O Guardiola de Caçapava

Esse jogo foi há uns 25 anos, nem tudo lembro com exatidão. Mas tenho uma vaga lembrança de ouvir a gurizada de Caçapava chamar o técnico de ‘Pepe’

Daniel Cassol

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Quem diz que Guardiola recriou o futebol por fazer seus jogadores se movimentarem e tocarem a bola é porque não teve a oportunidade de presenciar os acontecimentos daquela tarde de começo dos anos 90, no ginásio municipal Nery Bueno Lopes em São Sepé, região da depressão central do Rio Grande do Sul. Até porque pouca gente presenciou mesmo, e entre os poucos privilegiados estavam meus pais, um ingrediente a mais para eu lembrar daquela partida como se fosse anteontem.

A prefeitura havia iniciado uma escolinha de futebol, dessas em que a gurizada passa as tardes correndo atrás da bola sem maiores preocupações. Depois de umas semanas de correria, o nosso treinador Uza, ídolo e artilheiro do futsal local na época em que a bola era um paralelepípedo redondo e não se podia fazer gol dentro da área, anunciou que dentro de alguns dias selecionaria os melhores para disputar um campeonato com escolas da cidade e da região. Não sei se vocês sabem, mas a vida de nós, jogadores de futebol, é essa eterna expectativa sobre fardar-se ou não fardar-se. Por isso foi difícil esconder a euforia quando o Uza apontou o dedo em minha direção, numa rápida cerimônia de investidura no time titular.

A fase era boa, devo admitir. Como Mohamed Salah na atual temporada ou, alguns degraus acima, Christian no lendário Inter de Celso Roth em 1997, a bola vinha e era caixa. Se a memória não falha, minha média era algo como 3 ou 4 gols por partida, o que me transformava na sensação do tal campeonato - pelo menos na minha cabeça.

Huub Zeeman/Flickr CC

Esse jogo foi há uns 25 anos, nem tudo lembro com exatidão. Mas tenho uma vaga lembrança de ouvir a gurizada de Caçapava chamar o técnico de ‘Pepe’

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Até que a tabela colocou à nossa frente um time de Caçapava do Sul.

Pra quem não conhece esta importante região brasileira, Caçapava do Sul é um município ligeiramente maior que São Sepé. Hoje em dia tem 35 mil habitantes, enquanto São Sepé tem 24 mil. Foi capital farroupilha e tem até universidade.

As razões históricas me escapam, mas sempre houve rivalidade entre os municípios. Nós, sepeenses, costumamos chamar os caçapavanos de “papa-laranjas”, não me perguntem o motivo, e eles retrucam dizendo que São Sepé não passa de uma chácara de Caçapava.

Isso eu conto para que vocês tenham ideia do que estava em jogo. Na época, eu não tinha. Pensando estar na crista da onda, de salto alto convidei meus pais para assistirem à partida. E o que eles e outras poucas testemunhas viram foi uma das maiores apresentações da história, se não do futebol, pelo menos daquele ginásio erguido às margens da BR 392. Falo do time de Caçapava, é claro.

Para encurtar o relato, tomamos o famoso arrodião. Os jogadores do time adversário pareciam pré-adolescentes vindos do futuro para nos mostrar como o futebol seria jogado no século 21. Nisso eu me sinto um privilegiado. Vi o Barcelona de Guardiola com pelo menos 20 anos de antecedência.

Ninguém dava mais que dois toques na bola, mas no geral era um toque só. Era tapa para um lado, tapa para outro e uma movimentação impossível de acompanhar. Lembro com detalhes desse jogo, a começar pelos uniformes: nós com um azul-escuro que parecia de lã e foi usado naquela tarde pelos outros times da escolinha que nos antecederam na quadra; eles impecáveis com calções brancos e camisetas azul-claro. Mas o que mais forte vem à memória é a sensação de não saber o que fazer. Nós achávamos que jogávamos futebol, mas o time de Caçapava certamente jogava outro esporte.

A superioridade era tão grande que meu único lance de destaque foi uma meia-bicicleta para salvar um gol em cima da linha. Não adiantou nada, porque eles fizeram mais de dez. Ainda fui expulso, porque a uma certa altura só nos restava avacalhar, e logo em seguida meus pais deixaram o ginásio. Nem sei o que faríamos com a bola, porque mal conseguimos tocá-la. Mas a humilhação suprema aconteceu quando, do banco de reservas, como última opção do treinador adversário, saiu um gordinho desajeitado que no primeiro toque na bola bateu nela de chapa, enganando dois marcadores e nos mostrando que todos naquele time jogavam como o treinador mandava - mesmo os que não sabiam jogar.

Esse jogo foi há uns 25 anos, nem tudo lembro com exatidão. Mas tenho uma vaga lembrança de ouvir a gurizada de Caçapava chamar o técnico de “Pepe”. E o tal gordinho, sei não, era a cara do Iniesta.

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