Por trás da prisão espetacular de Battisti, o silêncio imposto a seus ex-companheiros

Livres, refizeram suas vidas, hoje se escondem e não querem falar sobre o passado

Janaina Cesar

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Segunda-feira, dia 14 de janeiro, é uma data que entrará para a história italiana. Por volta das 11h30 da manhã, um avião vindo da Bolívia pousou no aeroporto de Ciampino, em Roma trazendo um personagem que por quatro décadas a justiça italiana perseguiu: Cesare Battisti. 

Battisti, que virou escritor, vivia no Brasil desde 2004. Ele fugiu do país em dezembro passado após o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), ter determinado sua prisão para fins de extradição. Foi preso dia 12 de janeiro em ação conjunta da polícia boliviana e italiana enquanto caminhava em uma rua em Santa Cruz de La Sierra. 

Hoje com 64 anos, Battisti foi o ex-combatente do pequeno grupo de extrema esquerda chamado Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), que mais resistiu ao cerco do sistema judiciário italiano. Condenado inicialmente por envolvimento em grupo armado, fugiu da penitenciária de Frosinone, em 1981, de onde seguiu para a França e, em seguida, México. Em 1985, processado na Itália à revelia, foi condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos ocorridos no final dos anos setenta. 

O ex-ativista sempre se declarou inocente, alegando não existirem provas contra ele e que as acusações foram feitas por ex-integrantes de seu grupo, como Pietro Mutti, por exemplo, que graças às delações premiadas, tiveram suas penas reduzidas. No decorrer dos anos, intelectuais de peso, não apenas à esquerda do espectro político, entre eles Gabriel Garcia Marquez, Bernard-Henri Lévy e Daniel Pennac, se posicionaram a favor do italiano. 

Assim como Battisti, alguns integrantes de grupos armados de esquerda e também de direita que participaram dos chamados “anos de chumbo” - 1960 a 1980 - escaparam da Itália. Estima-se que hoje cerca de quarenta deles vivam em países como a França, Nicarágua, Argentina, Suíça e Japão. Outros foram presos e cumpriram suas penas. Livres, refizeram suas vidas, mas hoje se escondem de um passado que causou muitas dores. 

Ex-companheiros de Battisti

Ainda em 2018, antes da prisão do ex-guerrilheiro, a reportagem de Opera Mundi embarcou em um difícil périplo pela Itália para localizar ex-companheiros de Battisti dispostos a falar. Percorreu algumas cidades no norte do país, bateu de frente com a famigerada burocracia italiana e descobriu o paradeiro de alguns deles. Os nomes foram trocados em respeito à privacidade dos envolvidos. 

A última notícia que se tinha sobre Matheu - condenado a 30 anos de reclusão por duplo homicídio e sete assaltos - era a de que havia trabalhado em duas cooperativas sociais, uma delas especializada no tratamento de dependentes químicos, em Milão. O mergulho na vida desses ex-companheiros começa exatamente daqui. Após uma breve pesquisa na internet, parte a primeira ligação. Do outro lado da linha, dizem não lembrar de nenhum Matheu, mas pedem para ligar mais tarde que se informarão. Duas horas depois e nada, “ninguém o conhece”. Com a segunda cooperativa a resposta é diferente. Não negam que trabalhe lá, mas também não afirmam, dizem apenas não poder dar informações pessoais por causa da lei da privacidade.

De difícil acesso, localizada na extrema periferia de Milão, a cooperativa e uma pequena biblioteca dividem o espaço de um velho galpão reestruturado. Na parte externa, um bar montado na dentro de um bonde antigo abre o cenário para um incrível aras imerso no verde que circunda todo o local. Na entrada, um homem alto de cabelos grisalhos, aparentando ter uns 50 anos, se aproxima e repete a frase quase como um mantra: “Não podemos dar informações pessoais por causa da lei da privacidade”. Na incerteza, a reportagem deixa um bilhete onde pede que Matheu entre em contato. O homem com seus óculos em carbono dobra o papel e guarda no bolso de sua calça jeans.

Passado e presente

Do lado de fora, dois colegas de trabalho fazem uma pausa e fumam um cigarro. Simpática, a senhora de cabelos pretos e curtos confirma que Matheu trabalhou lá, mas que não o vê há mais de um ano. “Ele e a esposa trabalhavam aqui. Ele fazia um pouco de tudo e ela trabalhava com limpeza”, conta. Solícita, se prontifica a recuperar o número do italiano, mas dá de frente com o homem alto de cabelos grisalhos que a impede de fornecer qualquer informação a respeito de Matheu, deixando escapar que “mesmo não estando ali, é sempre um funcionário daquele lugar”.

Do outro lado da cidade, já no centro, na Corso Venezia, uma das principais ruas de Milão, um escritório de advocacia ocupa quase por inteiro o primeiro andar de um velho edifício. Ali trabalha Giovanni Beretta, advogado que defendeu Matheu e outros integrantes do PAC no longo processo que percorreu todas as instâncias judiciárias. Beretta diz que Matheu e outros viraram a página e não querem falar do passado. “Essa é uma história que ficou lá atrás, eles foram presos, pagaram pelos crimes que cometeram. Refizeram suas vidas, alguns vivem em condições humildes e outros tem uma posição importante dentro da sociedade”, diz. “Essas pessoas não têm nenhum motivo para trazer o passado de volta ao presente”, afirma.

60 anos

A centenas de quilômetros de Milão encontra-se Beppe, que vive em uma pequena cidade interiorana entre as colinas de Padova e a laguna Veneza e é diretor em uma cooperativa social que trabalha com serviços de mediação cultural e limpeza. Localizada na via principal, em frente a um mini shopping e a uma doceria, a cooperativa ocupa duas salas do andar térreo de um predinho antigo. A sala principal é também a recepção e é ocupada por duas mesas e um pequeno sofá. Uma das secretárias entra na sala de Beppe e o avisa que a reportagem o espera. Beppe é um homem de estatura média, cabelos curtos, grisalhos, olhos azuis, que aparenta ter uns 60 anos.

Ele veste a jaqueta azul que se encontra pendurada no gancho ao lado da porta e se dirige a saída. Fora da cooperativa, enquanto fecha o zíper, visivelmente nervoso, diz com um tom de voz baixo: “arrivederci (até logo), aliás, addio (adeus), não tenho nada para falar, nenhuma declaração para dar”. E emenda: “Você gostaria que eu aparecesse no seu trabalho, sem avisar, perguntando coisas do seu passado? Sabe como é difícil arrumar um emprego hoje em dia, principalmente se você tem 60 anos?”

O lado feminino

Do grupo de ex-companheiros de Battisti a reportagem encontrou o paradeiro de duas mulheres: Clara e Madalena. Ambas vivem em duas grandes cidades no norte do país, a primeira ensina yoga e a segunda é professora universitária. A reportagem esteve duas vezes na escola de yoga onde, teoricamente, Clara ensina. Ela não mantém aulas regulares, mas substitui outras professoras. Na primeira vez, as duas pessoas que se encontravam na recepção disseram que Clara daria aulas na terça e quinta da semana seguinte. Na segunda-feira, um dia antes da hipotética aula, a reportagem ligou para confirmar o horário que estava marcado para as 18h.

Em prontidão desde as 17h30, a reportagem permaneceu em frente ao local até as 20h. Ao entrar, indagou com dois senhores na recepção o horário das lições de Clara. Disseram que não havia aula naquela terça. Enquanto um deles fuçava em papéis, o outro, que usava óculos, desconversava. Na verdade, aquele que fuçava a papelada estava procurando uma folha com os horários das lições. Escritos a mão, poderiam ter sido recém anotados. Porém, ao mostrá-los, o homem que desconversava antes, agora fez cara de bravo. Clara daria aulas somente daqui a 10 dias. Madalena, por sua vez, foi contatada por e-mail, mas não respondeu até o fechamento da matéria.

Além do PAC

“Sinto lhe fazer esperar, mas não sou do PAC”, diz irônico Pietro. Talvez por não ser propriamente ligado ao grupo de Battisti, tenha sido o único a deixar uma declaração. Pietro diz que não conhece e que nunca viu Battisti na vida, que não fez parte do PAC e que foi condenado por um crime que não é associado ao grupo armado italiano. “Não julgo suas escolhas (falando de Battisti), na verdade não julgo ninguém”, diz.

Foram necessários dois dias e muita sola de sapato gasto para conseguir achar Pietro. Há dois anos, ele reapareceu nos jornais italianos, mas desta vez porque o cargo que ocupava causou uma certa indignação em Milão. Era chefe de gabinete da vice-prefeita da cidade. Foi defendido por personalidades públicas, inclusive pelo ex-prefeito Pisapia, “pois era um cidadão livre e não deveria continuar a ser perseguido por seus erros do passado”. 

Pietro hoje dirige um centro de assistência social localizado na periferia da cidade. O local fica em um antigo prédio, de cor amarela, com grandes janelas que iluminam os corredores largos. Neste lugar vivem imigrantes e italianos que se encontram em situação de risco e pobreza. No subsolo, uma máquina self-service de café fazia a alegria de um senhor grego que vive na Itália há 30 anos e que da Grécia não lembra quase nada. Simpático, com rastafári nos cabelos, contava pequenos trechos da sua longa história. De chinelos, calça jeans e camiseta branca, parecia não beber um café há anos. Degustava cada gole com prazer, como se fosse o último. Agradeceu e sumiu.

A sala de Pietro fica no terceiro andar. Sentado atrás de uma escrivaninha repleta de livros, ele explica que “ninguém o colocou na prefeitura, que está lá porque prestou concurso público” e em curtas palavras diz: “Fui preso, paguei minha dívida e hoje sou um homem livre, não devo nada a ninguém". Nesse momento as palavras de Giovanni Beretta, o advogado de Matheu, ressoaram como o vento: “falar sobre o passado não é fácil, ainda mais se as pessoas que te rodeiam não sabem quem você é e o que você fez”.

A discrição dos ex-companheiros de Battisti contrasta com todo o esforço diplomático e midiático feito pelo governo italiano para levar o ex-combatente a cumprir pena na Itália. Ambas as atitudes, no entanto, expressam uma mal resolvida questão: a forma como a Itália lida com o passado político violento.

Embora fosse formalmente uma democracia, o país não conseguiu evitar que militantes de extrema esquerda vissem na luta armada o único caminho para resistir à opressão que os colocava fora da vida política institucional, em que a democracia cristã, o partido socialista e o partido comunista controlavam não só os espaços de representação eleitoral, mas também os espaços simbólicos, via jornais impressos e na TV pública, as RAIs 1,2  e 3.

No combate a esses movimentos, o Estado italiano recorreu a uma série de processos jurídicos pouco transparentes – o que levou ao cárcere, entre outros, o filósofo Antonio Negri. Esses processos se intensificaram com a operação Mãos Limpas, que não conseguiu destruir o poder da máfia, mas reduziu a pó a política institucional do país: hoje, não há mais democratas cristãos, socialistas ou comunistas, e a política italiana é dominada pela direita e pela extrema direita, que controlam as TVs públicas e as hoje gigantes redes privadas de Silvio Berlusconi. 

Enquanto isso, os outrora radicais combatentes das brigadas são colocados em silêncio, seja pela prisão tardia de Battisti, seja pela ameaça burocrática e da existência de seus antigos membros. 

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Livres, refizeram suas vidas, hoje se escondem e não querem falar sobre o passado

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