Militarização do cotidiano no Brasil reproduz ações de Israel contra palestinos

Brasil é o quinto maior importador de aparato militar de Israel, segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz sediado em Estocolmo, na Suécia

Evandro Almeida Jr.

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“As mesmas armas que matam e reprimem no Brasil derramaram lágrimas antes na Palestina.” A fala de Soraya Misleh, da Frente em Defesa ao Povo Palestino, busca sintetizar uma realidade que une o cotidiano de Brasil e dos territórios da Palestina ocupados por Israel. A cada dia, as forças de segurança brasileiras investem em treinamentos e equipamentos militares realizados pelas Forças Armadas e por empresas israelenses.

O trânsito dessas técnicas e tecnologias é também um grande negócio. Apenas numa dessas operações, a Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo investiu R$ 30 milhões em seis veículos blindados chamados Guardião. A produção é da israelense Plasan.

O Brasil é o quinto maior importador de aparato militar de Israel, segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz sediado em Estocolmo, na Suécia. Suas especializações e conhecimento são fruto de “um laboratório humano” nos territórios palestinos, como afirma Misleh.

Antes de chegar ao Estado de São Paulo, o Guardião foi testado na repressão à  população palestina, tanto em Gaza, como na Cisjordânia. O Brasil importa um grande rol de equipamentos de Israel – do Guardião a armas não letais. Como no controle dos palestinos em Israel, o policiamento cotidiano no Brasil é também militar e ostensivo.

“Com a ideologia militar da polícia sendo a mesma do Exército, logo temos uma guerra contra a própria população”, explica João Militão, coordenador do Coletivo Construção e ativista do movimento negro.

“Quem compra esses itens, por menor que eles sejam, como uma granada de gás, compra também uma ideologia de que manifestações devem ser controladas”, conta a ativista israelense Sahar Vardi. Para ela, vivemos hoje em meio a guerras de conceitos que não se findam — terrorismo, combate às drogas, crime. Essa guerra oculta uma importante indústria, conectada mundialmente, que fornece ferramentas materiais e simbólicas da repressão

Os Tribunais Militares Israelenses — legais do ponto de vista do direito internacional — julgam centenas de processos contra insurgentes palestinos. “Cerca de 99,9% dos julgamentos são favoráveis à detenção dos palestinos”, relata Vardi. Muitas vezes, os palestinos, mesmo não tendo cometido crime algum, assumem a suposta culpa para garantir uma pena menor de prisão. 

A “guerra ao terrorismo” em Israel fez o país assumir um papel de liderança mundial no desenvolvimento de condutas e armamentos de militarização do cotidiano. Vardi, que foi presa por negar-se a servir o Exército — serviço obrigatório tanto para homens como mulheres — evidencia a militarização por parte de seu país. “Certamente alguém já ouviu que o Exército de Israel é o melhor do mundo. A razão por trás é de que Israel se especializou em táticas para controlar populações e manifestações, usando o povo palestino como material.”


Israel justifica seus atos como “combate ao terrorismo”, mas o direito internacional não comporta uma definição do que seria “terrorismo”. “Por conta dessa falta de definição, os Estados escolhem os seus para definir o que é terrorismo. E isso vai desde pessoas que lutam pela liberdade a pessoas que realmente praticam crimes”, explica Tarciso Dal Maso Jardim, especialista em Direito Internacional Humanitário e conselheiro do Senado. “Na verdade, todo mundo quer um terrorista pra si”, afirma.

O caso do Brasil

No Brasil, contudo, o que predomina não é a “guerra ao terrorismo”, mas, sim, “às drogas”. A população pobre e majoritariamente negra é a maior vítima. Conforme o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) a população carcerária no Brasil é de 726 mil pessoas. E 28% estão presas devido ao tráfico de drogas, dos quais 64% delas negras.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2018 mostram que o Brasil investiu cerca de 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em segurança no ano de 2017, o equivalente a  R$ 84 bilhões. Ao mesmo tempo, 63.880 pessoas morreram de forma violenta, um crescimento de quase 3% em comparação com 2016. Somente em decorrência de intervenções de policiais civis e militares, em serviço ou fora dele, cerca de 4.200 pessoas morreram.

 “Muitas das mortes causadas pela polícia são resultantes do exercício legítimo da função em defesa própria ou de terceiros. Mas muitas das mortes são execuções extrajudiciais, que em geral não são investigadas, e não levam à responsabilização dos envolvidos”, diz Maria Laura Canineu, diretora do Human Rights Watch Brasil (HRW).

Para o sociólogo Gabriel Feltran, que é diretor científico do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da Universidade de São Paulo, há “uma fronteira entre quem deve ser defendido pelo Estado e quem não deve. Por isso, as favelas e elites têm uma visão tão diferente da polícia e a polícia age de modo tão diferente nas favelas e nas elites”, explica o diretor.

O mesmo ocorre com os palestinos e israelenses. Ambos possuem visões distintas do problema, principalmente, os palestinos que trabalham em território vizinho.” A intenção dos governantes é simplesmente demonstrar poder e ordem, demandada por grande parte da sociedade”, diz Henrique Apolinario, assessor do programa de violência institucional da Conectas Direitos Humanos. “Sobretudo através do confronto direto e do número sempre crescente de prisões.”

(*) Evandro Almeida Jr. participou do 17º Curso de Informação sobre Jornalismo em Conflitos Armados e outras Situações de Violência, ministrado pela Oboré

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