Ato contra aumento das tarifas: humilhação, empurrões e xingamentos

Relato do deputado estadual Adriano Diogo (PT), que acompanhou os 51 detidos no protesto contra o aumento das tarifas do transporte público em São Paulo na última sexta-feira (09/01)

Adriano Diogo | Ponte

O deputado estadual Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão Estadual da Verdade e líder da minoria da Assembleia Legislativa de São Paulo, foi chamado por familiares de jovens detidos pela Polícia Militar, durante o “1º Grande Ato”, realizado na sexta-feira (9/1), contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô de R$ 3 para R$ 3,50.

Pais e mães desesperados queriam notícias dos filhos, que ficaram rodando pela cidade, longe dos olhares da imprensa, durante pelo menos duas horas em quatro ônibus da PM, antes de chegarem ao 78º DP, na rua Estados Unidos, Jardins.

Adriano entrou na delegacia, acompanhou quatro adolescentes que foram levados à Fundação Casa, voltou para o 78º DP, acompanhou o trabalho dos “Advogados Ativistas”, que prestavam assessoria jurídica para os detidos. Só deixou o local na manhã de sábado.

Fotos de Adriano Diogo

Os 51 detidos durante o protesto contra o aumento das tarifas, cerca de dez dos quais estavam feridos com maior gravidade, foram obrigados a passar pelo menos duas horas rodando em quatro ônibus da PM antes de finalmente serem levados ao 78º DP, nos Jardins.

Todos estavam imobilizados com algemas descartáveis (de plástico, como lacres), a maioria prendendo-lhes as mãos às costas.

A chegada dos jovens - sujos, exaustos, com sede - à delegacia aconteceu às 22h30, embora suas detenções tenham acontecido entre as 18h30 e as 20h30. Conduzidos pelos policiais militares vestidos como Robocops, os detidos eram empurrados e xingados o tempo todo.

Na padaria em frente ao DP, compramos água para saciar a sede dos detidos.

Em vários ainda era possível ver vergões vermelhos nas costas e pernas. Muitos queixavam-se de dores nos braços, mãos e punhos, que haviam sido torcidos pelos policiais.

Os robocops colocaram todos os jovens sentados no chão, enquanto os xingavam:

–“Vocês são presos! Não têm nada que falar!”

Era um clima de intimidação típico.

Os PMs retiveram documentos e exigiam da Polícia Civil tratamento mais rigoroso e outros enquadramentos.

Aos poucos, os detidos foram sendo liberados das algemas. Os PMs usavam as facas de seu equipamento para cortar os lacres.

Quatro adolescentes, menores de idade, foram enviados às 2h, para a rua do Hipódromo, 600 (antigo presídio do Hipódromo, atual Fundação Casa), para saber se eram procurados pela Justiça. Levaram-nos em duas viaturas com escolta.

Um policial perguntava todo o tempo a um adolescente por que ele estava tão interessado no preço da passagem, em vez de se preocupar com o preço da maconha. Era uma humilhação completa.

Tratamento semelhante foi dispensado aos rapazes que foram levados ao Instituto Médico Legal para fazer exame de corpo de delito, já que estavam machucados.

Eram quase quatro horas da manhã quando eles retornaram aos 78º DP. Advogados, participantes do coletivo “Advogados Ativistas”, prestavam assessoria jurídica aos detidos, que acabaram liberados depois de serem fichados. Um rapaz ainda seguia detido pela manhã.

 

Publicado originalmente no site da Ponte, que promove jornalismo que se dedica a segurança pública, justiça e direitos humanos.

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