A saga das cinco: italiano filma companheiras de cubanos presos nos EUA

"As Esposas Cubanas" mostra como vivem as esposas, mães e filhas dos antiterroristas, capturados em 1998 pelo FBI

Daniella Cambaúva

“A saudade, a dor, a necessidade de tê-lo ao meu lado... Quando estou trabalhando, me sinto útil. Porém, quando fecho a porta, fico sozinha. Dói, dói muito. Porque é injusto!”. O desabafo de Rosa Aurora Freijanes Coca sai com dificuldade, engasgado. Tentando resistir às lágrimas, a cubana narra os últimos 14 anos em que esteve longe do marido, Fernando González Llor.

A solidão não é a única dificuldade que Rosa enfrenta. Sua vida se tornou uma luta constante pela libertação do companheiro desde 12 de setembro de 1998, quando ele e outros 12 agentes cubanos foram presos pelo FBI nos Estados Unidos. O grupo que integrava, Rede Vespa, estava infiltrado em organizações de extrema-direita de Miami para investigar ações de boicote a Cuba. Na época, táticas anticastristas – como jogar pragas em lavouras cubanas, interferir nas transmissões da torre de controle do aeroporto de Havana e instalar bombas em hotéis – eram bastante frequentes.

Após serem descobertos, quase todos foram presos. Somente um dos 14 conseguiu escapar. Oito fizeram acordos, enquanto cinco foram condenados: Fernando González, René González, Antonio Guerrero e Gerardo Hernández Ramón Labañino. Fernando pegou 22 anos. Mas Rosa não está sozinha na luta contra as condenações. Ao lado dela estão também Olga Salanueva, Elizabeth Palmeira e Adriana Pérez, esposas de René, Ramón e Gerardo, estes últimos condenados a duas penas de prisão perpétua e perpétua mais 216 meses de prisão, respectivamente.

É justamente essa história, das cinco mulheres, que o documentarista italiano Alberto Antonio Dandolo conta em seu último trabalho, The Cuban Wives [As Esposas Cubanas]. A proposta, conforme explicou em entrevista a Opera Mundi, é mostrar como vivem as esposas, mães e filhas dos cinco. “O documentário, em primeiro lugar, é um documentário de investigação humana, antes se ser político. Como cinco mulheres, ou cinco famílias, podem viver nessa condição absurda e lutando todo esse tempo pelo regresso dos familiares, dos homens que amam?”

O trabalho recebeu o prêmio Malvinas no 27º Festival de Cinema Latino-americano de Trieste, na Itália e já foi exibido na Alemanha, no Saara Ocidental, Itália, Espanha, Venezuela, EUA e Argélia. Agora, Dandolo se prepara para exibir o documentário em Cuba. A expectativa é grande na ilha caribenha.



Opera Mundi: Como foi o envolvimento com a história dos cinco cubanos?
Antonio Dandolo: Conhecia Adriana Pérez e Olga Salanueva na Embaixada de Cuba em Roma, em maio de 2010. Elas haviam ido se encontrar com Fabio Marcelli, representante de uma delegação de advogados italianos do Centro de Pesquisa de Jurisdição Internacional. Marcelli acompanhou as audiências da Corte em Miami, em 2004, e na Corte de Atlanta, em fevereiro de 2006 e agosto de 2007. Quando ouvi Adriana e Olga, senti um forte desejo de ajudá-las. Mesmo não sabendo ainda os detalhes, pude perceber a autenticidade e a força do amor que ligava aquelas mulheres aos maridos. Então, decidi usar o que tinha à minha disposição: o cinema.

OM: Qual é a principal mensagem que o senhor quis passar?
AD: Antes de política, se trata de um documentário humano. Como cinco mulheres ou cinco famílias podem viver nessa condição absurda e lutando todo esse tempo pela volta dos familiares, dos homens que amam? Logo, o principal tema do filme é essa relação de amor. Quando me perguntam por que um diretor italiano está falando de um tema tão distante, digo que o direito internacional não conhece cultura, fronteira. Temos que defender os direitos das pessoas antes dos direitos de um país. Essas mulheres estão vivendo uma pena cruel, não podem ver seus maridos.
 

Wikimedia Commons
OM: Entre as histórias narradas no documentário, houve alguma que chamou mais sua atenção?
AD: A da mãe de Tony. Ela fala dos 13 anos [hoje 14 anos] vividos sem o Dia das Mães ao lado dele. No entanto, as histórias dessas mulheres são tão iguais e, ao mesmo tempo, tão diferentes, que sobre cada uma delas é possível se envolver de uma forma. Posso dizer que, depois de muitas exibições, em países diversos, cada um sente uma história em particular. Depende do passado de cada um. Imagino que uma senhora irá se relacionar com a de Adriana [mulher de Gerardo], por exemplo. Já uma menina de 18 anos, que não tem relação com algum familiar, vai se identificar com Irmita [filha mais velha de René].

OM: Como o senhor recebeu a notícia sobre a exibição do festival em Cuba?
AD: Foi uma seleção do festival latino-americano. Muitos podem dizer que, pelo fato de o filme falar sobre Cuba, está automaticamente apto a participar de um festival tão importante. Mas acredito que, mais do que o tema, existe a vontade desse país de se abrir a outros pensamentos, de diretores e autores que chegam de outras partes do mundo com distintas visões sobre essa questão. Enfim, estou muito contente.

OM: Como deve ser a recepção em Cuba?
AD: Me lembro que, na gravação, jovens de Havana que estavam conosco, como assistentes, me confessaram: “Não sabíamos nada sobre essas mulheres”. Os cinco são um símbolo, mas não se sabe realmente quem são. O advogado deles argumenta muito bem na entrevista para o documentário, quando fala que o povo norte-americano tem que descobrir quem os cinco são singularmente. Além disso, os cubanos têm que compreender quem são essas mulheres.

Alguns pensam que elas vivem em uma situação diferente porque os cinco, na visão do governo, são heróis e, por isso, elas estão em castelos. Mas, na realidade, elas são comuns. São mulheres que lutam, mesmo depois de toda essa história, para ter uma vida normal, uma família, como todos. E, além de trabalhar, são personagens públicos.

OM: Seu trabalho teve como objetivo um impacto político?
AD: Sim. Quero sensibilizar as pessoas e também fazer uma pressão política. Esse é meu trabalho: falar de situações em que as pessoas podem sentir a questão de outro ponto de vista. É preciso que Barack Obama os veja, que os norte-americanos entendam realmente qual é a situação. Isso porque, neste ano, houve muito terrorismo midiático contra os cinco. Sou totalmente a favor da libertação e o documentário, nesse sentido, é uma arma muito potente.

OM: O senhor se envolveu pessoalmente na luta?
AD: O site do documentário é uma campanha pela libertação dos cinco. Mas uma coisa é defender os direitos internacionais. Outra coisa é fazer uma propaganda política. Não estou falando de Cuba como um país onde não há problemas, pois há muitos. Todos sabem. Mas a luta das mulheres dos cinco pode ser reproduzida em qualquer lugar do mundo onde há uma violação de direito internacional. Não é uma propaganda política pró-Cuba. É uma propaganda política pela libertação de cinco pessoas inocentes.

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