"Defenda a pátria", teria pedido Uribe a deputada que vendeu voto para reeleição

Yidis Medina, presa desde abril de 2008 por corrupção, contou como o ex-presidente a convenceu dentro de um banheiro

Simone Bruno

Era dois de junho de 2004 quando uma jovem de Barrancabermeja, levada à Câmara de Representantes da Colômbia para substituir por três meses um colega de licença, mudou seu voto, em um gesto de surpresa, permitindo a aprovação da reforma constitucional que deu ao ex-presidente Álvaro Uribe a possibilidade de ser reeleito em 2006.

José Cruz/ABr (06/08/2009)

Ex-presidenteUribe, que foi eleito em 2002 e reeleito em 2006, não conseguiu nova reeleição em 2010. Juan Manuel Santos foi eleito

Desde abril de 2008, Yidis Medina está na prisão Buen Pastor de Bogotá, condenada a quatro anos por corrupção, depois de admitir ter recebido presentes de funcionários do governo de Uribe em troca de votar a favor da reeleição. Posteriormente, a jovem conservadora foi acusada de sequestro e condenada a outros 32 anos.

Opera Mundi foi visitá-la na prisão poucos dias antes da sentença de apelação pelo crime de sequestro, justamente quando começam os processos dos ex-ministros uribistas Sabas Pretelt de la Vega e Diego Palacio, acusados de terem comprado o voto de Yidis.

Opera Mundi: Se a senhora vendeu seu voto para permitir a reeleição do ex-presidente Uribe, quem foi que o comprou?
Yidis Medina: Contei que foram altos funcionários do governo Uribe que me deram benefícios e que eu aceitei. Este é um erro gravíssimo da minha parte, do qual estou consciente. Quando apresentaram a iniciativa de mudar a Constituição política para reeleger o presidente Uribe, eu disse que não estava de acordo porque o país não estava preparado para encarar uma reeleição, me parecia que o presidente tinha mudado algumas atitudes e a única coisa que ele queria era ficar no poder. Eu fazia parte da Primeira Comissão Constitucional, me viram como uma pessoa frágil e me convidaram para ir à casa de Nariño junto com outros representantes. Me ofereceram tudo e cometi o erro de aceitar e receber favores para mudar meu voto do “não” para o “sim”.

Foram feitas três reuniões na casa de Nariño nos dias anteriores à votação da reeleição, e quem mais insistiu em me convencer foi o próprio Uribe. Ele sempre nos dizia: “Defendam a pátria, é preciso salvar o país.” Em uma dessas reuniões, me levou ao banheiro presidencial e me sentou no vaso sanitário. Depois, quase ajoelhado, me disse: “Yidis, por favor, defenda a pátria. Por favor, vote pela reeleição, salve este país, eu te dou tudo o que há em Santander”. E eu aceitei, vendi minha consciência. Fui utilizada.

Agora vivo com o dessabor de pagar por uma coisa como se a tivesse feito sozinha. Para cometer este delito, são necessários dois atores. No código penal da Colômbia, está escrito que deve ser castigado tanto o corrupto como o corruptor. Em contrapartida, eles estão em liberdade e eu estou pagando por uma condenação de sequestro, que armaram para me calar.  Espero que a Corte Suprema seja equânime e condene todos os que atuaram neste crime comigo.

OM: Tentaram lhe convencer a mudar sua versão?
YM: Mandaram recados, mas eu vou confirmar tudo o que disse porque não quero terminar em um processo de falso testemunho. O que estou fazendo é guardar todas as provas para apresentar à Corte em agosto. Especialmente, foi o ex-ministro Sabas Pretelt de la Vega que enviou pessoas até mim para que eu mudasse minha versão.

OM: Você foi condenada a outros 32 anos por sequestro e, neste caso, sempre acusou de montagem. Nas últimas semanas, uma testemunha-chave do escândalo das interceptações do DAS, William Romero, declarou que efetivamente esta agência de inteligência tentou lhe desprestigiar, associando sua imagem a grupos guerrilheiros. Qual é a relação entre seu caso e o DAS?
Ym: Desde que comecei a falar, começaram a aparecer testemunhas que queriam me relacionar com a guerrilha do ELN e, ao mesmo tempo, apareceu outra testemunha que se lembrou que eu havia, supostamente, lhe sequestrado há oito anos. Hoje sabemos, pelas testemunhas de William Romero, que o DAS pagava para produzir panfletos que me mostravam como guerrilheira e para divulgá-los na cidade de Barrancabermeja. Isto quer dizer que a agência de inteligência, diretamente dependente da presidência, me desprestigiava diante da opinião pública enquanto eu falava sobre como Uribe comprou meu voto. E isto não estou dizendo eu, mas também gente do próprio DAS. O DAS foi criado para garantir a segurança do nosso país e eu não estava afetando esta segurança, mas apenas contando que o governo de Uribe era um governo corrupto.

Como se não fosse suficiente, quando as acusações de parte do ELN vieram à tona, começaram a querer me ligar aos paramilitares de Magdalena Medio. Mas há um chefe paramilitar preso nos Estados Unidos, Juan Carlos Sierra, conhecido também pelo codinome El Tuso, que diz que faziam montagens sobre mim desde a prisão de Itagüí. E este senhor diz que o irmão e o primo de Álvaro Uribe estavam por trás dessas montagens. Eu quero saber quem é que realmente teve relações com paramilitares ou quem me usa e conspira com eles para me desprestigiar. Com todas essas novas provas, estou confiante quanto ao resultado da apelação pela minha condenação de sequestro.

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