Vinte e cinco anos de um marco na geopolítica do Oriente Médio

Guerra do Golfo, iniciada com a invasão do Kuwait pelo Iraque de Saddam Hussein, é um fenômeno próprio da geopolítica do Oriente Médio, um divisor de águas em uma das regiões mais intrincadas do planeta

A Guerra do Golfo é mais do que a família Bush, vai além de libertadores ou de vilões. Na semana em que se rememoram os vinte e cinco anos do conflito, é importante lembrar uma de suas facetas mais importantes e menos discutidas. A Guerra do Golfo de 1990, iniciada com a invasão do Kuwait pelo Iraque de Saddam Hussein, é um fenômeno próprio da geopolítica do Oriente Médio, um divisor de águas em uma das regiões mais intrincadas do planeta. Não foi o ato de um maluco, não foi meramente encerrada por libertadores. Seus motivos e suas consequências ainda desempenham influência na região.

O Kuwait é derrotado rapidamente e ocupado pelo Iraque em agosto de 1990. A monarquia é derrubada e é instalado um governo republicano, fantoche do partido Baath iraquiano de Saddam Hussein, contrastando o nacionalismo secular árabe com as monarquias islâmicas. O Iraque era um país endividado devido aos oito anos da custosa guerra com o vizinho Irã, de 1980 a 1988. A maior parte desse débito era devida ao Kuwait e ao reino da Arábia Saudita. A crise econômica do país de Saddam foi agravada pelo aumento de produção de petróleo do Kuwait, o que causou queda internacional do preço do óleo, afetando diretamente a balança comercial iraquiana. O governo iraquiano classificou essas ações como “guerra econômica”.

Wikimedia Commons

Soldados norte-americanos durante Guerra do Golfo, em 1990

O estopim da crise foi a acusação do regime de Saddam de que o Kuwait estava “roubando” petróleo no subterrâneo, via perfurações em declive. As razões econômicas são somadas ao discurso ideológico e histórico: o Iraque considerava o Kuwait uma mera província iraquiana, separada de forma provisória em decorrência de uma separação administrativa interna ao governo colonial britânico. A anexação do Kuwait, no projeto iraquiano, corrigiria um erro histórico, que embasava ideologicamente o nacionalismo árabe do governo de Saddam Hussein, além de permitir a reconstrução econômica do país, agora com o impulso de uma saída direta ao Golfo Pérsico para exportação de seu petróleo.

A recuperação econômica do Iraque poderia recolocar o país em um patamar de potência regional, tal qual no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. O Iraque, no período, era uma potência militar, com projetos nacionalistas ambiciosos, inclusive na área nuclear, com cooperação brasileira. O Brasil, além de acordos técnicos e fornecimento de urânio, também era um dos principais parceiros econômicos do Iraque. O país árabe era um dos principais fornecedores de petróleo, enquanto o Brasil exportava serviços, produtos agrícolas, carros e armamentos. O Iraque comprou mais de um bilhão de dólares em material bélico brasileiro, num período de sete anos na década de 1980.

As outras duas potências regionais que disputavam o protagonismo regional são as duas potências que o fazem hoje, Arábia Saudita e Irã. Após a Revolução Islâmica de 1979, no Irã, o governo do aiatolá Khomeini, de orientação xiita, declarou o objetivo de “exportar a revolução”. Isso alarma o Iraque, secular e árabe-nacionalista, e a Arábia Saudita, monarquia absolutista sunita. Os dois países deixam de lado suas diferenças fronteiriças e fortalecem seus laços pensando em se precaver de agressões iranianas. Uma balança geopolítica entre três potências regionais começa a ser afetada na região do Golfo Pérsico.

O Iraque, acreditando que seu vizinho persa estava em um momento de fraqueza, decide atacar primeiro. A guerra Irã-Iraque, uma das mais longas do século XX, deixa mais de meio milhão de mortos e resulta em um cessar-fogo na mesma situação anterior ao conflito. O Iraque não consegue expandir seu corredor costeiro no Golfo Pérsico e o Irã, apesar de deter o avanço iraquiano, não consegue desarticular o país vizinho. O governo do aiatolá fomentou movimentos internos ao Iraque, como os curdos, no norte do país, e milícias xiitas no sul. Os xiitas são maioria numérica no Iraque, embora fossem reprimidos pelo governo, seja pela natureza nacionalista do partido Baath, seja pelo fato de Saddam Hussein, pessoalmente, ser sunita e priorizar tal relação clãnica nos cargos do governo e do comando militar.

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Como visto, a Arábia Saudita foi uma das principais financiadoras do governo iraquiano durante o conflito - incluindo triangulações com o Brasil para compra de armamento. O sistema Astros, da empresa brasileira Avibrás, foi financiado pela encomenda inicial feita pelo Iraque, paga pela monarquia saudita. Deter a expansão da revolução xiita era a prioridade da Arábia Saudita no período, assim como o é hoje. O conflito deixa os sauditas em posição privilegiada. Reafirmam a posição do país como representante sunita e representante de um Islã tradicionalista, oposto ao Islã revolucionário xiita.

Após a guerra Irã-Iraque, tais relações entre iraquianos e sauditas são mantidas, com pactos de não-agressão e tentativas de arranjos financeiros na dívida externa iraquiana; o fato do Iraque ter “lutado pela Arábia Saudita” faz Saddam Hussein defender que não precisa pagar a dívida. Em um contexto de suspeita do líder iraquiano sobre uma conspiração regional para enfraquecer seu governo, formada por Kuwait, Irã e Síria, Saddam faz fortes pronunciamentos na Liga Árabe em julho de 1990. Para a embaixadora dos EUA, April Glaspie, ele afirma que o Iraque “não aceitará a morte”. Para o iraquiano, a situação era de uma articulação regional contra seu país, com a “guerra econômica” do Kuwait comparável às agressões militares. Nesse contexto, decide por invadir o pequeno país vizinho.

É a Arábia Saudita que conclama o mundo para formar uma coalizão que detenha a expansão iraquiana. O governo de Saddam Hussein é condenado por guerra de agressão nas Nações Unidas, sendo alvo de sanções econômicas, mas a articulação militar foi feita por pedido saudita. A monarquia árabe afirmava que a expansão iraquiana ameaçava sua segurança e sua integridade nacional. O primeiro objetivo da coalizão internacional formada é justamente o de escudar a Arábia Saudita, e seus campos de petróleo, contra eventuais ofensivas do exército iraquiano. O interesse saudita em conter o Iraque pode ser visto numericamente. O país foi o principal financiador das tropas da coalizão, com mais de trinta bilhões de dólares pagos apenas por compensação, além de obras de reconstrução.

Ao final do conflito, temos um Iraque derrotado, alvo de sanções econômicas e enfraquecido. Novamente, os curdos e os xiitas tentam se rebelar contra o governo Saddam Hussein, sendo duramente reprimidos em 1991, deixando até duzentos mil mortos segundo algumas estimativas. Lembrar-se das políticas repressoras e autoritárias do regime de Saddam Hussein é essencial. Analisar o conflito da Guerra do Golfo no panorama internacional, a influência dos EUA na política regional e o final da Guerra Fria é importantíssimo. O conflito, entretanto, não se resume apenas aos heróis e vilões ou às potências mundiais. A Guerra do Golfo é também um evento da intrincada geopolítica do Oriente Médio, relacionada ao enfraquecimento do Iraque, ao radicalismo islâmico e ao atual antagonismo entre Irã e sauditas.

Filipe Figueiredo é redator do blog Xadrez Verbal

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