Oposição da Bolívia não contava com reação popular, diz ex-embaixadora venezuelana no país

Para Crisbeylee González, Evo Morales não deveria ter confiado na OEA; diplomatas voltaram à Venezuela após receberem ameaças do governo interino e serem alvo de ataques xenófobos

O governo interino autoproclamado da senadora opositora Jeanine Áñez começou prometendo "caçar" o ex-ministro Juan Ramón Quintana, Raúl García Linera – irmão de Álvaro Garcia Linera – e também cubanos e venezuelanos que estejam vivendo na Bolívia.

A ameaça foi feita publicamente pelo ministro do Interior, Arturo Murillo, nomeado por Áñez.

As palavras do ministro foram uma declaração de guerra do governo interino, instaurado após o golpe de Estado na Bolívia, contra a missão diplomática venezuelana.

Mais tarde, a ministra de Comunicação do governo interino, Roxana Lizárraga, acusou as diplomacias cubana e venezuelana de serem responsáveis pela violência desatada no país.

As declarações vieram logo depois de um ataque à sede diplomática venezuelana em La Paz, no dia 11 de novembro. Milícias armadas rodearam a embaixada com explosivos e ameaçaram invadir o edifício.

Mas a hostilidade opositora não começou com o golpe. Segundo Crisbeylee González, diplomata venezuelana na Bolívia há mais de dez anos, desde 2008 a embaixada é ameaçada pelas organizações que faziam oposição ao governo de Evo Morales e Álvaro García Linera.

Em dias de tensão, Crisbeylee, que também é amiga pessoal de Morales, decidiu proteger a sua equipe e retornar ao seu país.

No dia 17 de novembro, o corpo diplomático venezuelano, composto por 13 funcionários, junto dos seus familiares embarcaram num voo da empresa estatal venezuelana Conviasa de La Paz para Caracas.

De volta a casa, a embaixadora conversou com o Brasil de Fato, recordando e denunciando o terror vivido nos últimos dias.

Brasil de Fato: Como vocês receberam a notícia de que teriam que sair do país? Essa hostilidade já existia antes?

Há muito tempo [a oposição] fala do “bunker chavista” que seria a embaixada da Venezuela, no qual estaríamos “ideologizando” movimentos populares e jovens bolivianos. Inclusive falavam em um suposto cerco que nós teríamos feito com Evo para que ele não abandonasse a proposta socialista, bolivariana.

Em algumas etapas essa xenofobia se acirrava, como em períodos eleitorais. Cada vez que havia alguma eleição ou tentativa de golpe, o primeiro alvo era o presidente Evo Morales e em seguida a embaixada da Venezuela. A missão diplomática sempre foi um elemento a ser combatido.

Desde 2012, quando houve uma tentativa de golpe policial, começaram a dizer que a nossa embaixada realizava treinamentos militares aos bolivianos. Uma matriz de opinião muito similar àquela criada no Chile, no período de Salvador Allende contra os cubanos.

Com isso, conseguiram criar dentro das classes médias uma xenofobia impressionante contra os venezuelanos.

Os meios de comunicação ajudaram a criar uma matriz de opinião adversa aos venezuelanos que, de alguma maneira, germinou.

Nesses dias [após o golpe], o primeiro que fizeram era dizer que os venezuelanos tinham que ir-se, que eles iriam atacar os venezuelanos. Diziam isso quando ainda nem haviam sido realizadas as eleições do dia 20 de outubro eles já diziam que iriam atacar a embaixada.

E quem fazia essas ameaças?

Cada dia era uma pessoa diferente, mas sempre eram os porta-vozes do golpe.

A situação mais grave foi quando o ministro do Interior começou a falar da presença venezuelana e a dizer uma infâmia: de que nós estaríamos vinculados a atividades subversivas ou delitivas no país.

Quando se dá o golpe de Estado, o presidente Maduro disse que nós saíssemos de lá, porque a situação era de um ataque permanente, constante e progressivo contra a missão diplomática venezuelana.

Nesse momento nós pedimos a permissão para sobrevoar o país e durante sete dias não nos deram.

Houve pressão internacional para que pudéssemos fazer esse sobrevoo, porque não se tratava só de nós, oito diplomatas, mas também das nossas famílias, o que inclui sete crianças, sete idosos, além das esposas e esposos, familiares, completando um grupo de 33 pessoas. Assim que nós tínhamos que preservar a vida dessas pessoas.

Dentro disso tudo também há um componente machista. Eles são os machos, fortes, eu sou mulher, a embaixadora mais antiga do nosso corpo diplomático, que é majoritariamente feminino.

Em nenhum momento nós influenciamos ou fizemos o presidente mudar de ideia sobre algum assunto. Se fosse assim, teríamos dito há muito tempo que ele não poderia confiar na OEA [Organização dos Estados Americanos]. E não fizemos, porque mantemos respeito total com as decisões soberanas do presidente Evo Morales.

Como foi a volta para Venezuela?

Nós saímos de madrugada, com a cidade de La Paz ainda bloqueada rumo à cidade de El Alto.

Lá nós tomamos o primeiro voo da Conviasa que aterrissou, fizemos uma escala em Santa Cruz. Fomos humilhados, fomos colocados numa fila para que todos vissem o que eles fazem com “diplomatas que se comportam mal”.

Finalmente os trabalhadores do aeroporto se aproximavam e pediam perdão pelo que estava acontecendo e nos prometiam que iríamos voltar. Essas coisas nos dão muita satisfação.

Fomos embora muito tristes, mas certos de que esse povo não vai permitir que esse golpe siga seu curso.

Nos primeiros dias, parecia que a oposição boliviana seguiria o mesmo roteiro da oposição venezuelana, com Camacho cumprindo o mesmo papel de “outsider” político como Guaidó. No entanto, logo em seguida houve uma guinada fascista muito rápida nessa trama do golpe. Para você, que estava lá, era possível sentir ou prever que o golpe poderia acontecer?

Sim. Nós dizemos que chegamos do futuro para dizer o que iria acontecer, não porque somos os iluminados, mas porque combatemos vários golpes organizados pelos gringos e pela OEA. Então, para nós era a somatória de elementos que levariam ao precipício.

De forma muito respeitosa com tudo que acontecia, lembramos que governo não deveria confiar na OEA, que desde sua criação foi um instrumento dos Estados Unidos contra os povos livres, contra os processos progressistas.

[Os golpistas] necessitam não apenas a renúncia das lideranças, mas também eliminá-las, por isso as ameaças de morte contra o presidente Evo Morales e demais dirigentes.

Toda a estratégia golpista foi produzida de maneira rápida, mas além de tudo fraudulenta, porque eles queimaram atas, queimaram locais de votação.

Se eles estavam certos de que haviam ganhado e de que Evo havia escondido os votos, por que queimaram os locais de votação?

Se eu estou segura de que ganhei as eleições, eu protejo os locais de votação, coloco fiscais, para garantir meu triunfo.

E a oposição faz isso com um fanatismo total, usando a cruz das cruzadas, caminham com velas, com bíblia, uma exacerbação do ato religioso que deixou todos pasmados, porque ninguém pensava que isso podia convencer a muitas pessoas para que seguissem esse homem. Camacho está seguro que vai ser o próximo presidente e que em 90 dias Áñez convocará eleições.

No entanto, em algumas entrevistas que concedeu ela disse que talvez sejam necessários mais que 90 dias, ao mesmo tempo que concedeu novos benefícios para a junta militar.

Isso nos faz recordar regimes ditatoriais dos anos 1970 no nosso continente, que se instalaram primeiramente por 15, 20 dias e logo estiveram no poder por décadas.

Na Bolívia, a oligarquia pensava que já havia ganhado e imediatamente abaixou o mastro com a bandeira Whipala em frente à Assembleia Plurinacional, a polícia cortou esse símbolo dos seus uniformes e isso significou uma dor, uma tristeza muito grande para essa população indígena, que se viu dilacerada não apenas porque obrigaram Evo Morales a renunciar, senão pelo fato de ter amassado a alma do povo indígena boliviano com a queima da sua bandeira.

Eles [oposição] não contavam com o povo, pensavam que tudo se resolveria com o bloqueio que fizeram anteriormente, com o apoio dos meios de comunicação.

Por que quando os ricos tomam o poder querem nos matar? E quando nós chegamos ao poder a única coisa que queremos é paz? Essa é a grande diferença entre nós.

Para nós nos importa o direito e o respeito à vida, enquanto para eles é necessário matar a população pobre, porque é a que vai resistir contra esses processos, para que eles possam seguir mantendo a dominação e o seu poder. 

Eles escondem a violência detrás de um discurso de ‘pacificação’ do país. Uma pacificação à base de fogo, armas e com mentiras, porque ocultam o que está acontecendo nas comunidades.

Qual foi o legado de Evo Morales? Quais ações podem ter incomodado tanto esse setor oligarca?

Evo é um homem muito humilde, muito trabalhador. É desses presidentes que acordam às 4h, 5h da manhã e trabalham até tarde da noite e está todo o dia buscando a forma de melhorar as condições de vida do seu povo.

Por isso ele consegue abrir algumas fissuras no modelo neoliberal para a distribuição da riqueza, enquanto se constrói um caminho para a justiça social.

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Golpistas não consideraram reação popular, diz ex-embaixadora da Venezuela na Bolívia

Ele não representava apenas ao movimento indígena e camponês. Ele também se preocupa com as classes médias, com os jovens que deveriam ter mais expectativas.

Desde que eu cheguei na Bolívia até o dia que fui embora, o país era outro completamente diferente. Foi um giro de 180º.

Na Bolívia que conheci as mulheres com polleras [saia usada pelos povos indígenas] não entravam nos aviões e depois chegamos a um momento que já era difícil encontrar passagens para qualquer região, isso porque o poder aquisitivo do povo melhorou.

Assim como a educação; a saúde; os índices macroeconômicos que já todos sabemos; a infraestrutura das cidades; a interconexão do país, não só para unificar o país, mas porque os produtos dos camponeses bolivianos precisava chegar a outros destinos.

Além disso tudo, depois de não ter conseguido uma saída ao mar, Evo estava construindo uma estrada interoceânica, que conectaria a hidrovia Paraguai-Paraná pelo Atlântico.

Ou seja, Evo estava em uma luta constante para melhorar o seu país e foi o que levou a Bolívia a ser um dos países mais potentes do continente hoje.

No entanto, Evo jamais realizou alguma ação direta contra as classes dominantes da Bolívia, pelo contrário, muitas vezes as incorporou nas suas medidas econômicas, dando melhores condições aos empresários. Abriu mercados em todo o mundo aos criadores de gado, latifundiários para que pudessem comercializar seus produtos.

Nos seus planos econômicos até mesmo as oligarquias de Santa Cruz estavam incorporadas, junto com as classes sociais historicamente desprovidas. Isso é o que não aceitam as classes dominantes.

Exatamente, em 2018, o governo de Evo Morales levou Carlos Mesa como representante boliviano no processo jurídico internacional na Corte de Haia, no qual Bolívia pedia ao Chile o direito de acesso ao mar. O que isso representava? Generosidade política ou uma tentativa de diálogo nacional?

Mesa não existia politicamente. Evo o resgata e lhe deu essa tarefa vital para o país. É uma demonstração de que para ele não importava a posição política, senão a convicção de lutar pelo melhor para a Bolívia.

Evo demonstra diariamente que a ele não lhe importa quem você é, a cor da sua pele, senão o seu desejo de trabalhar pela Bolívia você pode se somar.

Qual o impacto desse discurso conservador que cria uma dicotomia entre o Oriente, majoritariamente branco, com planícies tomadas pelo agronegócio contra o Ocidente, majoritariamente indígena, andino, cocaleiro e mineiro? Existe adesão de setores populares a esse discurso da oposição?

A polarização das eleições foi um reflexo disso. Mesa representava o retorno essa pigmentocracia que governou o país durante mais de 200 anos.

É muito difícil determinar quanto tempo é necessário para produzir mudanças culturais. A dominação colonial é um assunto importante a ser estudado, porque é algo que se enraíza nas pessoas e faz com que elas pensem que já é suficiente do governo do índio.

Muitos indígenas terminavam repetindo o discurso da direita, de que Evo fez um bom governo, mas já era suficiente e que agora deveriam governar novamente os brancos.

Esse foi o cenário durante as eleições, agora o cenário pós-eleitoral nos confirma o que estudamos com a ciência política, de que algum momento estaria expressada a confrontação central que é a luta de classes.

Mais cedo ou mais tarde essa confrontação latente iria aparecer, porque um setor não está disposto a abrir mão de privilégios que conquistou há mais de 500 anos, enquanto outro setor diz que não quer roubar o lugar dessa classe de privilegiados, mas exige justiça social, exige um país sem os eternos marginalizados de sempre.

Agora começa a verdadeira luta para posicionar as ideias de Evo Morales por uma pátria livre e independente, porque é o povo que assume essa demanda.

Considerando as semelhanças entre o discurso e as ações da direita venezuelana com a direita boliviana; o fato de que grandes latifundiários brasileiros financiam o Comitê Cívico de Santa Cruz, presidido por Camacho; e que apenas alguns dias depois do golpe na Bolívia, a sede da embaixada venezuelana em Brasília é atacada, podemos dizer que é evidente uma articulação da extrema direita a nível continental?

Não é casual que o primeiro presidente que reconhece Áñez é Bolsonaro, além do fantoche Guaidó. Então não é casualidade que tomam nossa embaixada no Brasil e tentam invadir nossa embaixada em La Paz, dois fatos que acontecem com uma distância temporal menor que um dia.

A agressão contra as duas sedes diplomáticas é automática, assim como a pretensão de colocar o corpo diplomático nomeado por Guaidó, tudo isso sob a pretensão de que esse já é um ‘território liberado’.

Sim, obviamente há uma articulação entre as oligarquias regionais para perseguir os processos de transformação nacional populares, socialistas.

O que representa para a Venezuela esse golpe de Estado na Bolívia?

É uma dor muito grande, muita indignação. Nas atividades que realizamos agora que chegamos aqui em Caracas, as pessoas nos recebem com choro, porque não podiam acreditar no que estava acontecendo com nosso povo irmão.

Bolívia é a filha predileta do Libertador. Então, o que significa a Bolívia para alma venezuelana? É um amor desenfreado pela liberdade. Isso em primeiro lugar.

Depois o nosso carinho imenso pelo presidente Evo Morales. Consolidamos esse amor a partir a relação que Evo tinha com Chávez, que ele mesmo dizia que era de pai e filho.

Quando Chávez faleceu, Evo carregou seu caixão desde o hospital militar até a academia militar, num trajeto de cerca de 13km, que demorou mais de oito horas. Isso nos demonstrou o amor e a lealdade de Evo Morales com o povo venezuelano e criou um nexo indissolúvel.

A indignação do nosso povo se expressa por um sentimento como se eles estivessem fazendo isso contra nós mesmos, como se Chávez novamente estivesse sofrendo um golpe.

Foi o mesmo que aconteceu com Lula, quando foi preso, sentimos como se estivessem prendendo Chávez.

Mas nós temos toda a esperança de que Evo voltará para a Bolívia, de que se restabelecerá a constitucionalidade e uma convivência pacífica entre ambas partes, que em alguma medida, são irreconciliáveis, mas que possam coexistir e encontrar alguns acordos.

Neste momento existe uma certa guerra de braço entre a Câmara de Deputados, liderada pelos parlamentares do MAS, que tentam retomar a constitucionalidade no país contra o Senado, dominado pelo governo de facto que busca se consolidar no poder. O que podemos esperar? Como o MAS poderia restabelecer a ordem constitucional e convocar novas eleições – algo que Evo já havia aceitado antes mesmo de renunciar?

Eu acho que o desenrolar dos fatos dará o caminho. Não posso prever nada, até por que chegamos há pouco mais de dois dias.

A repressão tem sido brutal, o que desmobiliza uma parte da sociedade, que clama pela paz, da maneira que seja.

Acredito que é papel da Assembleia Plurinacional rechaçar a renúncia do presidente Evo Morales e junto com ele negociar as próximas eleições.

Eu espero que mais cedo ou mais tarde a balança pese a favor dos povos. A resistência dos povos colocou em xeque esse governo imposto, eles já não podem mais esconder o massacre que tem promovido contra o povo.

Já são mais de 30 mortos em menos de 10 dias de golpe. Assim como Pinochet não pode esconder o massacre contra milhares de chilenos e chilenas, esta senhora não poderá esconder a verdade.

Estamos vendo a cara do fascismo mais retrógrado na nossa região, estamos vendo novamente o neocolonialismo, a inquisição.

Ao mesmo tempo que pregam com a bíblia nas mãos, estão vendo o sangue que escorre desde El Alto até La Paz. Isso nos faz lembrar o período da inquisição, no qual por um lado se adorava a Deus e por outro torturaram e castigavam os povos por se atrever a enfrentar o poder.

Não sei o que vai acontecer, mas devemos seguir essa história e denunciar a infâmia, a maldade que cometem contra a liderança de Evo Morales e contra o povo boliviano.

Qual o papel da Venezuela nesse processo?

Primeiro temos que seguir conscientizando nosso povo. Constatamos em todas as reuniões que fizemos até agora o nível de consciência sobre o que estava acontecendo na Bolívia. Agora temos que denunciar em cada esquina, meio de comunicação, espaço bilateral diplomático, em espaços de integração regional.

Nós também somos um país ameaçado, encurralado permanentemente, então acredito que é nossa tarefa também seguir denunciando essa ignomínia, esse massacre.

A voz é dos povos. São as organizações sociais e política que devem denunciar permanentemente o que está acontecendo, sem deixar de ver que foi um golpe que tomou os espaços de um povo livre, que agora pretende institucionalizar uma grande mentira: de que Evo renunciou e de que eles são uma democracia.

Nessa guerra de força entre a verdade e a mentira, a verdade precisa abrir caminhos, nós temos a razão. São os povos livres que demonstrarão ao resto do mundo que não nos crê que essa mentira cai pelo seu próprio peso, porque não podem esconder o sangue que escorre pelas suas mãos; não podem ocultar os mortos debaixo do tapete.
Então a tarefa não é só do povo venezuelano, mas também do povo brasileiro, dos povos latino-americanos e suas organizações são as forças que poderão sustentar essa luta.

 

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