Diário do Bolso: Eu gosto é de Vingadores, não de Vingativos!

Diário, ontem, aqui no hospital, vi uma cópia pirata do filme Bacurau. Eu pensava que ia odiar, mas odiei mais do que eu pensava

José Roberto Torero

São Paulo (Brasil)

Diário, ontem, aqui no hospital, vi uma cópia pirata do filme Bacurau.

Eu pensava que ia odiar, mas odiei mais do que eu pensava.

É tudo errado nesse filme. Pra começar, o povo trata mal o prefeito, o Tony Junior, que é um político muito bom. Ele leva umas comidas, uns remédios, uns caixões e até uns livros lá para Bacurau. Pô, o que mais que aquele povo quer?

Outra coisa que eu achei ruim é que o filme fala mal de turista americano. Se é americano é bom, pô! É dólar, é civilizado, é top, é gold. Tá certo que os caras vieram pra matar. Mas pra aquele povo lá de Bacurau, ser alvo de Glock devia ser uma honra, talkei?

E aquele personagem, o Lunga. O que é aquilo? Um cangaceiro de unha pintada, cabelo comprido e colar de ouro? Não pode, pô! Cangaceiro tem que ser macho!

O personagem que eu mais gostei foi o alemão americano. Com aquele rifle e com aquele chapéu, até me lembrou o Olavo.

No tocante ao estilo, o filme é meio faroeste e isso eu achei bom. Mas os mocinhos têm que ganhar sempre. Nessa porcaria de filme, quem ganha é o índio, pô. Quer dizer, o índio, não, o nordestino. Bah, tanto faz, índio e nordestino é tudo a mesma coisa!

Outro defeito: cadê a milícia nesse filme? São os americanos? São os cangaceiros? Os cangaceiros não são, porque miliciano é tudo rico, mora em condomínio fechado, e os cangaceiros desse filme são pobretões.

Mas, de tudo, o que eu menos gostei foi do povo. Povo como personagem principal não dá. É que nem eu disse outro dia: “Quem gosta de pobre é o PT”. Eu quero ver é super-herói, não aquela gente de bermuda e chinelo. E mais: povo tem que ser bonzinho e coitado. Tem que ser magro, olhar pro chão, ter cara de almoço de urubu. Mas nesse filme, não. Nesse filme o povo é quem resolve as coisas. Aí não dá, pô!

Olha, Diário, eu gosto é de Vingadores, não de Vingativos!

(*) José Roberto Torero é escritor e jornalista, autor de livros como Papis et Circensis e O Chalaça. O Diário do Bolso é uma obra ficcional de caráter humorístico.

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