Em depoimento, Bradley Manning nega ter traído EUA

O soldado norte-americano, porém, se declarou culpado por ter vazado documentos oficiais

João Novaes

Agência Efe

Imagem de Manning em 24 de outubro de 2010


Atualizada às 20h40

O soldado norte-americano Bradley Manning se declarou culpado nesta quinta-feira (28/02) por ter vazado centenas de milhares de documentos confidenciais da diplomacia do país ao site Wikileaks, além de outras nova acusações menores. As informações são do jornal britânico Guardian, da agência Efe e do Wikileaks.

No entanto, o militar de 25 anos nega ter “ajudado o inimigo”, acusação mais grave que pesa sobre ele e que, se confirmada, poderá resultar até em prisão perpétua.

No depoimento, Manning afirma que uma das razões que o motivaram a tomar a iniciativa de tornar as informações públicas foi o caso conhecido como “Assassinato Colateral”, durante a guerra no Iraque, que culminou na morte de um jornalista da Reuters, seu motorista e outras pessoas no bairro de Nova Bagdá pelo exército norte-americano. Eles foram mortos por um helicóptero apache que atacou indiscriminadamente civis. A Reuters  tentou, sem sucesso, obter o vídeo através da Freedom Information Act, lei que determina a abertura de arquivos do governo, mas este vídeo só veio a público através do Wikileaks.

“Fiquei perturbado com o tratamento que deram às crianças feridas”, referindo-se a duas crianças que ficaram gravemente feridas no episódio. “Os que estavam no vídeo não pareciam se preocupar com o valor da vida humana, ao se referirem a elas (às vítimas) como bastardos”.  

Em seu depoimento de hoje, de 35 páginas, Manning ainda falou que, com o vazamento, tinha a intenção de "çevantar um debate público sobre o papel da diplomacia e das Forças Armadas".

Outra revelação importante feita por Manning é que, antes de procurar o Wikileaks, ele chegou a ligar para o mais tradicional jornal norte-americano, o The New York Times, gravando mensagens e deixando contatos, além de explicar o que tinha em mãos. E também contatou seu principal concorrente, o Washington Post. Simplesmente não obteve respostas. Foi quando procurou o Wikileaks e manteve uma conversa com um internauta identificado como “OX”, provavelmente o jornalista australiano Julian Assange, fundador do site. Ele também tentou contatar o site progressista norte-americano Politico.com. Porém, o mau tempo impediu o contato.

Através de seu advogado, David Coombs, Manning admitiu ter divulgado documentos sigilosos a terceiros não autorizados. No entanto, negou ter colocado a informação diretamente na internet.

Ele também negou que, na época que repassou as informações ao Wikileaks, “tinha razões para acreditar que essas informações não seriam usadas para prejudicar” o país.

O acusado do maior vazamento de documentos secretos da história americana para o Wikileaks reconheceu através de seu advogado, David Coombs, ter possuído e transmitido a algumas pessoas não autorizadas informações sigilosas.

A admissão de culpa pode acarretar em uma pena mínima às acusações de menor gravidade, do total de 22 apresentadas pelo governo dos EUA. Por cada acusação, ele poderá responder por dois anos. Se for considerado pelas acusações mais graves, ele poderá passar o resto dos dias na prisão.

A coronel Denise Lind, juíza militar responsável pelo caso (não haverá júri), explicou posteriormente que isso implica ter "revelado sem autorização informações sigilosas a uma pessoa não autorizada".

Manning respondeu rapidamente às perguntas da juíza, que lembrou ao soldado de 25 anos que, com esta declaração, admite ter utilizado de maneira inadequada vídeos secretos, memorandos e registros das operações no Iraque, Afeganistão e do Comando Sul.

Denise ressaltou que a acusação deverá provar durante o julgamento, que é esperado para julho, que a informação vazada por Manning foi prejudicial à "defesa nacional" e que o soldado se excedeu em sua autoridade quando era analista de inteligência no Iraque.

A declaração de culpabilidade de hoje não evita que a Procuradoria tente que Manning seja declarado culpado por todas as 22 acusações, já que não houve acordo entre acusação e defesa. O julgamento deverá começar em meados de junho.

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