Mulheres, minorias étnicas e LGBTs sofrem com 'epidemia de invisibilidade' em Hollywood, diz estudo

Pesquisa da Universidade do Sul da Califórnia conclui que indústria de cinema dos EUA vive 'crise de inclusão' e que TV é 'reduto promissor' para minorias

Carolina de Assis

Pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia divulgaram nesta segunda-feira (22/02) os resultados de uma extensa pesquisa que examinou a diversidade da representação na indústria de cinema e TV dos Estados Unidos. A conclusão do estudo corrobora os protestos de diversos nomes da indústria nos últimos meses, que têm chamado a atenção para a sub-representação de minorias sociais como pessoas negras e mulheres no cinema e na TV norte-americana: Hollywood “ainda funciona como um clube de garotos brancos e heterossexuais”.

“Não é um simples problema de [falta de] diversidade. É uma crise de inclusão”, afirmou Stacy L. Smith, responsável pelo estudo e pela Iniciativa sobre Mídia, Diversidade e Mudança Social da Escola de Comunicação e Jornalismo da universidade norte-americana. Segundo a pesquisadora, a sub-representação de mulheres, minorias étnicas e pessoas LGBT nos filmes e nas séries de TV de Hollywood reflete a ausência destas pessoas em cargos de liderança e nas equipes de produção da bilionária indústria de cinema e TV norte-americana.

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Wikimedia Commons

O mundialmente famoso Sinal de Hollywood indica sede da indústria de entretenimento dos EUA

Dos 414 títulos analisados pela pesquisa – 109 filmes lançados em 2014 e 305 séries de TV exibidas entre setembro de 2014 e agosto de 2015 –, cerca de 50% não continham um único personagem de origem asiática e cerca de 20% não continham um único personagem negro. “Antes do #OscarsSoWhite [OscarTãoBranco], vem #HollywoodSoWhite [HollywoodTãoBranca]”, afirmou Smith, em referência ao movimento de boicote à cerimônia do Oscar este ano devido à falta de pessoas negras entre os indicados para os prêmios de atuação, apoiado pelos atores Will Smith e Jada Pinkett Smith e pelo diretor Spike Lee, entre outros.
 

O recorte de gênero mostra que apenas 33% dos personagens com falas eram mulheres, e somente 28,3% destas não eram brancas – 10% a menos do que a realidade da população norte-americana, alegam os pesquisadores. A desigualdade aumenta com a idade dos personagens no cinema e na TV: entre aqueles com mais de 40 anos, 74,3% eram homens e 25,7% eram mulheres.

Do total de 11.306 personagens com fala analisados, apenas 2% se identificavam como lésbicas, gays, bissexuais ou transgênero. A pesquisa identificou somente 7 personagens trans neste universo – 4 deles eram personagens da mesma série de TV.

A discrepância é ainda maior por trás das câmeras: 87% dos 414 títulos analisados foram dirigidos por pessoas brancas, e somente 3,4% dos 109 filmes lançados por estúdios de Hollywood em 2014 foram dirigidos por mulheres. Apenas duas destas mulheres eram negras: Ava DuVernay, diretora do filme “Selma”, sobre a marcha liderada por Martin Luther King entre as cidades de Selma e Montgomery em 1965, e Amma Asante, diretora de “Belle”, que conta a história da personagem-título, filha de uma escrava e de um almirante da Marinha Real britânica no século 18.

Divulgação

"Selma" (2014), de Ava DuVernay, uma das duas mulheres negras a dirigir um filme lançado por um grande estúdio de Hollywood em 2014

O estudo também elencou os 10 maiores estúdios dos EUA em um “índice de inclusividade” que considera a porcentagem de mulheres, membros de minorias étnicas e pessoas LGBT entre os personagens e de diretoras e roteiristas envolvidas nas produções para cinema e TV.

Nenhum dos seis maiores estúdios passaram dos 20% no ranking, mas empresas que estão produzindo para a TV nos EUA, como Disney, CW, Hulu e Amazon, superaram o índice de 65%, indicando “redutos promissores” na televisão, diz Smith.

“Quando buscamos ver onde o problema está melhor ou pior, o ápice dessa nossa empreitada é: todo mundo no cinema está fracassando, todas as empresas analisadas. Elas são impermeáveis às mudanças. Mas há redutos promissores na televisão” que mostram que a mudança é possível, acredita a professora. “Agora temos provas de que elas podem fazer e podem ter sucesso nisso.” 

Divulgação

O elenco da série Orange is the New Black, produzida pelo Netflix, considerada um exemplo em diversidade de representação

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