Memórias da Imprensa Alternativa no Brasil: lembrar é um ato político

Série busca resgatar histórias dos jornais e revistas que se misturam com a da defesa da democracia, da resistência e da luta por liberdade e igualdade

Redação

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A série de reportagens Memórias da Imprensa Alternativa no Brasil surgiu da vontade de trazer à tona as muitas histórias dos jornais e dos jornalistas que lutaram pela democracia durante os anos em que o Brasil viveu sob ditadura civil-militar (1964 a 1989).

Em matérias especiais, registramos em texto e vídeo as alegrias e dificuldades, a coragem e a angústia, as reuniões de pauta e o trabalho de reportagem de 14 jornais alternativos que circularam durante o período de exceção democrática no país.

Os personagens ouvidos por Opera Mundi trazem por meio de suas memórias uma história marcada pela resistência contra o autoritarismo que se instaurou no Brasil. Conversamos com grandes nomes do jornalismo brasileiro como Audálio Dantas, Raimundo Pereira, Elifas Andreato, Carlos Azevedo, Amelinha Teles, Neusa Maria Pereira e muitos outros personagens que participaram da construção desses periódicos.

A série buscou contar a história de publicações que alcançaram grande sucesso editorial à época, e de outros efêmeros que, em alguns casos, tiveram apenas uma edição. Periódicos como Amanhã, criado e dirigido por membros do movimento estudantil no período que antecedeu o AI-5, demonstravam a intenção dos estudantes de resistir ao golpe civil-militar de 1964 e dialogar com a classe trabalhadora.

Parte da equipe que fundou o jornal Amanhã iria trabalhar mais tarde na consolidação de dois dos maiores periódicos da imprensa alternativa, Opinião e MovimentoOpinião, que nasceu em uma tentativa de oposição dentro da legalidade contra a ditadura, e Movimento, que cobriu de perto o fim da censura e a campanha pelas diretas, viriam a se tornar duas grandes referências de bom jornalismo feito pela imprensa alternativa.

Episódio cruel na história do Brasil, o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, preso no DOI-Codi e morto durante sessões de tortura, se mostrou decisivo para enfraquecer a ditadura e dar estímulo para os movimentos de resistência. Ninguém melhor do que Audálio Dantas, presidente do sindicato dos jornalistas e diretor do jornal Unidade à época, para contar essa história.

Publicações como Brasil MulherVersusÁrvore das Palavras Abertura traziam as questões identitárias e culturais para a agenda de reivindicações. Dissidente do Movimento, o jornal Em Tempo entraria para história por conta da publicação da lista dos torturadores que atuavam nos porões da ditadura. Os Cadernos do Terceiro Mundo buscavam unificar o pensamento da esquerda ao redor do mundo e, ao mesmo tempo, mostrar o que acontecia no Brasil. Libertação trabalhava na clandestinidade e servia como órgão de informação da Ação Popular. O TrabalhoABCD e Oboré deram voz aos trabalhadores do movimento operário e serviram como catalisador da resistência em um momento de dispersão do movimento contra a ditadura.

Essas histórias estarão para sempre gravadas, seja na memória de seus atores principais, seja nas páginas desses jornais. Opera Mundi buscou reunir parte dessas histórias que devem ser contadas por muitos anos, pois no embate da memória, lembrar se torna um ato político. A memória nos previne e deve ser preservada e celebrada junto com a democracia.

Abaixo, clique nos links para ler todas as reportagens da série:

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Versus: arte, literatura e cinema contra a ditadura militar

Um jornal que politizava a cultura e tratava a política por um viés cultural, elaborado em uma redação que abrigou militantes perseguidos pela ditadura civil-militar brasileira, que serviu de berço para o nascimento do Movimento Negro Unificado (MNU), para a estreia do jornal feminista Nós, Mulheres e como ponto de encontro para inúmeras reuniões em busca da democracia. 

Esse era o Versus: criado e dirigido pelo jornalista gaúcho Marcos Faerman, o jornal abria os olhos e as páginas para a América Latina e criticava a ditadura de maneira fina e inteligente.


Jornal Abertura: união da luta do movimento negro com o combate à ditadura

Sufocados pela perseguição da ditadura civil-militar e pelas dificuldades impostas pela censura, a categoria dos jornalistas enfrentou tempos difíceis em meados dos anos 1970, no Brasil. Da mesma forma, as pautas identitárias, que se tornavam cada vez mais necessárias, não encontravam espaço de debates e a luta do negro não fazia parte da agenda da grande imprensa.

Nesse contexto, jornalistas negros que atuavam na grande imprensa resolveram fundar um jornal próprio, que atendesse suas pautas. Lançado em 1978, o jornal Abertura teve apenas uma edição e trazia em suas páginas a urgência das reivindicações, buscando um espaço na imprensa do Brasil.


Em Tempo: um jornal para enfrentar a ditadura de modo contundente

Insatisfeitos com os rumos editoriais que o jornal Movimento tomava e desgastados por rachas políticos, alguns jornalistas da publicação decidiram deixar o jornal para fundar outro periódico com o qual se identificariam. Em janeiro de 1978, o jornal Em Tempo foi lançado com a proposta de combater a ditadura expondo suas contradições internas - e que prenunciavam o fim do regime.

O jornalista Bernardo Kucinski, que teve um papel de mediador entre Fernando Gasparian e Raimundo Pereira na fundação do Opinião, e fora um dos principais colaboradores do Movimento, liderou a elaboração do Em Tempo e se tornou editor-chefe do jornal.


Movimento: grandes reportagens, financiamento coletivo e muita censura

Os desentendimentos com o empresário Fernando Gasparian e a pressão da censura levaram a redação do jornal Opinião a se demitir em massa em meados de 1975. De volta a São Paulo, os jornalistas Tonico Ferreira e Raimundo Pereira começaram a concretizar a ideia de um periódico sem patrão e de oposição aberta à ditadura civil-militar.

Financiado por acionistas interessados na luta democrática, o jornal Movimento foi lançado no dia 7 de julho de 1975 e se tornou um dos maiores jornais alternativos do Brasil.


Jornal Opinião: oposição à ditadura dentro da legalidade

A brutalidade com que a ditadura civil-militar brasileira perseguiu movimentos populares e partidos políticos de oposição ao regime obrigou organizações legais a migrar para a clandestinidade, onde, aos poucos, seus membros foram presos, mortos, exilados e desmobilizados. 

Em meados dos anos 1970, os focos da luta armada haviam sido derrotados pelas forças de repressão e as poucas frentes de resistência à ditadura não possuíam o vigor necessário para enfrentá-la. Nesse contexto, surgia um jornal de oposição, dentro da legalidade, com firma aberta, funcionários registrados em carteira e sucesso editorial enquanto durou: o Opinião.


Cadernos do Terceiro Mundo: cobertura internacional alternativa

A polarização do mundo em meados dos anos 1970, causada pela disputa geopolítica entre Estados Unidos e União Soviética, dividiu o globo em dois grandes blocos. Mas alguns países buscavam uma outra via. A Conferência de Argel, realizada em 1973, reuniu os Países Não-Alinhados para discutir as transformações protagonizadas pelo chamado Terceiro Mundo. 

Exilados do Brasil por conta da ditadura civil-militar, os jornalistas Paulo Cannabrava e Neiva Moreira (que também fora deputado federal) participaram da conferência e perceberam a necessidade dar voz às novas ideias que os países em desenvolvimento estavam propondo. A libertação das colônias portuguesas na África, a efervescência no mundo árabe, as guerrilhas pela América Latina: esses foram alguns dos temas que ganharam uma leitura especial dos Cadernos do Terceiro Mundo.


Abcd Jornal: da luta armada à imprensa para os trabalhadores

No final da década de 1970, a região do ABC Paulista e os sindicatos que ali estavam atraíam diversos tipos de militantes contra a ditadura civil-militar brasileira. Muitas organizações de luta armada já haviam revisto seus princípios e decidido trabalhar em outras frentes.

Uma delas, a Ala Vermelha, organização dissidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), havia sofrido muitas quedas desde o final de 1960 e, quando muitos de seus quadros saíram da prisão anos depois, a organização decidiu que era o momento de se aproximar da classe trabalhadora a partir da indústria de ponta, das grandes montadoras do ABC.


Unidade: o jornal dos jornalistas, pela democracia

No dia 25 de outubro de 1975, o então diretor de jornalismo da TV Cultura, Vladimir Herzog, se apresentou ao Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna, o DOI-CODI, após ser intimado no dia anterior por agentes do II Exército para prestar depoimento sobre suas supostas ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Vlado só sairia de lá no dia seguinte, morto após sessões de tortura, sob falsa alegação de suicídio. O fato se consolidou como um dos marcos para a derrocada da ditadura civil-militar brasileira, graças às inúmeras forças que combateram à época para a memória de Vladimir Herzog não ser apagada e pela verdade vir à tona. Nesse sentido, o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo e o jornal Unidade foram fundamentais para a luta pela memória de Vlado, pela justiça e pela democracia.


Libertação: o jornal da luta clandestina da AP (Ação Popular) contra a ditadura

A vida na clandestinidade durante a ditadura civil-militar brasileira era cheia de privações e compromissos. Militantes de várias organizações se escondiam das forças de repressão e se ocupavam com atividades e estratégias para organizar a resistência. Jornais eram impressos em mimeógrafos, em gráficas clandestinas, em endereços anônimos e distribuídos em esquemas cuidadosamente elaborados para escapar dos olhos da repressão.

Foi assim que surgiu, em 1968, o jornal Libertação, órgão oficial de comunicação da organização Ação Popular (AP), que se propunha a combater o regime com matérias que denunciavam seu caráter opressor e prejudicial ao Brasil. 


Oboré: jornalismo sindical e luta democrática

No final da década de 1970, o movimento operário serviu como um pólo catalisador que atraiu grupos de pessoas dispostas a lutar contra a ditadura civil-militar brasileira. Direções progressistas começavam a retomar o controle dos sindicatos e dar voz ativa aos trabalhadores. O exemplo do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e das greves de 1978-1980 traduzem o espírito de luta que rondava a época.

Era preciso reunir os dispersos e empoderar os trabalhadores no enfrentamento ao regime militar. Um grupo de jornalistas e artistas, empenhados no combate à ditadura, se dispôs a cumprir o papel da comunicação sindical: assim, a Oboré nasce para nunca ter um veículo próprio, mas para editar inúmeros jornais de sindicatos e marcar sua contribuição pela redemocratização do país.


O Trabalho: diálogo aberto e resistência à ditadura

Na segunda metade dos anos 1970, a ditadura civil-militar do Brasil começava a conhecer novas formas de resistência. O movimento estudantil reunia forças e buscava se recompor após anos de perseguição. Os operários colocavam fim às administrações "pelegas" dos sindicatos e assumiam uma postura progressista e reinvidicatória. Era preciso trabalhar para resistir - e o jornal O Trabalho traduzia esse espírito. 

Lançado no dia 1º de maio de 1978, a publicação que circula até hoje e que cobria passeatas, comícios e greves de operários surgiu como expressão de um tendência trotskista, a antiga Organização Socialista Internacionalista (OSI), da qual a Liberdade e Luta (Libelu) fazia parte. O jornal foi tão importante para esse grupo político que, hoje, a corrente política que se chamava OSI leva o nome de O Trabalho.


Amanhã: um jornal de estudantes para o movimento operário

Em 1967, o golpe civil-militar completava três anos e ainda não havia mostrado sua pior face - o que aconteceria em dezembro de 1968, com a instauração do AI-5. Os destinos do Brasil ainda eram incertos e a sociedade se movimentava na resistência ao regime dos militares. Neste ano, chegava às bancas um novo semanário com um nome que fazia referência ao futuro, ao que está por vir, ao Amanhã.

No dia 13 de março, foi impressa a edição número zero do semanário estudantil que falaria com os trabalhadores e duraria apenas sete números. "Veja os 5 golpes do fundo", era o que trazia como manchete a edição do Amanhã, denunciando irregularidades no recém-criado Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A segunda edição também tratava de questões ligadas ao Fundo de Garantia e trazia matérias culturais e até um caderno especial.


Brasil Mulher: luta feminista por liberdade e anistia

Corria 1975, declarado pela Organização das Nações Unidas como o Ano Internacional da Mulher. No Brasil – que vivia debaixo de forte repressão militar – grupos começam a se organizar cada vez mais em movimentos segmentados. Surge, por exemplo, o Movimento do Custo de Vida, em que grupos de mães da periferia pedem o congelamento dos preços de produtos de primeira necessidade, a criação de creches e reajuste salarial de acordo com a inflação.

É neste contexto que é criado o Brasil Mulher, um marco da luta feminista e da resistência à ditadura militar no país. Duas militantes idealizaram o jornal: Terezinha Zerbini, que se destacou por levantar a bandeira da anistia, em um momento em que o tema ainda era pouco discutido, e a jornalista e professora Joana Lopes, que, interessada pelo movimento, propôs a criação de um veículo que divulgasse a causa, e tratasse também de temas voltados às mulheres.


Árvore das Palavras: um jornal negro contra a ditadura

São Paulo, meados da década de 70. As universidades brasileiras borbulhavam com jornais “nanicos” assinados por estudantes que faziam resistência à ditadura civil-militar. Nelas, o movimento negro tentava ganhar força em um ambiente que tinha portas fechadas aos que não pertencessem às elites do país. A criação de jornais independentes foi um dos sinais dessa luta - e, neste contexto, surgiu o "Árvore das Palavras".

O "Árvore" foi idealizado pelo jornalista e escritor Jamu Minka, que queria criar um canal que ultrapassasse os muros da universidade, atingindo diretamente o povo negro, em uma proposta unificadora. A ideia era inspirada em experiências ocorridas em Angola e Moçambique, onde havia a proposta de uma discussão política levada a cabo em uma linguagem mais simples. O nome alude à tradição africana de se reunir sob as árvores de baobá para ouvir a palavra dos mais velhos.

 

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