RiMaflow: Sonhos e expectativas de uma fábrica recuperada

Trabalhadores reagiram a anúncio de fechamento ocupando e recuperando fábrica; cooperativa RiMaflow quer ser exemplo de autogestão

Giorgio Trucchi

O abalo causado pela crise econômica e financeira acarretou impactos sociais devastadores e uma perda progressiva de milhões de empregos em todo o mundo. Até o momento, as respostas se concentraram mais em beneficiar o grande capital financeiro — em grande parte responsável pelo que aconteceu — do que em gerar mudanças estruturais e impactos significativos na economia real de pessoas e famílias.

A história recente da empresa transnacional de capital italiano Maflow, líder de mercado na produção de tubos flexíveis reforçados para ar condicionado automotivo, com mais de 20 sucursais no mundo todo, nos fornece um relato de duvidosas operações financeiras que, em 2009, a levaram à beira da falência e ao fechamento de suas principais divisões italianas, entre elas uma fábrica em Trezzano sul Naviglio, perto de Milão, que empregava cerca de 330 trabalhadores.

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Grafite na fábrica recuperada: 'reuso, reciclo, reapropriação, renda, revolução'

Em 2010, a Maflow foi levada a leilão público e foi adquirida pela sociedade polaca Boryszew, que impôs uma redução drástica de pessoal, mantendo somente 80 funcionários. Dois anos mais tarde, o novo proprietário anunciou o fechamento definitivo da fábrica de Trezzano e a transferência dos maquinários e da atividade produtiva para a Polônia. A decisão desencadeou a reação dos trabalhadores.

Inspirados pela experiência das fábricas recuperadas na Argentina e do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) do Brasil, cerca de 20 trabalhadores decidiram ocupar o imóvel. Poucos meses depois, criaram a cooperativa RiMaflow e a associação Occupy Maflow. “Ocupar, resistir e produzir” se transformou no lema da nova aposta.

“Não foi fácil, mas as pessoas estavam decididas. Estamos falando de cerca de 30 mil metros quadrados de terreno que incluem quatro naves industriais e um edifício de dois andares. Desde o princípio, a ideia foi reocupar o espaço e colocar em marcha um novo projeto produtivo baseado na autogestão e na democracia interna”, explica Gigi Malabarba, sócio da RiMaflow, ao Opera Mundi.

Pouco a pouco, novas pessoas foram entrando no projeto, entre ex-funcionários da Maflow, cidadãos solidários, desempregados e imigrantes. A aposta era e continua sendo transformar o espaço em um local de intercâmbio entre as atividades produtivas e sociais e as forças locais, com um enfoque em uma lógica solidária e de ajuda mútua, na qual prevalecem os princípios de cooperação, reciprocidade e integração.

Reconstrução

Em menos de dois anos, os espaços das quatro naves industriais foram limpos, organizados e readequados, o sistema elétrico industrial foi reativado e várias atividades começaram a ser desenvolvidas – as quais, diariamente, animam a vida da RiMaflow.

As condições e o espaço necessário foram garantidas para dar vida a um mercadinho de segunda mão, que vem crescendo e que reúne mais de 100 vendedores, e se constituiu o grupo de consumo ecológico “Fuori Mercato”, que valoriza o consumo de alimentos produzidos na região e a autossuficiência alimentar.

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Mercado de segunda mão no galpão da fábrica

Deu-se também início a uma atividade de produção e distribuição de produtos orgânicos, em colaboração com organizações e movimentos que promovem alternativas ao modelo agroalimentar capitalista, como a SOS Rosarno, de trabalhadores do campo provenientes da África e do Oriente Médio, produtores do Parque Agrícola do Sul de Milão e a Genuíno Clandestino, organização que reúne grupos que promovem a autodeterminação alimentar em toda a Itália.

Além disso, os sócios da cooperativa e os membros da associação Occupy Maflow abriram uma academia, um bar e um restaurante popular, um serviço de armazenamento de mercadorias e móveis em geral, e promoveram cursos, eventos culturais e musicais.

Eles também começaram e remodelar o edifício de dois andares para hospedar estrangeiros em dificuldade e pessoas sem moradia, e já estão preparando o estabelecimento de uma pequena pousada no lugar.

Exemplo sustentável e que pode ser repetido

Todos estes esforços para criar uma “cidadela da outra economia” visam a alcançar a meta da RiMaflow: criar um plano industrial para a reutilização e a reciclagem de aparatos elétricos e eletrônicos, que permita garantir um salário digno ao núcleo originário de sócios da cooperativa. Fixaram 2015 como a data limite para atingir o objetivo.

“Queremos demonstrar que uma fábrica recuperada e autoadministrada, sem patrões e sem dinâmicas exploradoras, não somente é possível, mas pode ser um exemplo a ser repetido e um modelo alternativo e sustentável”, disse Massimo Lettieri, sócio trabalhador da cooperativa e membro da Occupy Maflow.

Para isso, o grupo de trabalhadoras e trabalhadores da Rimaflow lançou uma campanha de solidariedade com a finalidade de levantar os fundos necessários para adquirir um sistema de produção e distribuição de ar comprimido, necessário para o funcionamento das máquinas.

Entre as primeiras assinaturas do manifesto “RiMaflow quer viver!” figuram as do presidente boliviano Evo Morales, do dirigente do MST João Pedro Stedile, do diretor de cinema Ken Loach, do teólogo Frei Betto, do dirigente da Via Campesina da África do Sul Themba Chauke e do catedrático argentino Andrés Ruggeri.

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Assembleia pública na RiMaflow: 'renda, trabalho, dignidade, autogestão'

Frente a este desafio, a aliança com as forças locais se tornou um componente imprescindível do projeto. “Por si só, a reativação produtiva não é suficiente para consolidar um projeto que pretende ser alternativo. Para que outra economia seja possível, precisamos criar um movimento, e que estas experiências se reproduzam em todo o território nacional”, explicou Malabarba.

Segundo ele, isso permitiria, por exemplo, forçar a reforma ou a introdução de leis que facilitem a realocação de centros de trabalho ou imóveis que tenham sido abandonados ou apreendidos do crime organizado.

RiMaflow por muito tempo

Hichem Msabhia é um jovem tunisiano que está na Itália há menos de dois anos e é sócio da cooperativa, além de ter uma seção no mercadinho de segunda mão. Também mora no edifício de dois andares que hospeda pessoas em dificuldade social e econômica.

Msabhia diz que a experiência com a RiMafllow mudou sua vida. “Sou um perseguido político e tive de abandonar o meu país porque a minha vida estava em perigo. Aqui, encontrei um projeto político, econômico e social no qual pude experimentar o verdadeiro significado de ‘autogestão’. Um dia vou voltar para a Tunísia para lutar e conquistar uma mudança verdadeira, mas sempre levarei comigo esta experiência, que está mudando a minha vida”, disse Msabhia ao Opera Mundi.  

“A RiMaflow não apenas quer viver, mas não pode e não deve morrer. Se conseguirmos demonstrar que uma fábrica recuperada e autogerenciada, feita em sintonia com o território, pode produzir e gerar salários dignos, já será uma revolução. Que não fique a menor dúvida: ‘Haverá RiMaflow por muito tempo!”, concluiu Stefano Quitadamo, outro dos membros da cooperativa e da associação.

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Stefano Quitadamo, membro da cooperativa e da associação RiMaflow: 'nossas vidas valem mais do que os lucros deles'

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