Água de torneira é 25% mais poluente do que a de garrafa, diz associação

De acordo com presidente da Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais, produto não apresenta contaminação por substâncias presentes no plástico e que podem interferir na produção de hormônios em seres humanos

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Contestando a percepção popular de que a água engarrafada tem um processo produtivo que traz sérios danos ambientais, o presidente da Abinam (Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais), o hidrogeólogo Carlos Alberto Lancia, afirma que, na verdade, é a água da torneira a mais prejudicial ao meio ambiente: "O impacto é 25% maior do que a água mineral vendida em garrafa".
 

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Em entrevista a Samuel, o hidrogeólogo representante do setor de água engarrafada procurou, por meio da Abinam, a redação do site para responder à posição do pesquisador Wilson Jardim, professor do Instituto de Química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Em entrevista reproduzida por Samuel no dia 23/10, Jardim comentava a qualidade da água no Brasil, desaconselhando o consumo do produto engarrafado. O estudioso citava a possibilidade de contaminação por endócrinos, substâncias que interferem na produção de hormônios em seres humanos e animais. Segundo o Wilson Jardim, estas substâncias poderiam chegar aos depósitos de água subterrâneos ou passar à água pelo contato com as embalagens plásticas, cuja fabricação utiliza compostos químicos que teriam estas propriedades, como os ftalatos e o bisfenol A. 
 
O presidente da Abinam contesta as afirmações do pesquisador e diz que a indústria que representa não utiliza mais garrafas de policarbonato e PVC, tipos de plástico com bisfenol A. O hidreólogo Carlos Alberto Lancia afirmou ainda que a água mineral no Brasil é engarrafada em resina PET, e descartou a possibilidade de contaminação da água pelos ftalatos presentes nas garrafas plásticas: “Para isso, a água teria que ter sido submetida a condições de estocagem inadequadas, a temperaturas elevadíssimas. Ou seja, aplicadas as condições normais de transporte, a nossa água não tem isso.”
 

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Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Carlos Alberto Lancia, presidente da Abinam:
 

Revista Samuel: Você aconselha beber água envasada?

Carlos Alberto Lancia: Tranquilo e calmo, pode beber. A Abinam assegura a qualidade da água.

RS: De onde vem a água mineral engarrafada vendida no Brasil?

CAL: Existe uma coisa chamada ciclo hidrológico. Então a água do planeta Terra, desde o tempo de Adão e Eva, é a mesma quantidade. Não tem nenhum marciano roubando, nenhum cometa despejando água. A água da chuva vem, uma parte infiltra, outra parte escorre, outra evapora. Essa parte que infiltra, vai passando nas rochas, vai carregando sais minerais, vai em profundidade até encontrar uma zona de rochas impermeáveis e forma ali uma jazida de água mineral. Então a água mineral não sofre influência da água superficial. Este tempo que a água vinda da chuva percorre as rochas e chega até lá, a gente chama de tempo de residência da água. Então tem água que você bebe numa garrafa hoje que choveu oito anos atrás, outra há trinta, outra há cinquenta... Ou seja, como se fosse uma safra. Isso é água mineral. Os sais minerais vão dar propriedades funcionais ao organismo, além de matar a sede, e é um produto 100% natural, não tem tratamento. É um produto orgânico, por definição e por natureza.

RS: Como é o processo para a água mineral chegar ao consumidor?

CAL: A água mineral não é tratada. Ela é extraída através de poços tubulares. Toda a nossa tubulação é em aço inox, não é em PVC, não é em ferro, não é em amianto. Existe uma legislação específica para isso. Então nós extraímos nossa água através das nossas fontes e através de poços tubulares. Ela não passa por nenhum processo de tratamento, vai para a sala de envase e depois para o consumidor. Nós não industrializamos. Nós envasamos a água mineral. É mais difícil do que fazer cerveja, refrigerante, vinho, porque lá tem processo industrial, nós não temos. É um produto 100% natural.

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RS: Vocês têm estudos sobre o índice de interferentes endócrinos na água mineral vendida no Brasil?

CAL: Claro que temos. A Abinam existe há mais de 60 anos, e aqui não é só uma associação comercial, nós temos um comitê científico. Nós não envasamos água em policarbonato, então o bisfenol [composto presente em alguns tipos de plástico e considerado interferente endócrino], no Brasil, não existe. Nós não envasamos mais água em PVC. Hoje a gente usa resina PET. Se por acaso a resina que nós estamos usando não for adequada, a gente muda de resina, nós não somos reféns de nenhuma indústria. Nós temos as normas ABNT 15558 e ABNT 15395 que estabelecem, para a garrafa PET de água mineral, um padrão diferente daquele do refrigerante.

Existe um trabalho realizado por Renata Rodrigues Souza, Elâine Arantes Jardim Martins, Juliana Ikebe Otomo e Maria Aparecida Faustino Pires que concluiu que nas águas minerais do Brasil nós não temos esse problema [cita o estudo]: “Estes resultados indicam que a água comercializada pela marca avaliada não apresenta contaminação na fonte mineral utilizada e que, nas condições de armazenamento a que foi submetida a amostra, os compostos plásticos constituintes da embalagem não foram lixiviados para a água mineral.” Ou seja, nós estamos direitinho. Nós temos uma norma específica para resina. Então tudo o que o professor falou, nós não temos na água mineral brasileira.

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RS: A resina PET, ou politereftalato de etileno, indica no nome a presença dos ftalatos citados pelo professor, e estudos os citam como interferentes endócrinos.

CAL: É fácil você entender: a água entra na embalagem e fica em contato com o plástico. Para que algum contaminante que exista ali passe para a água, é preciso que aconteça um processo chamado lixiviação. E, para isso, a água teria que ter sido tratada, a água teria que ter sido submetida a condições de estocagem inadequadas, a temperaturas elevadíssimas. Ou seja, aplicadas as condições normais de transporte, a nossa água não tem isso. A nossa norma não traz isso. Agora, se você pegar outros tipos de embalagem que não o PET, elas podem apresentar outros componentes como o bisfenol, por exemplo.

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RS: Como é a normatização do transporte e do armazenamento da água mineral engarrafada no Brasil?

CAL: Existe uma norma ABNT só para isso. Aqui tudo está normatizado. E outra coisa, simples de entender: a garrafa PET, quando atinge 60 graus [Celsius], ela se deforma. E a temperatura [ambiente] para que isso aconteça tem que estar acima de 80 graus. Então se por acaso isso viesse a acontecer, a garrafa estaria toda deformada, nem estaria no ponto de venda. Então só isso já exclui qualquer possibilidade [de contaminação da água por compostos presentes na resina PET].

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RS: Existe alguma iniciativa da indústria de água mineral no Brasil para compensar ou neutralizar o impacto ambiental do processo de extração, envasamento e transporte da água?

CAL: Claro que existe. 55% de nosso mercado é [formado por] garrafão retornável de 20 litros. 100% desse material é reciclável. Nós participamos da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Então existe sim um trabalho nosso para isso. Quando você fala em impacto ambiental, é cadeia produtiva versus carga poluidora. Eu te pergunto: o que polui mais: água de torneira ou a garrafa de água mineral? Você vai responder para mim, como 90% das pessoas, que a água de torneira polui menos. E não é assim.

Quando eu pego a cadeia produtiva versus a carga poluidora, a água de torneira tem um impacto 25% maior do que a água mineral. Sabe por quê? Você tem que fazer toda a cadeia: tem que armazenar a água, desmatar, colocar produtos químicos, produzir o cloro, e um dos componentes utilizados na produção do cloro é o mercúrio. Tubulação, energia, você tem que fazer todo esse cálculo.

Nós temos uma coisa que se chama área de proteção das fontes. O que nós temos de área de preservação das fontes é maior do que o estado de Sergipe. Nós também estamos atualizados em relação à questão de impacto ambiental. Nós somos os maiores interessados nisso, porque a água mineral não tem nenhum tratamento, é um produto 100% natural. Não tem cloro, não tem nada na água mineral, é um produto natural.


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