Meu medo era não saber quem foram meus pais, diz 'Guido' após encontro com avó na Argentina

"Guido" é o 114º neto encontrado nos 36 anos de existência das Avós da Praça de Maio; ainda restam cerca de 400 jovens que seguem desaparecidos

Vanessa Martina Silva

“Esta é uma pequena vitória para uma grande derrota que tivemos na Argentina” nos anos sob uma ditadura militar, afirmou "Guido" Montoya Carlotto, neto de Estela de Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, desaparecido desde o nascimento, há 36 anos, e encontrado há dois dias. “Hoje [estou dando] a cara não somente para facilitar o trabalho [da imprensa], mas para que as pessoas possam ver que é verdade”. Assim, ele justificou a decisão de conceder uma entrevista coletiva nesta sexta-feira (08/08) para se apresentar após ter se reunido com toda a família na tarde de quinta (07/08).

Divulgação/ Facebook

No começo da tarde de hoje, Ignacio compartilhou uma foto com a avó, Estela de Carlotto

Para o músico, que, por 36 anos, foi Ignacio Hurban, "tornar-se" publicamente "Guido" – como é chamado pela família - foi uma decisão para estimular que outros jovens em situação semelhante possam fazer o mesmo.

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Dúvidas sobre identidade

O bebê que foi separado da filha de Estela cinco dias após o nascimento foi entregue a um casal de camponeses em Olavarría, a 308 quilômetros ao sul de Buenos Aires, onde foi criado. Ignacio tornou-se pianista, arranjador, compositor, mas sempre teve “ruídos na cabeça, borboletas de dúvidas”.

Agência Efe

Primeiro encontro ente neto e avó aconteceu na quinta-feira

Os questionamentos se transformaram em ações há 18 dias, quando resolveu procurar as Avós para fazer – voluntariamente – um teste de DNA e comprovar sua origem. Somente há dois meses, no aniversário, teve conhecimento de que não era filho de quem pensava ser. Esse processo “tem a ver com gerar consciência, buscar a reconstituição”.

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Durante conversa com a imprensa em Buenos Aires, "Guido comentou que “sempre fazia perguntas como  ‘de onde veio a paixão pela música’”. Isso porque “o meio em que me criei me destinava outras coisas. (…) Por que a pessoa está relacionada com arte se o meio em que vive não tem nada a ver com isso? (…) Então isso era um desses ruídos”.

Para "Guido", que disse ter sido “extremamente feliz durante toda a vida”, essa nova realidade soma-se a isso. “Querendo ou não, eu vou entrar para os livros de história. (…) Felizmente posso ajudar a construir a memória coletiva da Argentina”.

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Sobre a motivação de ter procurado recuperar parte de sua história, ressaltou que “é mais fácil buscar e encontrar”. O único medo que teve foi, segundo ele, ter que “enfrentar a incerteza de não encontrar. Meu medo era nunca saber quem foram meus pais”.

Busca pela verdade

Ignacio conclamou os demais jovens que têm dúvidas a fazer o mesmo. Guido é o 114º encontrado nos 36 anos de trabalho das Avós da Praça de Maio, mas ainda restam cerca de 400 desaparecidos.

"Guido" disse esperar que “toda essa situação que está ocorrendo hoje sirva para potencializar a busca” e que “todos entendam a importância de curar essas feridas que estão abertas há tempos. Eu tenho a sorte de fazer parte desse processo de cicatrização”.

Ouça a música "Para a Memória" composta por Guido:

A preocupação de "Guido" de incentivar a busca de outras pessoas já tem surtido efeito. O telefone da sede das Avós da Praça de Maio não parou de tocar desde que ele foi encontrado. Eram jovens que, como Ignacio, também passaram a ter dúvidas a respeito da origem e pensam que podem ser filhos de uma das militantes grávidas presas durante a ditadura militar do país.

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