada por Walsh, um setor das forças armadas havia tentando impor uma espécie de contragolpe, com o objetivo de restituir Perón ao poder. Em meio aos enfrentamentos entre militares sublevados e os golpistas, deu-se o confronto que vitimou o soldado na porta de sua casa.

A investigação de Rodolfo Walsh sobre os fuzilamentos, que é publicada no ano seguinte, representou um revés ao governo ditatorial, que não pôde manter sua versão dos fatos. A reportagem foi primeiramente publicada em fascículos, e só depois reunida em um livro.

Politização e militância

Até então, Walsh era apenas um tradutor, jornalista e escritor de novelas policiais. A partir dessa experiência de investigação, se politiza, se transforma. “O texto intervinha sobre o próprio autor. Um movimento que no primeiro momento foi de denúncia, depois virou movimento de resistência à ditadura e passou à ofensiva contra um sistema. Isso aparece registrado nas modificações entre uma edição e outra das quatro publicadas entre 1957 e 1972”, comenta a professora de literatura hispano-americana da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Silvia Adoue, argentina radicada no Brasil que estuda a obra do autor.

Acredita-se que o corpo de Walsh tenha sido levado para a Esma, a Escola Mecânica da Armada, o maior centro clandestino de detenção e tortura do país. Calcula-se que por lá passaram cerca de cinco mil militantes. Segundo testemunhos de sobreviventes, seu corpo foi exposto para os detidos. Outro preso político afirmou que um oficial comentou: “Matamos Walsh. O filho da puta se protegeu atrás de uma árvore e se defendia com uma 22. Atirávamos muito, mas o filho da puta não caía”.  Até hoje, não se sabe o que foi feito de seu corpo, motivo pelo qual figura na extensa lista de desaparecidos da última ditadura.

Assim como quase toda obra de Walsh, a Carta Aberta causou grande repercussão. Silvia Adoue diz que um ponto comum em toda obra do argentino é a capacidade de incidir sobre a realidade. “A obra de Walsh pode ser considerada ‘de intervenção’, como diria Antonio Candido [intelectual brasileiro]. Seja porque tem uma intenção específica, seja porque prepara o ‘instrumento’, ensaia o ofício, para fazer um texto com eficiência política”, opina a professora.

Mais que de intervenção, é um jornalismo militante. “Todo texto de jornalismo é texto de intervenção. O jornalismo militante é aquele que se faz com intenção consciente e declarada. Não escamoteia a posição política do jornalista, que lida com os dados da realidade com clara intenção de mudá-la. Não confundamos isso com propaganda política, com a tarefa do publicista, que também pode ser uma forma de literatura militante. Mas o jornalista militante não se limita à tarefa do publicista. Entre outras tarefas, ele tem que investigar. O publicista não necessariamente investiga, ele comunica”, define Adoue.

O jornalismo militante de Walsh, entretanto, nem de longe o faz panfletário, no sentido pejorativo do termo. “Uma característica de grande eficiência política do autor era que seus textos não se dedicavam a ‘dar a linha’. Tinham mais a forma de uma pergunta. Um gesto que precisava ser completado pelos leitores. É uma demanda à ação, mas uma demanda pela verdade. Walsh pergunta ao leitor e lhe pede que o ajude a descobrir: ‘vamos juntos’. Não aparece com uma verdade fechada. Apresenta o que investigou, em quais condições, de onde tirou a informação. Não escamoteia nada. E pede que o leitor o acompanhe e aporte o que pode”, explica a professora da Unesp.

Literatura e novo jornalismo

Walsh não só escreveu grandes reportagens e textos de intervenção política. Também escreveu ficção. Boa ficção. Geralmente, no Brasil, não figura na lista de melhores escritores argentinos, mas para muitos críticos literários é o dono de alguns dos melhores contos da literatura argentina.

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A linguagem literária aparece também em suas obras jornalísticas. Em Operação Massacre, por exemplo, o autor remonta um pouco da vida e do cotidiano de algumas das vítimas fatais do fuzilamento, em um registro literário. Muitos apontam que a investigação de Walsh se antecipou a À Sangre Frio, do norte-americano Truman Capote e é a primeira obra de jornalismo literário.

“Não diria isso”, afirma Adoue, para quem o jornalismo literário é anterior, inclusive na Argentina, a Walsh e a Roberto Arlt, outro grande escritor e jornalista. “Mas entendo a que aponta a discussão. Costuma-se dizer que o novo jornalismo é um invento norte-americano. Tem críticos, a maioria deles argentinos, que contestam e apresentam como prova Operação Massacre, de 1957. Mas essas formas da literatura norte-americana têm só algumas características em comum com o jornalismo investigativo e militante de Walsh”, avalia.

No Brasil, foram recentemente traduzidos e publicados as obras Operação Massacre, e duas seleções de contos literários: Variações em Vermelho e Essa Mulher e Outros Contos. Neste último estão alguns dos contos célebres de Walsh, como o que dá o título à publicação, que faz referência ao sequestro do corpo de Evita Perón depois de sua morte.

Um dele é o conto "Nota de rodapé", considerado pelo crítico literário argentino David Viñas o melhor da literatura argentina. Adoue comparte essa opinião. “Primeiro, mas não principal, renova a forma do conto, vai muito longe na audácia formal, mas sem machucar o essencial da forma conto e realizando-a da maneira mais eficiente. Ele mantém a tensão até o final e não resolve a tensão”, analisa. A eficácia do conto reside na correspondência entre a forma e o conteúdo do conto. “Eis a eficácia estética, literária: a forma é portadora do significado. A forma desvenda o que permanece oculto para os personagens. A eficácia política do texto reside em que o desenlace não resolve a tensão, ao contrário, a leva ao limite do tolerável para o leitor. O efeito é inquietante. Não é uma literatura tranquilizadora. É mobilizadora”, resume Adoue. 

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