Insatisfação e consumismo marcam nova geração de trabalhadores chineses

Nascidos nos anos 90, jovens se tornaram a principal força de trabalho na sociedade chinesa; ansiedade e inquietude são expressas na fábrica, principal espaço de agregação e de trabalho

Nanfeng Chuang

Wikimedia Commons

Operárias em fábrica de computadores na China; empresas e governo mudam regras trabalhistas para se adequarem a novos trabalhadores

A Tangxia Lide é uma fábrica de componentes eletrônicos que está em Dongguang, região nordeste da China, há 21 anos. Lá hoje se celebra uma novidade revolucionária: os operários podem agora trabalhar sentados. Nas últimas duas décadas, dezenas de milhares de pessoas trabalharam em pé, até que entrou em cena a geração de operários nascida nos anos 90. Os jovens entraram em greve e mudaram as regras da fábrica. “Ficar o dia todo em pé deixava nossos pés inchados; quem quer trabalhar assim?”, questiona Lei, um dos jovens que participou da greve. “Se não há condições humanas de trabalho em uma empresa, algo sério vai acabar acontecendo”, continua ele.

Na China, as pessoas mais atentas já sentiram um cheiro de mudança no ar. Estes “novos operários” se tornaram a principal força de trabalho na sociedade chinesa. As empresas e o governo se veem obrigados a mudar as regras trabalhistas, considerando a condição psicológica e as características peculiares destes novos operários.

A expressão “trabalhador migrante” definia uma condição ocupacional específica na China, mas esta categoria está desaparecendo graças à ascensão dos operários nascidos nos anos 90. A evolução do curso de vida deste grupo social é composto basicamente de família, escola e fábrica.

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São filhos de camponeses, mas não apenas não sabem o que significa cultivar o campo como não lhes está claro seu próprio lugar dentro de suas famílias. Os pais arcam com os custos do ensino e da moradia no alojamento da escola, até que os jovens, reprovados continuamente, não conseguem mais prosseguir com os estudos. Já quem permanece em seus vilarejos de origem é convencido por parentes e amigos a se enfurnar no galpão de uma fábrica em uma cidade desconhecida.

Em uma tarde de agosto visitamos a pequena cidade de Tangxia, nos arredores de Dongguang. Lei aluga uma quitinete de 30 metros quadrados onde o encontramos sentado em sua cama em companhia de alguns amigos, todos vindos do mesmo povoado. Eles fumavam e bebiam cerveja em meio a garrafas vazias pelo chão, algumas generosamente decoradas com cinzas e bitucas de cigarro.

Estes jovens têm por volta de 24 anos de idade e provêm todos de um vilarejo na região de Guangxi, no sul da China. Eles nos contam sobre o riacho que escorre calmo enquanto atravessa o povoado. Esta é uma das únicas lembranças que eles têm do lugar onde nasceram, pois esta geração se transferiu para a cidade mais próxima desde a primeira infância para se dedicar aos estudos.

Lei paga 250 yuans [aproximadamente 110 reais] ao mês de aluguel por sua quitinete. Assim que se mudou, a primeira coisa que fez foi instalar a conexão à internet, pela qual paga 60 yuans [25 reais] ao mês. Quando sai do trabalho, volta para casa, se deita em sua cama e passa horas jogando no celular. Pouco tempo atrás conheceu uma garota pela internet, que o fez pagar 300 yuans [cerca de 130 reais] em créditos para o celular dela e depois desapareceu. Lei e seus amigos estão cansados dos dias passados na cadeia de montagem e pensam em fazer algo diferente: abrir um negócio online.

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Apenas saídos do rígido controle do sistema escolar, desejavam fortemente se tornar pessoas livres. Mas a realidade lhes tolheu o entusiasmo de parte pela primeira vez para criar, mesmo que com dificuldade, o próprio futuro.

Além do horário normal de trabalho na fábrica, fazem sempre três ou quatro horas extras por dia e em alguns períodos mais intensos chegam a trabalhar até as duas da madrugada. Lei nos conta sobre a rotina na fábrica Tangxia Lide: “Todos os dias quando chegamos à fábrica, por volta das oito da manhã, temos que repetir em voz alta os ‘cinco não e os cinco sim’: o que podemos fazer – memorizar o procedimento padrão, por exemplo – e o que não podemos fazer – dormir, por exemplo. Depois temos que ouvir o discurso do líder da equipe e responder a suas perguntas.”

Os novos operários, ainda que trabalhando em fábricas diferentes, têm problemas comuns: “Não podemos falar durante as oito horas de trabalho, nem usar o celular. Temos que trabalhar sempre em posição ereta, do contrário o líder da equipe grita tão alto que todo o galpão consegue ouvir.”

Em muitas fábricas o conflito entre os operários e os líderes de equipe é muito forte justamente porque os operários não se sentem respeitados. A tensão provoca principalmente demissões, multas e transferências.

Se as gerações de operários nascidos nos anos 60 e 70 aguentavam estas condições em silêncio, os novos operários bolaram soluções diferentes. Alguns buscam convencer o líder da equipe pedindo-lhe pacientemente que resolva os problemas, enquanto outros convocam amigos e colegas e o esperam fora da fábrica para intimidá-lo. São poucos aqueles que recorrem ao departamento de tutela dos trabalhadores dentro das fábricas, já que não confiam em seus procedimentos.

Cory M. Grenier / Flickr

 

Hoje, efetivamente, as fábricas enfrentam problemas de gestão, já que grande parte das regras utilizadas anteriormente não serve mais. Quando um operário desobedecia o regulamento, a direção simplesmente lhe cortava as horas extras, diminuindo seu salário. A mesma medida, hoje, para a nova geração de operários acaba sendo um grande favor, já que seus pais, após anos de trabalho e sacrifício, conseguem prover as primeiras necessidades materiais de seus filhos, assegurando-lhes uma boa base econômica.

Em espaços públicos, não há distinção entre estes operários e funcionários de grandes empresas, pois todos vestem as mesmas roupas e utilizam neologismos derivados da linguagem utilizada na internet. Isto poderia nos levar a pensar que existem menos diferenças sociais entre eles; na verdade, os novos operários escondem um mal-estar e uma insatisfação que por ora não conseguem solucionar.

Estivemos em Shenzhen, Cantão, Huizhou e Dongguang. Encontramos jovens como Lei e nos demos conta de que a insatisfação nas fábricas é vivida de maneira mais intensa justamente por garotos nascidos nos anos 90. Cinco anos atrás, um operário do setor elétrico ganhava dois mil yuan [850 reais] por mês, e hoje pode chegar a 3.500 [1.500 reais]. Por isto operários com alguns anos a mais de experiência têm um nível de confiança e satisfação relativamente alto, em comparação com seus colegas mais jovens.

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Este contentamento é um incentivo à participação política. Alguns operários mais velhos começaram a se interessar pela atual estrutura política chinesa e pela luta contra a corrupção. Acreditam que seja necessário eliminar os “tigres”, os grandes corruptos, mesmo que sua formação cultural não seja suficiente para que compreendam plenamente a lógica do poder.

Os jovens nascidos nos anos 90, entretanto, provam uma sensação que não conseguem expressar. Muitos sentem que “as coisas não são como antes”, desconfiam do status quo e estão conscientes das injustiças perpetuadas pelo poder político.

Certamente, o fato de encontrarem-se nas margens das grandes cidades lhes suscita a curiosidade com relação à política. No campo, os novos operários têm uma vida relativamente confortável, mas o processo de urbanização das cidades pequenas e médias na China lhes proporcionou todas as provocações acendidas pela tendência consumista, que gerou neles novas demandas e novos desejos. Muitos se transferem e compram sua casa própria em cidades próximas aos vilarejos de origem ou em grandes cidades. Esta nova geração se vê obrigada a participar de maneira agressiva da competição urbana para não serem “aqueles que ficaram no campo”.

Estes jovens não sentem nenhum apego pela casa construída por seus pais. Têm outras ambições: querem ter uma vida digna e preservá-la por mais tempo possível. Isto, para eles, comporta a necessidade de um apoio econômico garantido pelo trabalho fixo na cidade e da possibilidade de comprar um carro e uma casa. As dificuldades emergem de maneira preponderante para trabalhadores de grandes empresas (estatais e privadas) que não têm acesso a um salário e a um posto fixo. O ponto central é a contradição entre as esperanças dos novos operários e as poucas possibilidades de realizá-las.

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A ansiedade e a inquietude se devem à sociedade em geral, mas são expressas na fábrica, principal espaço de agregação e de trabalho. Esta insatisfação pode se estender a toda a sociedade chinesa quando as novas gerações começarem a se inserir em outros espaços. Esta mesma sociedade poderia se ver fragilizada ao sentir o impacto desta instabilidade generalizada.

Alguns sinais confirmam a contínua propagação deste mal-estar. A nova geração de operários experimenta um senso de inferioridade e se sente desprezada pelas classes mais altas. Além disso, devido às longas horas de trabalho, a fábrica é o único ambiente que frequentam, portanto não possuem nenhum canal de contato com pessoas das classes média e alta. O comportamento frequentemente adotado é de se fecharem neles mesmos.

Alguns destes novos operários não reagem ao serem repreendidos; no entanto, longe dos olhos do líder de equipe, destroem instalações e objetos da fábrica para dar o troco. Caso a ordem social fosse suspensa, quem pagaria seria aqueles que têm com eles um convívio diário e que não se diferenciam tanto deles do ponto de vista social. “Se houvesse uma rebelião na fábrica, o primeiro alvo seria o líder da equipe”, afirma um jovem operário que se sentiu humilhado por seu superior quando demonstrou exaustão ao fim de um turno de trabalho.

 

Tradução: Désirée Marianini (chinês) e Carolina de Assis (italiano)

Matéria original publicada na revista chinesa Nanfeng Chuang e traduzida para o italiano pelo China Files, site que produz reportagens e artigos sobre China e Ásia.

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