Jornal Abertura: união da luta do movimento negro com o combate à ditadura

Periódico, que teve apenas uma edição, se propunha a debater questões do movimento negro e também pautar a discussão da abertura para a democracia

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Sufocados pela perseguição da ditadura civil-militar e pelas dificuldades impostas pela censura, a categoria dos jornalistas enfrentou tempos difíceis em meados dos anos 1970, no Brasil. Da mesma forma, as pautas identitárias, que se tornavam cada vez mais necessárias, não encontravam espaço de debates e a luta do negro não fazia parte da agenda da grande imprensa. Nesse contexto, jornalistas negros que atuavam na grande imprensa resolveram fundar um jornal próprio, que atendesse suas pautas. Lançado em 1978, o jornal Abertura teve apenas uma edição e trazia em suas páginas a urgência das reivindicações, buscando um espaço na imprensa do Brasil.


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Reprodução-Único número do jornal AberturaColegas de trabalho no jornal Folha da Tarde, a jornalista Diva Gonçalves e o jornalista e escritor Oswaldo de Camargo começaram a idealizar um periódico que unisse a luta do movimento negro com o enfrentamento à ditadura militar. Ambos sabiam, por experiência própria diária, que o negro não encontraria espaço para suas pautas, a não ser que fundasse um veículo de comunicação próprio.

“Não havia espaço. Nem para a luta democrática e muito menos para a luta do movimento negro”, conta Camargo, que assumiria o cargo de diretor responsável pelo jornal. Sem recursos, o projeto do Abertura surgiu de uma série de reuniões entre amigos na casa de Diva, ansiosos para dar voz aos seus pensamentos.

Um dos envolvidos no nascimento do periódico foi o jornalista Nei Souza, recém-formado no ano de 1977, que saía da universidade em busca de um veículo que o representasse e desse espaço para suas ideias. “A resistência precisava ter alternativa para trocar informações. Nós como jornalistas, decidimos fazer um jornal”, conta Souza.

Lançamento

Após um longo período de reuniões, o jornal Abertura foi lançado em setembro de 1978. Com tiragem de 5.000 cópias, a publicação foi impressa na gráfica do jornal O Estado de São Paulo, graças aos contatos que Diva e Camargo possuíam na empresa. Para Camargo, um dos fatores fundamentais que permitiu o lançamento do jornal “foi a matéria paga do Colégio Objetivo, que conferiu ao jornal um ar de profissionalismo que, evidentemente, nós ainda não tínhamos”.

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A matéria de capa do primeiro e único número do Abertura tratava sobre o consumo da população negra e da forma como essa parcela da sociedade era esquecida no meio publicitário. Souza, autor da reportagem, lembra que à época essa era uma discussão muito pouco tratada e destaca a inovação do jornal. “Com o titilo ‘o negro também consome’, nós reivindicávamos um espaço na publicidade, porque você não via nenhum negro desempenhando qualquer papel de destaque na mídia”, conta o jornalista.

Para Souza, o fato de o jornal ter uma equipe reduzida e poucos recursos para continuar sua trajetória não impediu que o projeto do Abertura os trouxesse satisfação. “No caso do Abertura, houve apenas 5.000 exemplares, mas que nos deram um ânimo muito grande para continuar nessa jornada. Ninguém ficou rico, mas ficou de coração limpo”.

Reprodução

"Não havia espaço. Nem para a luta democrática e muito menos para a luta do movimento negro”, conta Camargo

Fiscalização e dívidas: o fim

Enquanto a primeira edição, já pronta, estava sendo impressa na gráfica, a fiscalização do Estado quis saber se o jornal possuía firma aberta e estava regularizado perante os órgãos devidos. “Eles queriam saber quantas máquinas de escrever nós tínhamos, quantos funcionários trabalhavam lá e nós não éramos uma empresa, nós éramos jornalistas”, conta Camargo, que ocupava a posição de diretor responsável do Abertura.

Intimidados pela pressão do governo e pela possibilidade de contraírem dívidas, os jornalistas foram forçados a abrir mão de um veículo próprio e o Abertura deixou de existir. “Naquela altura, se alguma coisa acontecesse com o jornal, eu teria que responder porque eu era o diretor da publicação”, lembra Camargo. Somente a primeira edição circulou.

O jornalista afirma que o receio de apostar na continuação do jornal sem possuir as garantias financeiras necessárias foi um dos motivos para o fim do Abertura. Para Camargo, ele “se tornou inviável talvez até diante do meu próprio medo de assumir uma coisa tão grande. Avançando para o segundo, terceiro, quarto número iria virar uma empresa e eu ia ter de assumir as responsabilidades de empresário”.

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