Hoje na História: 1694 - Morre o poeta japonês Matsuo Bashô, mestre do haikai

Foi ele quem codificou e estabeleceu os cânones da tradicional forma poética

Max Altman

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Memorial em homenagem ao poeta japonês Matsuo Bashô, em Iga

Matsuo Bashô, samurai e poeta mais famoso do período Edo no Japão e considerado o primeiro e maior poeta japonês do estilo haikai (ou haiku), morre em Osaka no dia 28 de novembro de 1694. Sua poesia é reconhecida internacionalmente e, no Japão, muitos dos seus poemas são reproduzidos em monumentos e locais tradicionais. Foi ele quem codificou e estabeleceu os cânones do tradicional haikai japonês, forma poética caracterizada pela concisão o objetividade.

Nascido em Tóquio em 1644, Bashô, adotou a simplicidade tanto na vida como na criação poética. Foi introduzido à poesia em tenra idade e, depois de integrar-se na cena intelectual de Edo, rapidamente se tornou conhecido em todo o Japão. Ganhava a vida como professor, mas renunciou à vida urbana e social dos círculos literários e ficou inclinado a vagar por todo o país, rumo ao oeste, leste e distante ao deserto do norte para ganhar inspiração para seus escritos e haiku. Seus poemas são influenciados pela experiência direta do mundo ao seu redor, muitas vezes englobando o sentimento de uma cena em alguns poucos elementos simples.

O haikai deriva de uma forma anterior de poesia, em voga no Japão entre os séculos IX e XII, designada por tanka; tinha cinco versos, de cinco e sete sílabas, que tratavam temas religiosos ou ligados à corte. São dois os elementos de conteúdo, em não mais do que duas frases: uma percepção sensorial, particular e imediata, e uma percepção sugestiva de maior amplitude circunstancial ou semântica. A separação entre os dois elementos é feita por uma palavra ou sinal gráfico, o kireji.

No século XV, os muitos concursos de poesia “tanka” deram origem a um jogo de escrita de longos poemas: a primeira estrofe, de três versos com cinco, sete e cinco sílabas, era sugerida por um poeta e as restantes iam surgindo e associando-se, num jogo competitivo entre vários poetas. Este tipo de poesia era a renga, de temática clássica, e os primeiros três versos, os mais importantes, pois serviam de mote, designavam-se por hokku.

No século XVI, tornou-se mais popular o haikai-renga, de temática humorística.

Rapidamente a estrofe inicial de três versos acabou por se tornar uma forma independente de poesia. Mas só no século XIX, o mestre Masaoka Shiki lhe atribuiu um nome, haiku.

Enriqueceu o haikai, superando a artificialidade de poetas anteriores e tornando-o artistica e socialmente aceito. A par de poemas de carácter lúdico, começou a valorizar o papel do pensamento no haiku, imprimindo-lhe o espírito do budismo zen.

Versátil, os seus poemas sugeriam os mais variados estados de espírito: humor, depressão, euforia, confusão, propiciando uma consciência da grandiosidade da natureza humana. Este caminho / Ninguém já o percorre, / Salvo o crepúsculo. / De que árvore florida / Chega? Não sei. / Mas é seu perfume.

Shiki, crítico de Bashô, considerava que sua poesia carecia de pureza e tinha demasiados elementos explicativos: o haikai deveria ser a partilha de um momento e não a sua explicação, privilegiando a descrição visual e o estilo conciso.

O haikai é mais do que uma forma de poesia; é uma forma de ver o mundo. Cada haikai capta um momento de experiência; um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado, a natureza humana, a vida.

A percepção sensorial parte de um vocábulo associado a um elemento da natureza e, amiúde, às estações do ano. Não apresenta objetividade, mas a subjetividade expressa provém sempre de uma objetividade captada pelos sentidos. Uma sensação concreta – visual, auditiva, tátil – permite associações, sentimentos, memórias.

É uma forma de poesia breve, depurada, bela, simples e fluente. E também uma reação estética minimalista à crescente consciência humana do caos. Exige uma atenção aos mínimos eventos da natureza objetiva e imediata, uma permanente atitude de espanto diante do fenômeno da natureza.

De referir que, no Oriente, o conceito de união entre o homem e a natureza é diferente do ocidental: o homem também é a natureza, por isso, o conceito de união remete para aquele momento específico em que o homem reconhece essa natureza a que ele também pertence.

O haiku foi absorvido por outras culturas e línguas, tendo ganho popularidade em diversas regiões do mundo durante o século XX, nomeadamente no Brasil, América, Canadá, França, Índia e alguns países dos Balcãs. Frequentemente designado por haikai pelos poetas de expressão portuguesa,  chegou ao Ocidente, quer pela via da imigração japonesa, quer pelo fascínio que o Oriente foi gradualmente exercendo sobre os ocidentais.

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