Músicos africanos se unem para promover integração entre povos à beira do rio Nilo

Egito, Ruanda, Etiópia e Sudão são alguns dos países representados no 'The Nile Project', que reúne 13 músicos com o objetivo de celebrar e proteger a riqueza cultural e ambiental da bacia do rio mais extenso do mundo

Valerie Schloredt | YES! Magazine

The Nile Project / Divulgação

O grupo, formado por 13 músicos de diferentes países da Bacia do Nilo, promove a compreensão cultural através da música

Começa com uma batida do tambor, um acorde do baixo ou algumas notas do oud. Depois entram o saxofone e o violão, o pandeiro riq e a flauta de cana conhecida como kawala. Mais instrumentos e vozes se juntam, tecendo uma só música a partir de diversos elementos. As pessoas na plateia estão sorrindo e, até o fim da noite, estarão de pé, dançando.

Cada um dos 13 músicos nesta performance do "The Nile Project" (Projeto Nilo, em tradução literal) está em sua melhor forma, e entre as cantoras há cinco divas maravilhosas. Há a cantora etíope Selamnesh Zemene, que faz a casa toda se mexer com sua dança e sua voz influenciada pela tradição poético-musical azmari. Há também Alsarah, que é do Sudão e do Brooklyn, em Nova York, aclamada pelo jornal britânico The Guardian como "a nova princesa do pop da Núbia e do retrô sudanês". A ruandesa Sophie Nzayisenga toca de forma virtuosa o inanga, um instrumento de corda que, em suas mãos, produz encantamento e tons suaves. A etíope-americana Meklit Hadero, cofundadora do "The Nile Project", traz uma voz pura e a estética do jazz/hip-hop/folk para suas composições originais. Dina El Wedidi, uma das favoritas entre as jovens do Egito, tem vocais poderosos que variam entre os clássicos épicos a um hino da Revolução Egípcia.

E há também Jackline Kasiva Mutua, a primeira mulher a quebrar a tradição queniana do batuque exclusivamente masculino.

Os membros da banda soam como se tocassem juntos há muito tempo, mas, na verdade, o projeto é composto por músicos de diferentes países, estilos e tradições musicais. Bem-sucedidos em seus próprios campos, eles tiveram de aprender escalas, afinações e ritmos estrangeiros para colaborarem. O objetivo? Promover a cooperação e a compreensão cultural entre os diversos povos do Nilo. O rio flui por 11 países e quatro regiões climáticas e, com 6.800 quilômetros, é o mais extenso do mundo.

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As cabeceiras do Nilo estão nos países tropicais Ruanda e Burundi, que alimentam o lago Vitória, compartilhado por Uganda, Quênia e Tanzânia. De lá, o Nilo Branco, assim chamado por causa da argila que turva suas águas, se espalha pela região pantanosa Sudd, no Sudão do Sul, antes de seguir ao norte em direção ao rio Cartum. Lá, ele encontra o Nilo Azul, que desce o planalto chuvoso da Etiópia. Agora, como um só rio, o Nilo corre para o norte através do deserto do Saara no Sudão e no Egito, deságua no Delta do Nilo e, por fim, no Mediterrâneo.

Por milhares de anos, as culturas da Bacia do Nilo desenvolveram sistemas alimentares para atenderem às condições da sua parte do rio. Mas, hoje, a atividade humana exige mais do meio ambiente, o que aumentou o consumo de água e a poluição oriunda da expansão das cidades, da indústria e da agricultura industrializada. No ritmo atual, a população dos países da Base do Nilo deve dobrar nos próximos 30 ou 40 anos, chegando a 945 milhões de pessoas. Especialistas temem que o Nilo não tenha água suficiente para todas elas. E há também as mudanças climáticas: quatro dos países da Bacia do Nilo têm água escassa, e períodos prolongados de seca e inundações são uma ameaça à vida humana num local em que a água já é um recurso precioso.

Todas essas pressões indicam que os países da Base do Nilo precisam trabalhar conjuntamente para gerir seus ecossistemas de forma interdependente. A parceria The Nile Basin Initiative (Iniciativa Bacia do Nilo, em tradução literal), assinada por nove países em 1999, foi formada para criar uma plataforma regional de diálogo intergovernamental. Mas, em 2010, cinco países rio-acima assinaram o acordo Cooperative Framework Agreement para utilizarem mais água do Nilo.

O progresso político tem sido lento e prejudicado pela desconfiança entre as nações. Enquanto isso, a população cresce e as economias se tornam mais complexas e globalizadas. A Etiópia, por exemplo, agora o segundo país mais populoso da África, está transformando-se num "leão econômico" sedento por energia. O que é feito na montante do rio leva preocupação rio abaixo – o Egito é dependente do Nilo para 97% das suas fontes de água doce. Em 2013, em resposta ao começo da construção da Grande Barragem Renascença da Etiópia, o maior projeto hidrelétrico do país, o então presidente egípcio, Mohammed Morsi, ameaçou retaliar militarmente se a construção da barragem reduzisse o suprimento de água do Egito, "mesmo se for uma só gota".

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Promover entendimento cultural é o ponto de partida para prevenir o conflito, de acordo com Mina Girgis, cofundador do "The Nile Project". "E a música pode ser uma ferramenta", afirma. "Pode-se usar música para mudar o caráter de uma conversa antes do conflito atingir o ponto de ignição. Mas é preciso que isso ocorra antes que as pessoas cheguem a esse ponto."

Girgis, etnomusicólogo egípcio que vive em São Francisco, visitou Cairo em 2011, onde se inspirou na praça Tahrir enquanto a revolução egípcia se desdobrava. Pouco depois, ao voltar para os Estados Unidos, Girgis foi ao show de uma banda de funk etíope e ficou surpreso com o fato de que nunca tinha ouvido música etíope durante sua infância e adolescência no Egito, apesar dos dois países compartilharem um rio importante. Ele e sua amiga etíope-americana Meklit Hadero conversaram sobre como a falta de conhecimento cultural impede os países com interesses em comum de trabalharem juntos. Esboçaram então o "The Nile Project", um plano para usar a música para promover compreensão cultural e sustentabilidade ambiental na Bacia do Nilo.

 

Depois de uma viagem em busca dos melhores músicos para participarem do projeto, Hadero e Girgis lançaram o "The Nile Project" em Aswan, no Egito, em janeiro de 2013. O local era significativo: a barragem icônica, construída nos anos 1960, teve impactos políticos, culturais e ecológicos na região. Um destes, o deslocamento de 100 mil agricultores núbios no sul do Egito e no Sudão, é o tipo de questão que foi levada em consideração naquela primeira reunião do projeto. Até agora, houve mais duas reuniões: em Kampala, Uganda, no início de 2014, e em Minya, Egito, em novembro de 2014.

E ainda há a música. Trabalhando em grupos pequenos e usando o processo de liderança participativa, os 18 músicos da primeira reunião aprenderam formas de música completamente novas e criaram canções em apenas duas semanas. A colaboração funcionou tão bem que Aswan, o álbum ao vivo do primeiro show, acumulou elogios internacionais.

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"Percebemos que essa ideia, esse projeto cultural, é algo que as pessoas estavam procurando", diz Girgis. "Quando começamos o projeto, as pessoas mais animadas com o que estávamos fazendo eram aquelas que trabalham com conflitos por água. Elas viram que era muito relevante. Para promover a sustentabilidade da Bacia do Nilo, é preciso primeiro abordar a questão de como as pessoas tratam umas às outras, como se relacionam com seu ecossistema. Se não conseguirmos resolver nossos problemas enquanto pessoas que vivem no mesmo ecossistema, não seremos capaz de tornar esse ecossistema mais sustentável."

Durante a primeira turnê africana, em fevereiro e março de 2014, o projeto tocou em oito cidades ao longo do Nilo e apresentou oficinas relacionadas ao rio em universidades de Uganda, Tanzânia, Quênia, Etiópia e Egito. Eles estão indo atrás do crescente interesse entre os jovens com um conjunto de programas universitários, entre estes o Nile Fellowship, uma comunidade de estudantes, e o Nile Prize, um prêmio para incentivar ideias inovadoras com soluções para alguns dos desafios de desenvolvimento enfrentados pela região. "Até mesmo os governos estão animados com o que estamos fazendo", diz Girgis.

Atualmente em sua primeira turnê pelos Estados Unidos, o grupo está se apresentando e dando oficinas em universidades por todo o país. Entre os assuntos discutidos com acadêmicos e ativistas no país está o engajamento civil e a gestão dos recursos hídricos, o papel dos músicos nos movimentos sociais e as perspectivas das mulheres sobre o Nilo.

A turnê americana do "The Nile Project" tem como objetivo ajudar a construir uma rede global de cidadãos do Nilo, pessoas de várias disciplinas e geografias interessadas em contribuir na criação de uma Bacia do Nilo sustentável. O projeto oferece um exemplo de diálogo intercultural e ação ambiental liderada por cidadãos num continente que os norte-americanos deveriam conhecer mais. Como membro do coletivo, Alsarah destaca: "A África sempre trabalhou a partir do local, sempre. Todas as mudanças na África aconteceram a nível local. Estamos partindo de algo que já existia na África. Sinto que o que estamos fazendo é voltar a um caminho antigo, uma forma mais tradicional de conversar com o outro, e reconstruir o conhecimento que sinto que foi perdido com o tempo."

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Uma das soluções locais repassadas pelo "The Nile Project" é fácil de ser explorada em todo o mundo. Nas palavras do saxofonista, o etíope Jorga Mesfin: “Para mim, viver e trabalhar como um músico na África é diferente porque grande parte da música é funcional... precisa ter um papel na sociedade. Há canções de trabalho, canções de casamento, canções de crítica. Não inventamos as canções e melodias que tocamos para esse projeto, elas existem na população, sejam como canções românticas ou canções de narrativa histórica.”

"O projeto é realmente diferente e único porque não estamos apenas nos reunindo para fazer música, estamos em turnê há quatro meses vivendo juntos. Então é, na verdade, uma experiência de africanos vivendo juntos”, comenta Mesfin. “Estou vivendo com egípcios, sudaneses, ruandeses. O projeto é, na verdade, sobre isso: sobre vivermos juntos e sustentarmos a vida. As plateias sentem o amor mais do que sentem a música, sabe? Temos tocado em muitos países e, independentemente da origem da plateia, eles sentem. E isso tem sido incrível. Acho que entendem porque sentem que o amor é genuíno. Se esses países fizessem o tanto que fazemos para vivermos juntos, para compreendermos um ao outro, então teríamos um lugar melhor. Uma vida melhor."

 

Tradução: Jessica Grant

Matéria original publicada na YES! Magazine

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