Quinta-feira, 8 de outubro de 2026
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Estresse, ansiedade e medo é o que a população da região japonesa de Fukushima enfrenta por causa da incerteza sobre a radiação, mais de dois anos e meio depois de um tsunami arrasar a costa nordeste do Japão e causar o maior acidente nuclear dos últimos 30 anos.

“Desde o acidente, 57 mil pessoas abandonaram Fukushima, enquanto as que ficaram têm que conviver com a dúvida sobre sua decisão de ficar em um local não seguro, que causa estresse”, explicou à Agência Efe Tsuyoshi Akiyama, diretor do departamento de Psiquiatria do Hospital Kanto, em Tóquio.

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Akiyama participou na semana passada em Viena do Congresso Internacional da Associação Mundial de Psiquiatria, no qual palestrou sobre Fukushima. Além dos fenômenos relacionados à contaminação radioativa derivada do acidente, o governo japonês tem que lidar com um problema de saúde pública também difícil de detectar: o aumento de transtornos mentais.

“Para esquecer a ansiedade, muita gente bebe. As taxas de alcoolismo aumentaram radicalmente, e os que não bebem caem em depressão”, acrescentou Akiyama. Segundo o especialista, estes problemas vêm da “angústia” e do “medo” que as pessoas sentem, o que levou à “construção de um estigma” que marca a vida dos que ficaram na região.

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A incerteza sobre o risco que existe para os habitantes de Fukushima, o “perigo invisível” próprio de um acidente nuclear e a separação dos membros de várias famílias levaram muitas pessoas a sofrer com depressão e ansiedade.

“Muita gente vive episódios de estresse pelo medo de contaminar os outros, de comer alimentos de Fukushima e pelos rumores de que ninguém poderá sobreviver, além dos alertas para que as mulheres não tenham filhos”, disse o psiquiatra. “Este estigma, no final, acaba prejudicando a saúde”, ressaltou.

Junto com outros especialistas, Akiyama participa do “Projeto Fukushima”, um grupo de pesquisa financiado pelo governo japonês para estudar a saúde mental dos cidadãos da região e buscar soluções que “acabem com o problema”.

Diversos estudos afirmam que, após um desastre natural, a saúde mental das vítimas pode melhorar ou se agravar com o tempo dependendo do grau de resposta e de ajuda recebida para a recuperação. Em Fukushima, a situação atual não parece muito diferente da descrita pelos 1.495 trabalhadores da usina nuclear em um estudo realizado entre maio e junho de 2011 pela Academia Militar de Medicina do Japão.

Na época, 46,6% dos trabalhadores da usina nuclear apresentavam sintomas de estresse psicológico por terem sido obrigados a deixar seus imóveis, estado a ponto de morrer, visto as explosões de hidrogênio, e perdido os bens devido ao tsunami, além da morte de parentes e companheiros de trabalho.

Uma situação semelhante aconteceu após o acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, na Ucrânia, quando aumentaram em 20% as mortes ligadas à saúde mental durante o ano seguinte ao desastre, segundo uma pesquisa da psiquiatra Evelyn J. Bromet, da Universidade de Stony Brook (Nova York, EUA).

Estresse, ansiedade e medo é o que a população da região japonesa de Fukushima enfrenta por causa da incerteza sobre a radiação

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No relatório, Evelyn explicou que o número de casos de estresse pós-traumático após o desastre entre as pessoas que viviam e trabalhavam em áreas contaminadas duplicou por causa da exposição à radiação. Sobre Chernobyl, a Organização Mundial da Saúde chegou a advertir que “o impacto psicológico poderia superar as consequências radioativas diretas do acidente em termos de risco para a saúde”.

“Embora o aumento da ansiedade, o consumo de álcool e a depressão sejam fenômenos compartilhados com Chernobyl, a situação não é a mesma” em Fukushima, defendeu Akiyama. 

“Chernobyl aconteceu durante a era soviética, o acidente era um tabu e não se deixava que o povo falasse sobre o tema, enquanto no Japão sabemos o que houve e estimulamos as pessoas a falarem disso e tomarem consciência”, afirmou.

“Realizamos tratamentos com leituras de textos e oficinas de teatro para estimular os sentimentos dos participantes”, explicou. “Buscamos estabelecer uma metodologia razoável para ajudar os habitantes a conviver com essa ansiedade, que vai existir de todas maneiras, para que possam levar uma vida saudável e que os membros da comunidade se ajudem entre si”, destacou.

Apesar disso, o especialista garantiu que dentro de cinco ou dez anos os problemas mentais da sociedade não desaparecerão. Até esse momento “não haverá dados confiáveis sobre a incidência de câncer na população, por isso o medo continuará”, concluiu.

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