Ataque à democracia

Obra do artista Celso Sim e da arquiteta Anna Ferrari com referência a desaparecidos políticos
da ditadura é depredada na capital paulista

Luiza Villaméa | Brasileiros

A instalação Penetrável Genet/Experiência Araçá, que faz referência a desaparecidos da ditadura militar, foi vandalizada horas antes de sua inauguração, no domingo, dia 3. Criada pelo artista Celso Sim e pela arquiteta Anna Ferrari, a obra é parte da 10ª Bienal de Arquitetura e está montada no edifício do Ossário Geral do Cemitério do Araçá, em São Paulo.

Como resultado do ataque, de autoria ainda não identificada, dois monolitos de mármore, de 700 kg cada, foram derrubados e destruídos. “A obra de ficção foi atravessada pela realidade”, comentou Celso Sim, diante do ato.

Por causa do ataque, a abertura da instalação ao público teve que ser adiada para o dia 5. “Vamos deixar os mármores quebrados no chão, readaptar os filmes e incorporar o episódio à obra”, disse Anna Ferrari. Inspirados em trabalhos do artista brasileiro Helio Oiticica e do escritor francês Jean Genet, os criadores de Penetrável Genet/Experiência Araçá propõem aos visitantes uma reflexão sobre a memória e a morte, a partir de gravações e de projeções de imagens no interior do ossário. Lá, encontram-se 1.046 ossadas descobertas em 1990, em uma vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em Perus, onde presos políticos mortos por agentes da ditadura eram enterrados sem identificação.

“Os restos mortais descobertos em Perus estão em outra parte do ossário”, disse o deputado Adriano Diogo, presidente da Comissão Estadual da Verdade. “Ainda não sabemos o que motivou o ataque, mas, de qualquer forma, foi uma barbárie.” A comissão estava entre as instituições que, na véspera, organizara no local um ato ecumênico. Suspeita-se que o ato de vandalismo foi cometido durante a madrugada. Para liberar a entrada ao ossário, foram arrebentados dois cadeados. Esculturas que se encontraram sobre túmulos das imediações também foram derrubadas.

Penetrável Genet/Experiência Araçá

A visita à obra é gratuita e pode ser feita de terça-feira a domingo, até o dia 15 de dezembro, em sessões às 12, 13, 14, 15 e 16 horas, em grupos com até 15 pessoas. Basta chegar ao portão principal do Cemitério do Araçá, na Avenida Doutor Arnaldo, 666, em São Paulo, onde será fornecido um fone para ouvir gravações.

* Texto publicado originalmente no site da revista Brasileiros

Comentários