ONU e OEA rechaçam versão de presidente mexicano sobre caso de Ayotzinapa

Versão do governo fala que 43 jovens foram vítimas de grupos criminosos; autoridades Internacionais criticam determinação e falam em "falta de resposta adequada"

Redação

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Representantes da ONU e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão integrado à Organização dos Estados Americanos (OEA), rechaçaram nesta segunda-feira (03/09) a versão dada pelo presidente do México, Enrique Peña Nieto, de que os 43 estudantes de Ayotzinapa, desaparecidos desde 2014, foram incinerados por membros de um cartel de drogas. 

Ao visitar a antiga escola, no estado de Guerrero, a representante da Organização dos Estados Americanos (OEA), Esmeralda Arosemena de Troitiño, criticou o fato de que “até o momento, nenhuma mudança foi feita na narrativa governamental”. Segundo Troitiño, a versão que Peña Nieto trata como “verdade histórica” deve ser abandonada “de uma vez por todas”. 

O representante do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, Jan Jarab, demonstrou apoio às famílias e falou que o caso não ofuscou outros desaparecimentos no México, mas “tornou visível toda a tragédia do desaparecimento forçado e a falta de resposta adequada por parte do país”. 

O posicionamento de autoridades internacionais vem na semana seguinte à declaração do mandatário mexicano, que disse então estar “convicto” de que a polícia não está envolvida no caso do alunos de Ayotzinapa. Em um vídeo, Peña Nieto afirmou que a Procuradoria Geral da República do país apresentou provas “contundentes” que esclarecem o caso, além de lamentar que familiares das vítimas não aceitem a determinação. 

Em setembro de 2014, 43 alunos de Ayotzinapa desapareceram; desde então, versões são contraditórias (Flickr/Reprodução)

Ainda segundo membros da ONU e da CIDH, ao menos 147 perguntas sobre o papel do Estado mexicano “na busca, na investigação criminal e nos inquéritos” seguem sem resposta à comunidade internacional. 

Os 43 desaparecidos 

Em 26 de setembro de 2014, 43 jovens da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, em Ayotzinapa, desapareceram. Os normalistas (como são chamados alunos de 1º grau) estavam indo até a cidade de Iguala, no estado de Guerrero, para um protesto contra o governo.

O ônibus em que o grupo viajava foi interceptado pela polícia no caminho até Iguala e, a partir daí, as versões são contraditórias. Segundo a investigação oficial realizada pela PGR, os estudantes teriam sido presos a mando do prefeito de cidade, José Luis Abarca, a fim de evitar o protesto.

A PGR concluiu que os estudantes foram executados com tiros na cabeça e seus corpos incinerados e despejados em um rio. O prefeito da cidade foi afastado do cargo e, após um mês foragido, foi preso sob a acusação de integrar o grupo de narcotraficantes Guerreros Unidos.

Entretanto, para os demais alunos da escola de Ayotzinapa e pais das vítimas, as conclusões divulgadas após a investigação conduzida pela PGR não se sustentam por falta de provas definitivas.

Para eles, a versão oficial visa acobertar outros envolvidos no crime. Documentos fornecidos pelo estado de Guerrero indicariam a presença da polícia federal e do exército na operação.

Até mesmo um relatório do órgão mexicano que reúne exército e polícias do país teria registrado os horários da chegada das tropas federais ao local.

Outra evidência que contradiz a conclusão da PGR é um vídeo divulgado na internet, gravado por uma das vítimas, em que se ouve a voz de um estudante dizendo "os policiais já estão indo. Vão ficar só os federais e vão querer nos atacar".

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