Mesmo sem incentivo do governo, iniciativas culturais independentes prosperam no Afeganistão

Falta de financiamento não esmorece ativistas, que promovem arte, literatura e poesia em várias cidades do país

Giuliano Battiston | Pagina99

Imagens por Giuliano Battiston

O jornalista e ativista social Qotboddin Kohi na única tipografia da cidade de Maimana, na fronteira com o Turcomenistão

“Poesia, música, grafite, cinema, teatro; aqui em Cabul dá para encontrar de tudo, basta saber procurar”. Rosto plástico e cinematográfico, físico esbelto escondido pelo indefectível terno listrado, Timur Hakimyar não tem dúvidas: Cabul é uma cidade que “produz cultura, não só política e corrupção”. Hakimyar é diretor da Fundação para a Cultura e para a Sociedade Civil (Foundation for Culture and Civil Society), uma das tantas associações nascidas sob o impulso da comunidade internacional depois que os talibãs foram removidos do poder à base da força militar. Basta frequentar com certa assiduidade o decadente casarão que hospeda a fundação cultural que ele dirige para dar razão a Hakimyar, ator, diretor, e ex-porta-voz da associação nacional de artistas afegãos. Um dia encontramos por lá o diretor Siddiq Barmak, realizador dos filmes “Osama” e “Opium War”; no dia seguinte, no amplo jardim do casarão passeava Partaw Naderi, o mais importante poeta em língua farsi do país; no fim de semana os jovens do Parwaz Puppet Theater, grupo fundado em 2009, preparavam um novo espetáculo de marionetes, enquanto a poucos passos dali, no centro cultural francês, eram realizadas projeções cinematográficas e mostras fotográficas em antecipação ao “grande evento”: o Sound Central Asia’s Modern Music Festival, festival musical adorado por adolescentes que não diferem muito de seus coetâneos ocidentais.

Hakimyar tem razão: Cabul é uma cidade que produz cultura. Mas é a capital do país, onde é mais fácil encontrar financiamentos estrangeiros, que esbanjam dinheiro em atividades culturais também como uma maneira de normalizar a ocupação militar. Nas áreas periféricas, excluídas da densa rede de conexões políticas e financeiras construídas nos últimos anos na capital, a situação é mais complicada. “Essa é a única tipografia de toda a cidade”, conta Qotbuddin Kohi, jornalista e ativista social de Maimana, capital da província de Faryab, na fronteira com o Turcomenistão. “Nosso problema é a falta de dinheiro. Em 2005, junto com alguns colegas, fundei o jornal Saday-e-Mellat (“A voz da nação”), mas é muito difícil cobrir os custos do periódico. Mesmo assim, não esmorecemos: acreditamos ser importante promover cultura, especialmente entre as pessoas mais jovens.”

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Qotbuddin Kohi lamenta o desinteresse do governo pelo setor cultural, além da tendência da comunidade internacional a financiar somente “escolas, hospitais, projetos concretos, como se a cultura não fosse igualmente necessária”. Apesar das dificuldades de viver em uma região de fronteira, “onde circulam tantas drogas e tantos terroristas, mas poucos livros”, Kohi pretende continuar a escrever “e a publicar livros, com os poucos meios à disposição”. Kazem Amini, escritor poliglota, autor de coletâneas de poesias e de uma interessante história de Maimana, parece menos animado. Encontrei-o pela primeira vez há quatro anos, quando tinha acabado de fundar um semanário cultural e a Zahiruddin Faryabi Cultural Association, “criada com a intenção de fazer da cultura um instrumento de reconciliação e de paz”. Quando nos reencontramos, há alguns meses, ele tinha jogado a toalha: “me ameaçaram repetidas vezes. Em meus artigos denunciei as atividades ilegais de alguns comandantes locais, que sequestram terras de camponeses à força. Recentemente atiraram contra o portão da minha casa. O semanário, por enquanto, segue fechado, e eu me limito a escrever poemas.”

“Aqui em Mazar-e-Sharif não temos nenhum problema. Pelo contrário, nosso grupo de leitura cresce a cada mês”, conta com entusiasmo Zamir Saar, fundador da Khoshal Baba Library e professor de língua e literatura pashto na universidade de Balkh, na homônima província setentrional, a dois passos do Uzbequistão. Hospedada em um edifício a poucas centenas de metros do célebre santuário de Hazrat Ali, a biblioteca reúne milhares de livros e é dedicada a Khoshal Khan Kattak, conhecido como Khoshal Baba, poeta e estrategista militar do século 17, um dos primeiros a invocar a unidade das tribos pashtun contra o império Mogol.

 

“A biblioteca tornou-se um ponto de referência para todas as pessoas que escrevem poesia em língua pashto na província. Toda sexta-feira organizamos um encontro em que promovemos debates e recitais de poesia”, explica Saar. Uma das pessoas que frequentemente modera os encontros é Barialai Jalalzai, jovem poeta e redator do Parkha, trimestral cultural que publica “textos breves, contos e poesia”. As pessoas da Khoshal Baba Library se dizem convencidas da importância de recuperar a tradição literária em língua pashto, uma das duas línguas nacionais afegãs, mas refutam a ideia de discriminação étnica: “A poesia é um gênero literário que deve ser praticado em nossa língua-mãe. Isso não significa que não nos interessamos por poesia em língua farsi. O Afeganistão é uma única e grande nação, composta por tribos e comunidades diversas. São os políticos que instrumentalizam as divisões entre as comunidades. A realidade é que precisamos todos uns dos outros”, esclarece Jalalzai.

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“Claro que conheço as pessoas da Khoshal Baba Library. De vez em quando nos encontramos e conversamos sobre literatura”, confirma Sadeq Hossian, um belo homem em seus cinquenta anos que ensina literatura farsi na universidade Balkh, “não apenas literatura farsi produzida no Afeganistão, mas também no Irã e no Tadjiquistão”. Ele tenta explicar a seus alunos “o que a poesia representou nos últimos séculos, a relação dos poetas com a sociedade em que viviam”. Hossian acredita que hoje em seu país a poesia goze de um reconhecimento difuso, que seja apreciada e praticada também nas zonas rurais, e que o mérito possa ser em grande parte atribuído a Mahmoud Tarzi, jornalista, poeta e ministro do Exterior durante o reino de Amanullah Khan, no início do século 20. “A fundação em 1911 do jornal Seraj-al-Akhbar modificou completamente o panorama jornalístico e poético afegão”, explica o professor Hossian. “Antes, poetas trabalhavam em uma dimensão privada, escreviam prevalentemente para o rei ou para o regime, para os notáveis. Porém, a partir daquele momento, a poesia se disseminou entre as pessoas comuns. Tarzi introduziu a modernidade em nosso panorama cultural.” Hossian se diz satisfeito com o atual panorama.

“Temos muitos problemas, certamente, mas sobretudo aqui em Mazar há um verdadeiro reflorescimento da poesia, graças a tantas e tantos jovens que fundam revistas e círculos literários, viajam ao exterior, são traduzidos lá fora.” Entre elas está a jovem Farkonda Rajabi, estudante de literatura, editora do site Balkh Times, escritora e fundadora em Mazar-e-Sharif da casa de cultura Partau, “um espaço para mulheres, onde elas possam se sentir livres para se expressarem sem medo de serem julgadas pelos homens”, conta Rajabi, de um jardim em Mazar reservado às mulheres. “A poesia é um elemento fundamental na nossa vida, entre minhas amigas não há nenhuma que não escreva. Parece que hoje todas e todos querem escrever”, sorri.

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Pode parecer estranho, mas até os talibãs cultivam a paixão pela poesia. É o que demonstra um livro recente organizado pelos pesquisadores Alex Strick van Linschoten e Felix Kuehn: “Poetry of the Taliban” (“Poesia do Talibã”, em tradução livre). Com prefácio de Faisal Devij, estudioso de islamismo político na universidade de Oxford, a obra inclui uma série de poemas escritos, recitados ou cantados pelos “turbantes negros”, dos anos 1990 até 2008. O livro pinta um quadro surpreendente, um precioso manual estético-político do movimento dos estudantes corânicos, feito de eventos cotidianos e grandes acontecimentos, de requintes poéticos e trágicas brutalidades. “Podem até ter escrito poesia, mas quando estavam no governo nós não podíamos nos reunir livremente”, explica o professor Hossian, um dos fundadores da Balkh Writers Association: “sob o regime do talibã éramos obrigados a nos esconder, hoje recitamos nossos poemas em público. Acha que é pouca coisa?”, pergunta Hossian, antes de voltar para a sala de aula.

 

Tradução: Carolina de Assis

Matéria publicada originalmente no jornal italiano Pagina99, que se dedica à cobertura de questões italianas e internacionais com foco em temas econômicos e culturais.

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