Acordo Brasil-Irã-Turquia é positivo e descrença "não tem sentido", diz consultor da AIEA

Acordo Brasil-Irã-Turquia é positivo e descrença "não tem sentido", diz consultor da AIEA

Lamia Oualalou

O consultor da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) e assistente do presidente da Eletronuclear Leonam dos Santos Guimarães afirmou ao Opera Mundi que o acordo entre Brasil, Irã e Turquia é satisfatório e que o ceticismo das potências mundiais “não faz sentido”. Segundo ele, o Irã não tem estoque de urânio que o habilite a construir armas nucleares.

Guimarães afirmou também que a indisposição ocidental com o acordo tem raízes geopolíticas e não nucleares, e que a proposta em breve tende a ser aprovada pela AIEA.

França e Reino Unido que, ao lado dos Estados Unidos, são a favor de mais sanções sobre Teerã, declararam por meio de seus chanceleres que os esforços pela aprovação da quarta rodada de penalizações no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) continuam. A descrença no acordo foi alimentada após Ali Akbar Salehi, diretor da Organização de Energia Atômica do Irã, afirmar que o país continuará a enriquecer urânio a 20%, porcentagem suficiente para produzir isótopos médicos em seus reatores.

Para diplomatas ocidentais, há o perigo de o Irã ter acumulado mais urânio durante os últimos meses. Enviar 1.200 quilos para fora não seria mais suficiente para garantir os objetivos pacíficos do governo iraniano.

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Leia abaixo entrevista com Guimarães.

Qual é a avaliação do senhor sobre o acordo assinado entre Turquia, Brasil e Irã?
Eu o considero muito positivo, alivia a pressão sobre o país e deve ser suficiente para barras as sanções. Em outubro passado, a AIEA propôs ao Irã a troca de seu urânio enriquecido a 3,5%, para usinas nucleares, por combustível para o reator de produção de radioisótopos de uso médico, enriquecido a 20%. O enriquecimento seria feito na Rússia e o combustível fabricado na França. Naquela época, o Irã rejeitou a proposta por não confiar na intermediação de duas potências com armas nucleares e anunciou o início do enriquecimento a 20% em suas instalações.

O que sabemos agora é que a troca será feita na Turquia, um país que não possui a tecnologia adequada. No entanto, ainda não ficou claro onde será enriquecido este urânio, nem onde será transformado em combustível. O Brasil teria as condições para providenciar as duas etapas. O urânio seria enriquecido e transformado em combustível no reator IEA-R1, de São Paulo, similar ao reator de Teerã. Aliás, o Brasil é o único país não dotado de armas nucleares que já produziu, sob controle da AIEA, urânio a 20%.

Em outubro de 2009, os 1.200 quilos que o Irã teria enviado para fora do país representavam cerca de dois terços de seu estoque de combustível nuclear, o suficiente para assegurar que o país não teria material para fazer uma bomba. Hoje, alguns diplomatas ocidentais afirmam que a mesma quantidade de combustível representa uma proporção menor de seu estoque declarado e que a quantidade de urânio de baixo enriquecimento que o Irã está preparando para enviar à Turquia agora representa pouco mais da metade de seu estoque atual. O que o senhor acha desse argumento?
Não faz sentido. Há muito tempo que o Irã trabalha com a mesma quantidade de combustível. Eles têm um estoque limitado, resultado de extração de uma pequena mina, hoje esgotada, e de compras passadas. Entre outubro e agora eles simplesmente não tiveram como aumentar seu estoque, até porque ninguém vendeu urânio ao Irã nesse tempo. Não dá para gerar urânio a partir de nada. É verdade que o urânio que eles têm pode ter sido enriquecido, mas a quantidade não tem como ser aumentada. Esse argumento insinua a possibilidade de o Irã continuar a fabricar uma arma nuclear com um estoque de urânio escondido, mas isso é totalmente falso. 

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O senhor acha que o acordo será considerado satisfatório pela AIEA?
Totalmente, pois possui exatamente o mesmo espírito que a proposta da AIEA. Não há razão alguma para recusá-lo.

Então como o senhor explica a resistência das potências ocidentais, que vêem o acordo com receio e continuam a trabalhar para obter uma nova rodada de sanções?
Acredito que o problema não é a questão nuclear. Há vários interesses geopolíticos em jogo, pois o Irã tem um papel de equilíbrio no Oriente Médio. É um contrapeso a países como Arábia Saudita e Emirados Árabes, aliados locais dos EUA. O Irã também tem relações com grupos palestinos, que desestabilizam Israel. Acho que hoje o problema é político, não técnico.

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