Colapso da União Soviética reduziu economia cubana em 34%

País perdeu 85% do comércio exterior e 70% das importações no período 1990-1993

Daniella Cambaúva e Breno Altman

O Malecón é o lugar mais frequentado da capital cubana, Havana. O nome, em espanhol, quer dizer dique ou murada. A avenida nasce no castelo de San Salvador de la Punta, na parte antiga da cidade, à direita de quem vê as águas do Atlântico. Estende-se por oito quilômetros, até a fortaleza de Torreón de la Chorrera, próximo ao túnel que passa sob o rio Almendares e liga o bairro de Vedado ao distrito de Miramar, outrora habitado pela aristocracia da ilha. O trecho que une as duas metades da região central, a nova e a velha, vale como cartão postal do pequeno país que desafia um império.

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Na parte antiga da cidade, chamada Havana Velha, declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), as obras de restauração conduzidas pelo arquiteto Eusébio Leal con vivem com casarões caindo aos pedaços, que fazem lembrar cenários de pós-guerra. Não há sinais de bombardeio ou fuzilaria, mas rastros de destruição pontuam a paisagem urbana. Há indícios, no entanto, de que a reconstrução avança. Placas sinalizam a existência de reformas em vários dos edifícios perfilados no Malecón, construídos pelos colonizadores espanhóis entre os séculos XVII e XIX. Muitos já exibem a formosura da época de batismo.

Yenni Muñoa/Opera Mundi

Vista panorâmica do Malecón,  avenida que une as duas metades da região central, a nova e a velha, da capital cubana

Milhares de cidadãos vivem nessas casas, beneficiados pelas leis urbanas posteriores à revolução de 1959. Nos piores tempos sequer luz elétrica havia. O drama da nação caribenha teve origem no início dos anos 1960. O governo dos Estados Unidos, contrariado com a política aplicada pelos guerrilheiros de Fidel Castro, decretou o bloqueio total às transações financeiras e comerciais com Cuba. O país, de uma hora para outra, perdeu seu maior parceiro. O estrangulamento econômico fazia parte de uma estratégia política cujo objetivo era a derrocada dos revolucionários.

Apostava-se em Washington, então, que a população não resistiria ao pesadelo da escassez e se levantaria contra o governo dos barbudos. A CIA (Agência Central de Inteligência), convencida de suas previsões, organizou um comando formado por seguidores do ex-ditador Fulgencio Batista, com a missão de invadir, no dia 17 de abril de 1961, através de Playa Girón, o território cubano. A sedição foi batida em 65 horas, acossada por tropas regulares e milícias civis. Um dia antes Fidel havia declarado o “caráter socialista da revolução” e informado a adesão ao campo internacional liderado pela União Soviética.

Durante 30 anos o país viveu a implantação e o aprofundamento do modelo econômico anunciado em praça pública. Seus fundamentos eram a propriedade estatal e a planificação central, mas a meta diferia do alvo traçado pelos novos aliados. “Os soviéticos precisavam demonstrar que o socialismo tinha um potencial de desenvolvimento maior do que o capitalismo”, explica o economista Lázaro Peña, pesquisador do Centro de Investigações de Economia Internacional, vinculado à Universidade de Havana. “Nosso problema era outro, próprio de um país pobre e atrasado. Queríamos gerar as condições econômicas que permitissem elevar o padrão social do povo cubano.”

O pacto com a URSS e demais nações integrantes do Came (Conselho de Ajuda Mútua Econômica, o mercado comum dos estados socialistas) permitia à ilha adquirir, por exemplo, petróleo e máquinas através de escambo por açúcar, cotado a um preço acima do mercado mundial. A geopolítica da Guerra Fria favorecia os planos cubanos. “Chegávamos a receber combustível além de nossas necessidades internas”, recorda Peña. “Exportávam os o excedente e fazíamos divisas com essa matéria-prima apesar de não produzirmos uma gota de óleo bruto ou refinado.”

Efe

A queda de União Soviética comprometeu o desenvolvimento de Cuba, mas o país voltou a respirar nos anos 1990

Fim da URSS

Um dia, porém, a casa caiu. O fracasso das reformas lideradas por Mikhail Gorbatchev, o último presidente da era soviética, empurrou o gigante vermelho ladeira abaixo, levando junto seus associados. As camadas dirigentes desses países, dilaceradas pela crise, tremularam a bandeira branca. Quando o pavilhão com a foice e o martelo foi baixado pela última vez, marcando a dissolução da primeira pátria bolchevique, Cuba estava largada à própria sorte.

Bastaram poucos anos para a tragédia econômica equivaler à de uma guerra. A perda repentina de 85% do comércio exterior e 70% das importações seccionou a jugular da produção nacional, que caiu 34% entre 1990 e 1993. Apenas na recessão de 1929 houve casos com perdas dessa magnitude. O agravante, na situação cubana, foi o isolamento comercial. A combinação entre o bloqueio norte-americano e o colapso soviético parecia uma condenação à morte.

Os problemas se espalhavam por todos os lados. Carros e ônibus não circulavam devido à falta de combustível. Nas áreas agrícolas, a tração animal substituiu os motores nas tarefas de aragem, plantio e colheita. O consumo diário de calorias caiu de três mil para 1,8 mil. Apenas os velhos, as crianças e os doentes receberam alguma proteção.

Os trabalhadores recebiam salário, mas não havia o que comprar. O excesso de dinheiro provocou uma pressão inflacionária. A cotação do dólar atingiu 120 pesos no mercado negro – uma desvalorização de 12.000% em relação ao câmbio oficial. Na prática, ocorreu um brutal encarecimento do custo de vida, uma vez que os cubanos recorriam permanentemente à economia paralela, cotada em moeda estrangeira, para abastecer suas casas. O país beijava a lona.

O presidente Fidel Castro declarou que a nação havia entrado em um “período especial”, por tempo indeterminado, no qual se jogava a sobrevivência da revolução em uma árdua guerra econômica. A situação só começou a melhorar quando o país se abriu para o turismo e os investimentos externos, ainda nos anos 1990. Deu um salto adiante depois da eleição de governos simpáticos a Cuba na Venezuela e no Brasil, ao se criar cenário comercial e creditício mais favorável.

Cuba, então, voltou a respirar e a reunir forças para encarar os graves problemas herdados do modelo que havia sido estabelecido na era soviética.

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