Alberto Fernández não é Ciro Gomes

Histórico de Fernández é de quem que vive politicamente da unidade do peronismo, não da cisão; além disso, argentino não tem projeto personalista

Victor Farinelli

Santiago (Chile)

Após a retumbante vitória de Alberto Fernández nas eleições primárias da Argentina, neste domingo (11/08), as bolhas progressistas nas redes sociais iniciaram um debate sobre o que esse exemplo traz de lição à esquerda brasileira, tendo em vista os seus erros estratégicos na eleição presidencial de 2018.

Em meio a essa discussão, vi muitos dizendo que Fernández é “um Ciro argentino”, para defender a tese de que a melhor opção no ano passado seria uma chapa encabeçada por Ciro Gomes, com Lula da Silva ou Fernando Haddad como vice, emulando a vencedora fórmula de Alberto Fernández com Cristina Kirchner como vice. 

Porém, essa comparação de Alberto Fernández com Ciro Gomes é um pouco equivocada. Ela parte da suposição de que o peronista é uma figura mais moderada e de centro, e que esse seria o caminho para uma aliança mais ampla, teoricamente a única opção capaz de vencer a direita. Considero que essa leitura também está errada.

Para melhor entender os problemas dessa tese é preciso analisar detalhes da biografia do candidato argentino, e saber melhor de quem se trata.

Alberto Fernández é um peronista convicto, quadro histórico do Partido Justicialista (PJ), onde convivem os setores peronistas dos mais diversos, alguns mais à esquerda, outros mais à direita. O PJ é como um MDB argentino, com a diferença de que seu setor mais à esquerda não é tão reduzido atualmente – ou seja, eles têm muito mais Requiões que o nosso, mas também muitos Cunhas, Temers, Jucás, Calheiros, etc.

Fernández sempre foi conhecido no partido como um homem do diálogo, alguém capaz de falar com os diferentes setores e chegar a consensos. Por isso, Néstor Kirchner o nomeou como seu ministro-chefe de gabinete, cargo que ocupou durante todo o mandato, de maio de 2003 a dezembro de 2007. Desde o fim da ditadura argentina (em 1983), ele foi o único a se manter no emprego durante o mandato inteiro do seu presidente, e continuou após a posse de Cristina Fernández de Kirchner.

Durante o período de Néstor, Fernández foi o fator que permitiu ao governo aprovar projetos sem ter maioria parlamentar. Também foi partícipe das negociações que levaram o país a sair da moratória, e da histórica Cúpula das Américas de Mar del Plata, em 2005, na que o trio Néstor Kirchner, Lula da Silva e Hugo Chávez selaram o fim da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) diante da presença do então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Todos esses episódios reforçaram sua imagem de grande negociador, um dos sustentáculos da tese de que ele é um moderado.

Por outro lado, a relação com sua atual vice não foi das melhores na época em que ela era presidente. Em uma de suas primeiras medidas, Cristina tentou impulsionar um aumento de impostos ao setor rural, e Alberto Fernández entrou em campo para negociar. Esse pode ser considerado seu grande fracasso, e ele terminou renunciando ao cargo em julho de 2008, em meio a uma série de protestos organizados pelos ruralistas argentinos.

Dali em diante, sua relação com os Kirchner passou a ser de troca de farpas, especialmente com Cristina, cujas medidas ele criticava com alguma frequência. Contudo, sempre manteve distância da perseguição jurídica contra ela e contra Néstor. Mesmo com suas diferenças políticas, ele a defendeu das acusações de corrupção e denunciou o que considera uma postura enviesada do juiz Claudio Bonadio – o magistrado “especializado” em processar Cristina Kirchner, e para os que não acreditam em bruxas qualquer semelhança com o que acontece com Lula no Brasil pode ser somente mera coincidência.

Reprodução
Fernández e Ciro: dois personagens diferentes um do outro

No início de 2018, ele faz as pazes com Cristina Kirchner, e passa a ser, novamente, um operador político em favor da unidade peronista, organizando reuniões de setores dos mais diversos, buscando uma ampla maioria para a candidatura presidencial da atual senadora.

Lembrando todas essas passagens, é mais fácil entender como Cristina pensou nele como seu representante, quando lançou a estratégia de se resignar a uma posição de coadjuvante na campanha. Sim, alguém com quem tem um passado de rusgas, mas também de extrema lealdade enquanto foi ministro. Lealdade que parece ser a tônica da relação entre ambos após a reconciliação.

Esse resumo biográfico também explica porque a decisão de escolhê-lo como candidato do kirchnerismo é muito diferente a colocar um Ciro Gomes encabeçando uma chapa com o PT – e faço essa comparação sem entrar no mérito de se essa seria uma estratégia vitoriosa ou não, pois não se pode ter certeza sobre hipóteses que já não podem ser comprovadas.

Outra caraterística que distancia os perfis de Fernández e de Ciro Gomes é o fato de que o peronista nunca teve um projeto político personalista. Aliás, esta é sua primeira candidatura a um cargo executivo. Antes de ser ministro do casal Kirchner, ele só havia tido cargos legislativos, como legislador distrital em Buenos Aires.

Finalmente, é significativo que a postura de Fernández em relação ao lawfare não se limita às fronteiras argentinas. Especificamente no caso do ex-presidente brasileiro, Alberto teve uma atitude muito mais concreta que a do ambíguo Ciro Gomes: visitou Lula na prisão, classificou sua prisão como “uma mácula ao Estado de direito” e afirmou não ter dúvida quanto à inocência do líder político – com a autoridade de quem é professor de Direito da Universidade de Buenos Aires.

A visita de Alberto Fernández a Lula aconteceu em julho deste ano, em pleno período de conformação das alianças eleitorais, e mostrou o caráter de alguém que não se prendeu ao cálculo político, correndo o risco de desagradar o peronismo mais à direita e avesso à vinculação com o PT. Sua iniciativa foi tão bem-sucedida que terminou levando a uma decisão em conjunto do PJ de condenar o uso político da Justiça, o que ficou ainda mais claro quando essa bandeira foi levantada, dias depois, por um outro peronista, bem mais famoso que ele: o papa Francisco.

Em termos de postura política, Alberto Fernández é mais parecido com Roberto Requião do que com Ciro Gomes. Ou talvez um Gilberto Carvalho, se buscássemos uma comparação dentro do PT. Uma figura moderada? Sim, porém extremamente leal e capaz de colocar acima de ambições pessoais mesquinhas a defesa de um projeto de desenvolvimento nacional.

Por isso Cristina o chamou. Se fosse para escolher alguém como Ciro, ela teria optado por Sergio Massa, que foi o terceiro colocado nas eleições presidenciais de 2015. Dono de um eleitorado cativo, mas também de um projeto personalista, Massa iniciaria a disputa eleitoral em tese com mais condições do que Fernández – que era, em maio, um desconhecido para muitos argentinos. 

Ademais, é curioso lembrar que Massa foi justamente quem Cristina escolheu, em 2008, para substituir Alberto Fernández como ministro-chefe de gabinete. Após 11 anos, Fernández foi o responsável por convencê-lo a abandonar suas pretensões presidenciais – ele era pré-candidato até junho passado – e aceitar ser a figura que encabeça a lista de candidaturas parlamentares da nova frente do peronismo unido. Algo que ele aceitou, mediante a promessa de que será o presidente do Legislativo em um futuro governo.

Por tudo isso, um possível governo de Alberto Fernández tende a surpreender tanto os que pensam que ele é um títere de Cristina Kirchner quanto os supõem que ele pode ser um traidor, que tentará se afastar dela para poder governar, como fez Lenín Moreno com Rafael Correa. 

O histórico de Fernández é de quem que vive politicamente da unidade do peronismo, não da cisão.

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