Protesto pede saída do aiatolá Khamenei após Irã admitir ter abatido avião com míssil

Manifestantes tomaram as ruas de Teerã gritando slogans contra o líder espiritual do regime, após a revelação de que o avião ucraniano com 176 pessoas a bordo foi abatido por "engano" pelos militares do país

Redação

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Um protesto neste sábado (11/01) em Teerã pede a queda dos líderes do país, entre eles o aiatolá Ali Khamenei, guia supremo da revolução iraniana. Os manifestantes tomaram as ruas e gritam slogans contra o líder espiritual do regime, após a revelação de que o avião ucraniano com 176 pessoas a bordo foi abatido por "engano" pelos militares do país. 

A polícia iraniana tentou dispersar estudantes que participaram de uma homenagem às vítimas do Boeing ucraniano abatido por "engano", segundo admitiram autoridades do país na manhã este sábado.

Centenas de estudantes, segundo a agência AFP, se reuniram no início da noite na frente da universidade Amir Kabir para homenagear as 176 vítimas do Boeing 737 da Ukraine Airlines International. A manifestação se transformou em um protesto contra os responsáveis pela tragédia e contra os líderes do atual regime.


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Os estudantes gritavam slogans acusando de "mentirosos" e “assassinos” os responsáveis pelo drama e exigiam punição aos que tentaram encobrir a verdade.

Na manhã deste sábado, o Irã reconheceu ter abatido "por engano" com a ajuda de um míssil o voo PS752 da companhia aérea ucraniana logo depois de sua decolagem, na quarta-feira. Até então, as autoridades do país desmentiam a hipótese de um ataque com míssil evocada pelo governo canadense.

Segundo a agência Fars, próxima dos ultraconservadores iranianos, os estudantes rasgaram vários cartazes com a imagem do general iraniano Qassem Soleimani, morto no dia 3 de janeiro em um ataque americano no Iraque. A Fars publicou várias fotos da manifestação, dispersada pela polícia quando os estudantes saíram da universidade e começaram a bloquear as ruas e provocar congestionamentos.

Fato raro, a televisão estatal divulgou a manifestação e informou que os estudantes gritaram slogans contra o regime. Vídeos publicados em redes sociais, que não foram autentificados, mostram outras  manifestações pelas ruas de Terrã com pessoas expressando revolta contra os líderes do regime, chamados de "assassinos" e "mentirosos". Algumas cenas divulgadas com áudio é possível ouvir os manifestantes pedirem "morte ao ditador".

Reprodução
Manifestantes tomaram as ruas de Teerã gritando slogans contra o líder espiritual do regime


Promessa de investigação rigorosa e punição

O Comandante do departamento aeroespacial dos Guardiães da Revolução, o exército ideológico do Irã, assumiu a responsabilidade "total" pela catástrofe. Em sua declaração de cerca de 10 minutos, transmitida pela televisão estatal, o general  Amirali Hajizadeh explicou que soube do drama quando estava na região oeste do país. “Eu teria preferido morrer do que ter assistido a tal acidente", revelou, acrescentando que vai respeitar toda decisão que será tomada sobre o caso. Ele revelou que na noite do acidente, o Irã estava com o nível de alerta total devido às ameaças americanas.

O presidente iraniano Hassan Rohani falou com o presidente ucraniano Volodymyr Zelenky e prometeu levar à justiça todos os responsáveis pela queda do avião. Ele garantiu que todos envolvidos na catástrofe aérea serão julgados. Segundo a presidência ucraniana, o chefe de Estado iraniano, que teve a iniciativa da ligação, "reconhece plenamente que a tragédia foi provocada por erros dos militares do país".  Zelensky pediu à Teerã que permita o repatriamento dos corpos das 11 vítimas ucranianas até o dia 19 de janeiro.

O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, afirmou após uma conversa telefônica com o presidente iraniano, que "a confissão do Irã era um passo importante para dar uma resposta às famílias". Ele defendeu que uma "sejam totalmente esclarecidos os motivos que provocaram uma tragédia tão horrível".

O Canadá levantou a hipótese de que o Boeing 737 havia sido abatido por um míssil, o que foi inicialmente negado pelas autoridades iranianas.  A maioria das 176 vítimas era de iranianos e canadenses. No avião estavam também afegãos, ucranianos, britânicos, entre outras nacionalidades.  

O primeiro-ministro britânico Boris Johnsonafirmou que a confissão do governo de Teerã é “um primeiro passo importante” e exige uma “investigação internacional completa, transparente e independente”, além de reclamar o repatriamento dos corpos das vítimas. Ele confirmou que o Reino Unido vai participar dos esforços internacionais par esclarecer totalmente os motivos da catástrofe.

A chefe de governo alemã Angela Merkel salientou a decisão do governo iraniano de reconhecer a falha humana que provocou a tragédia. " É importante agora que os responsáveis agora seja identificados e creio que tudo deve ser feito, em conjunto com os países cujos cidadãos (mortos), para encontrar soluções, elucidar (os fatos) de maneira exaustiva e discutir as consequências. Hoje um passo importante foi dado", afirmou de Moscou, onde se encontra em visita oficial ao presidente Vladimir Putin. 

A França vai colaborar com as investigações do caso com o envio de especialistas para participar na análise das caixas-pretas do aparelho. Em conversa com o presidente ucraniano, o francês Emmanuel Macron informou que a França deu início ao procedimento oficial para a abertura de uma investigação internacional sobre o caso e se dispôs a visitar Kiev.

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