‘Ovos como arma de guerra’: contra especulação, venezuelanos criam campanha nacional de boicote

Segundo economista Manuel Sutherland, ovo é o verdadeiro termômetro da economia venezuelana, até mais que o dólar, já que a produção sempre foi nacional

Fania Rodrigues

Caracas (Venezuela)

Os efeitos da crise econômica na Venezuela são sentidos diariamente na economia doméstica do país. Os preços dos alimentos dispararam nos últimos meses, impedindo que os trabalhadores comuns tenham acesso a alguns produtos.

Um exemplo disso são os ovos de galinha, a proteína mais popular do país, que converteu-se um produto para poucos - já que que custa quase um terço do salário mínimo, atualmente em 150 mil bolívares (R$ 35). A depender de onde se compra, a dúzia de ovos custa entre 35 mil bolívares (R$ 10) e 50 mil (R$ 11,25).

O valor está acima da média de preços cobrados nos Estados Unidos (R$ 4,60) e no Brasil (R$ 7). Na equação, é preciso levar em conta que os custos (salário, produção, transporte, gasolina, água, luz e telefone) são 90% mais baixos na Venezuela do que em comparação com os países da região.

Para alguns cidadãos venezuelanos, como o professor aposentado Saul Molina, os “ovos são a nova arma de guerra na Venezuela”. Residente do estado venezuelano de Táchira, na fronteira com a Colômbia, Saul conta que os comerciantes inclusive marcam os preços em moedas estrangeiras e em alguns casos até se recusam a aceitar a moeda local, o bolívar, o que é ilegal.

FORTALEÇA O JORNALISMO INDEPENDENTE: ASSINE OPERA MUNDI

“Aqui no estado de Táchira, muitos negócios nem sequer aceitam mais o bolívar. Temos que pagar com pesos colombianos ou dólares. É assim com qualquer coisa que vamos comprar, mesmo um pão. Isso é ilegal, é um delito contra o povo venezuelano”, diz.

Molina se juntou a uma campanha nacional de boicote a alguns produtos que estão os preços muito acima do valor de mercado. “Tem que haver uma ação contundente. Necessitamos organizar a população para fiscalizar os negócios, e assim poder frear a especulação.”

Imagem da campanha de boicote a ovos com preço abusivo (Reprodução)Pelas redes sociais, surgiu um movimento pelo boicote, de forma espontânea. Os ovos encabeçam a lista e a hashtag #NoCompreHuevos (#NãoCompreOvos, em português) já é popular na Venezuela. 

No estado de Miranda, mais precisamente na região chamada Altos Mirandinos a dona de cada Amparo Trujillo afirma que os preços começaram a cair. “Vi essa semana em 28 mil bolívares”. Já na cidade de Puerto Ordaz, no estado de Bolívar, o preço continua alto, apesar de ser uma região produtora de ovos, segundo o funcionário público Antonio Valdéz. “Aqui custa 35 mil bolívares. Ninguém sabe explicar porque, já que essa região abriga uma das maiores produtoras do país”, afirma.

Pelas ruas de Caracas, comprar uma caixa de ovos e a levar de forma visível nas mãos faz com que seja difícil caminhar mais de 100 metros pela rua sem que alguém pergunte quanto foi e onde se comprou.

Preço

Mas, afinal por que o preço dos ovos preocupa tanto aos venezuelanos? O economista Manuel Sutherland diz que o ovo é o verdadeiro termômetro da economia venezuelana, até mais que o dólar. “A produção de ovo sempre foi nacional. Ademais é uma das proteínas mais baratas, junto com a sardinha. É um medidor da capacidade de alimentação da população. Mas agora os ovos estão sofrendo um incremento de preço forte.” 

As causas são variadas. O fato de ser um alimento altamente perecível gera uma pressão no mercado, o que o deixa mais suscetível à flutuação de preço e aos desequilíbrios da economia. Isso não acontece com produtos não perecíveis, que podem ser estocados quando o preço não convém ao produtor ou comerciante.

Outras proteínas de origem animal como a carne, o frango e o queijo, todos alimentos geralmente produzidos no país, também refletem a atual situação econômica do país. “Mesmo entre a classe média o consumo de proteína diminuiu. Os venezuelanos consumiam em média 3 quilos de carne por semana, antes de 2017. Agora, consomem 200 gramas”, afirma o economista Manuel Sutherland. 

No entanto, apesar das dificuldades, é visível como o nível do abastecimento dos supermercados, farmácias, feiras livres e até mesmo lojas de produtos importados melhorou esse ano, se comparado com os dois anos anteriores. Além disso, agora as marcas estrangeiras já não são as mais vistas no comércio. Os produtos nacionais dividem espaço como produtos menos conhecidos vindos da China, Turquia, Rússia e Brasil.

Fania Rodrigues/Opera Mundi
Volatilidade do preço da dúzia de ovos leva venezuelanos a boicotar produto

Porém, nas lojas de importados, conhecidas na Venezuela como bodegões, predominam alimentos de origem estadunidense, como biscoitos, pasta de amendoim,  creme de avelã, molhos de todo tipo, cereais e itens de higiene pessoal, que são vendidos diretamente em dólares. Isso porque o bloqueio vale para as grandes compras do governo venezuelano, mas as compras em quantidade pequena ou média, feitas por empresas privadas, passam ilesas ao bloqueio.

Expansão em meio à crise

O empresário Fernando Aguero trabalha com comercialização de alimentos, tanto para o setor público como o privado. Apesar da crise, sua empresa expandiu os negócios no último ano. Ele traz arroz do Brasil e do Suriname, mas também trabalha com produtos nacionais, como carne e queijo. Sua empresa é intermediária entre os produtores e os supermercados.

“Nossas vendas continuam em alta, estamos em expansão. Mesmo neste ano, conseguimos expandir. As vezes o que acontece é um estancamento de produto temporário por conta da flutuação dos preços.”

Empresários como Aguero precisam lidar todos os dias com a especulação causada pela pressão política sobre a Venezuela. “Nesse momento, um quilo de queijo custa mais caro na Venezuela que na Colômbia. Um quilo de arroz na Venezuela custa cerca de 1 dólar, mas duas semanas atrás custava mais de 2,5 dólares. Tem havido uma espécie de espiral onde sobem e baixam os preços. Tem sido assim todo esse ano de 2019. Cheguei a vender um caminhão de arroz de 30 mil quilos por 4,5 mil e depois a mesma quantidade por 30 mil dólares, em um intervalo de um mês”, destaca o empresário.

Já o bloqueio econômico, ainda que incida pouco no setor privado, começa a dificultar as transações financeira e a importação de produtos de países cujos governos fazem oposição ao presidente venezuelano Nicolás Maduro.

“O bloqueio nos afeta diretamente. Os materiais para empacotar, como plástico e papel, para a embalagens primária e secundaria são todos importados. Antes eram trazidos diretamente do Panamá, mas agora temos que enviar primeiro para a Colômbia e com isso fica mais caro”, relata Aguero.

O empresário explica ainda que teve que adotar formas de pagamentos não convencionais, diante da ameaça do governo estadunidense em sancionar bancos que recebem pagamentos relacionados à Venezuela. “Tivemos várias contas fechadas, sobretudo no Panamá. Hoje qualquer banco que detecta que temos atividade comercial com a Venezuela bloqueia nossas contas. Atualmente, temos que trabalhar com pagamentos em dinheiro vivo, na maior parte dos casos”, afirma o executivo, que compra alimentos a granel, empacota em tamanho comercial e revende.

Para conter os efeitos da crise, o governo venezuelano, vem implementando medidas emergenciais. “O governo está comprando alimentos produzidos na Venezuela, em grande volume, e pagando em moeda estrangeira. Semana passada, comprou 5.000 toneladas de carne para distribuir em mercados municipais a um preço mais popular. Isso também é um incentivo aos produtores nacionais”, ressalta o empresário.

Guerra econômica 

“A Venezuela vive uma economia de guerra”, disse recentemente o presidente Nicolás Maduro. Os índices estabelecidos pelas agências de classificação de risco em relação à Venezuela são parecidos aos números de países em guerra, como Síria e Iêmen.

O bloqueio imposto pelos Estados Unidos a partir de 2017 agravou os problemas econômicos que se arrastam desde 2014, fruto a queda do preço do barril de petróleo, da diminuição da produção petroleira e da constante instabilidade política, esta última igualmente influenciada pela pressão de governos estrangeiros. Além disso, o dólar paralelo, cujo valor é divulgado em sites sem vinculação ao Banco Central do país  é um fator de desestabilização na economia venezuelana.

Tudo isso contribui para aumentar a inflação. Assim também como algumas medidas do governo nacional, como a emissão excessiva de moeda nacional e o déficit fiscal que vem crescendo nos últimos cinco anos. 

“O fator principal que influencia na subida de preços é a emissão de dinheiro excessiva. No mês de setembro, foram emitidos certa de 30% da base monetária, segundo informações do Banco Central. Como o país está produzindo pouco, quando esse dinheiro entra na economia encontra os mesmos bens e serviços. O que faz então que os preços subam”, diz Sutherland.

Comentários

Leia Também