Análise: Golpistas serão engolidos pelo golpe

Entre os que estão contra Dilma, vemos a mesma parcela da sociedade reacionária que patrocinou a ditadura e apoiou chegada de Collor na presidência


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Eu tinha 16 pra 17 anos nas eleições entre Lula e Collor em 1989. Estudava num colégio fascista, o Bandeirantes, ninho de tucanos até hoje. O colégio todo, com meninos e meninas da elite paulistana, era favorável à eleição do Fernando Collor, Mas eu não ligava e fazia uma intensa campanha pro Lula – cantando Lula Lá alegremente pelos corredores.

Reprodução YouTube

Último debate presidencial entre Fernando Collor e Lula

Acho que, entre idas e vindas da época, eu tinha um namorado que achava boa a eleição do Collor, o caçador de Marajás. Lembro-me vagamente dele animado com uma reportagem da Veja sobre o novo fenômeno da política brasileira. Mas eu tinha a firme e forte convicção de que tinha que tirar título e votar no Lula. O namoro acabou.



Camiseta vermelha, estrelinhas de ferro em forma de broche e uma caneta que não funcionava nunca era meus fiéis aliados no colégio. Conversava horas com o professor de física sobre as eleições. Era uma época bem legal, ainda que eu sofresse certo bullying dos colegas. Ainda assim, andava orgulhosa pela escola, com minhas próprias convicções e confiante na vitória do Lula. Depois de um tempo de campanha, começaram as propagandas eleitorais baixas na TV, apareceu a Lurian, a história do aborto que não ocorreu, um debate roubado, uma menção atravessada a um “3 em 1” que o Lula teria e que  demonstraria que ele era rico (para as novas gerações, “3 em 1” era um aparelho revolucionário e caro, que reunia rádio FM e AM, toca-discos de vinil e fitas cassetes: a gente podia gravar o rádio e o disco nessas fitas magnéticas de 30, 60 e 90 minutos!).

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Era uma baixaria de dar vergonha.

No dia em que saiu o resultado das eleições, fiquei consternada, com o sentimento de que tinha sido roubada. Não podia ser verdade, não podiam ter feito aquelas baixarias todas. Minha sensação era a de que uma parte da população já estava começando a entender que aquilo tinha sido ilegal e imoral, que tinha sido um estelionato eleitoral. Então, nas pessoas com que convivia, uma vergonhinha se instalou timidamente.

Descobri, recentemente, em pesquisas sobre a ditadura, que Collor fora apresentado às tradicionais famílias paulistas por Luis Eulálio Bueno Vidigal, que era presidente da Fiesp na época. Tanto ele como o irmão, Gastão Vidigal, banqueiro do Mercantil, foram patrocinadores da ditadura, e Gastão organizou o “caixinha” da tortura – um dinheiro de caixa 2 que levou muitos militantes ao caixão. Nessa família acostumada a operações políticas reacionárias, portanto, nasceu o apoio em dinheiro à Collor e também o apoio midiático à sua candidatura.

A Fiesp e a oligarquia paulistana se uniam naquele começo dos anos 1990 para manterem a ordem vinda da ditadura e aprofundarem os saques do Estado. Minha sensação adolescente, de que o Collor era ainda a ditadura e que sua vitória foi a da ditadura, se confirmou nessas pesquisas da minha maturidade. Os militares saíam de cena, mas todos os outros atores do golpe de 1964 continuavam de pé e atuantes – as elites empresariais, o aparato jurídico reacionário, a mídia elitista.

Fernando Collor, e seu estilo machista do "eu tenho saco roxo", representava a velha política predadora do país, que havia derrubado o governo democrático de João Goulart em 1964. Na época, foram os militares e uma parte as sociedade que deram o golpe – uma classe média reacionária, inculta e religiosa, um judiciário retrógrado, uma elite voraz escudados por uma mídia profundamente ideológica e anticomunista. Foram exatamente esses grupos que, ao lado de Collor, travestiram-se com uma nova roupagem nos anos 1990 para usarem os mesmos truques sujos e continuar no poder.

Teoricamente, não era mais ditadura, mas, na prática, era ainda. A polícia continuava a mesma da ditadura, com a mesma violência, a economia servia apenas aos ricos e poderosos de sempre, o Estado era deles. A esmagadora maioria da mídia apoiou entusiasticamente o então jovem caçador de marajás.

Assim que assumiu a presidência, Collor mostrou com sanha seu desejo insano de se apropriar do Estado. Foram anos complicados, em que tudo parecia se desfazer no ar. Logo, começaram as manifestações pelo impeachment. Tínhamos o entendimento claro de que a saída de Collor do governo federal era a derrubada definitiva da ditadura no governo. O pior da sociedade parecia ser extirpado, jogado fora. Mas não foi, submergiu aos poucos durante a década em que reinou FHC, e mergulhou mais fundo nos tempos de Lula e Dilma. Até que se viu enricada, mas de joelhos. O dinheiro, maior, não comprava tudo, porque o dinheiro não comprava o poder absoluto. Era preciso negociar, aceitar avanços, políticas igualitárias, cotas, feminismo etc.  

Agora, com o golpe contra a presidenta Dilma e os governos do PT, vemos a volta da Ditadura, daquela parcela da sociedade reacionária, elitista e predadora, de mãos dadas com os de sempre: o Judiciário retrógrado e a mídia interesseira. São eles que nunca aceitaram a democracia, que precisam de golpes e artimanhas para se manterem no poder à força.

Eu tenho uma tendência a querer ver o lado bom das situações. Mas acredito que, da mesma maneira que a sociedade brasileira naquela época não cabia mais na roupa da ditadura, da opressão, do saque, do machismo e da falta de liberdade, agora também não. O golpe se consumará, mas não irá durar. A sanha predatória do golpistas os engolirá.

* Joana Monteleone é historiadora

** Este texto foi originalmente publicado em Painel Acadêmico


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