Nas estradas da vida: o encontro de Samuel Parente e Pedro Pessôa

Obviamente, Pessoa nem cogita responsabilizar o governo atual pela crise. Porque o pessoal se acostumou a dizer que 'a culpa é do PT'

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Nada me faz rir mais (de nervoso) do que ler as colunas de Samuel Pessôa na Folha. A mais absurda delas se chama, ironicamente, "Comédia de erros".


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O argumento de Pessoa (vou tirar o acento circunflexo a partir daqui, pra facilitar a minha vida) para a crise é que o país fabricou e facilitou o crédito de caminhões. Foi o jeito encontrado de dizer, discretamente, "a culpa é do PT". Pessoa é um economista respeitado, professor do Insper e, imagino, cobra uma bala por pareceres. Parece que seu melhor negócio é dizer sempre, com alguns números, que "a culpa é do PT".

O caso dos caminhões é um deles. A culpa da crise dos caminhões não é aquilo que em economês poderíamos chamar de "política de preços aleatórios em curva ascendente constante" da Petrobrás. A culpa não é da redução da demanda por causa da crise econômica que o país mergulhou, especialmente depois do processo de derrubada da presidente eleita em 2014. Para o economista, a culpa é do PT, que incentivou, pasmem, a renovação da frota de caminhões.

Nos anos 1980, tinha uns parentes que moravam no Vale do Ribeira, à beira da rodovia Régis Bittencourt, uma das que mais parou agora na greve-locaute dos caminhoneiros-empresas de frete. Meus sobrinhos contavam que, pelo menos uma vez por semana, um caminhão tombava na altura de Miracatu, especialmente quando a economia cresceu com o Plano Cruzado. Uma semana era bolacha; na outra, abacaxi em calda; festa mesmo rolou quando um caminhão de aparelhos de videocassete caiu.

A diversão da cidade era saber quem se aproveitou do caminhão velho que tombou, do motorista que dormiu de tanto trabalhar e da estrada destruída por anos de economia para pagar a dívida pública. Muito frequentemente, o motorista morria, mas este não era o pior dos cenários: às vezes ele matava, o que fez prosperar o negócio de compras de caixões pela Prefeitura, para enterrar aqueles cujas famílias não tinham recursos para arcar com os custos básicos da despedida desta vida. Esse negócio tornou o coveiro da cidade uma celebridade, e, depois de um ou dois mandatos de vereador, ele virou prefeito. O coveiro, que respondia pelo apelido de um passarinho, no entanto, era muito povão e, acusado de cobrar comissões pelos caixões (ou algo do gênero), foi afastado do cargo.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Obviamente, Pessoa nem cogita responsabilizar o governo atual pela crise. Porque o pessoal se acostumou a dizer que "a culpa é do PT"

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Quando se renova a frota de caminhões a juros subsidiados, o frete fica mais barato e segura a inflação; o consumo de diesel cai, e o país gasta menos com importação de petróleo; os caminhoneiros podem fazer mais viagens com menos manutenção, e a renda deles aumenta. Claro que há um limite: se os bancos forçam uma política ultrarrecessiva, a consequência é que a economia do país anda mais devagar, e gera uma capacidade ociosa dos caminhões. Se é para jogar a culpa no governo, o mínimo que Samuel Pessoa podia fazer era dividir os custos.

Obviamente, Pessoa nem cogita responsabilizar o governo atual pela crise. Porque o pessoal se acostumou a dizer que "a culpa é do PT".

O único problema é que gente como Pessoa e como Parente (que vontade de fazer piada idiota com esses sobrenomes! mas vou me conter) só olha a planilha, e colore de vermelho os números do PT mesmo quando eles deviam ser azuis. Por outro lado, mesmo os números negativos da coalizão PSDB-PMDB aparecem azuis.

Para obter tais resultados, é preciso ocultar muitos dados, é preciso achar que pelo ajuste fiscal não tem problema deixar um caminhoneiro dirigir sem comer direito, por exemplo. Achar que o país não paga pelo sofrimento individual e pelas perdas de vidas nas estradas. Ignorar que os novos caminhões poluem menos que os antigos; que as cidades ficam com ar mais limpos quando a frota é renovada. Tanta coisa tem de ficar fora da conta para sobrar recursos para o pagamento de juros...

Escolher o crédito do BNDES como culpado pela crise é algo um tanto ridículo, e por isso estou rindo de nervoso. Se os economistas não se levam a sério, fica difícil discutir economia.

Por isso eu sigo aqui na Itália, fazendo meu trabalho de revisora. Prefiro revisar textos, mas também sei revisar planilhas.

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