Grades que aprisionaram Mandela são transformadas em obras de arte na África do Sul

Cerca da prisão da Ilha Robben é resgatada do lixo por artistas e tem sido utilizada em instalações e até joias

Marianne Thamm | Daily Maverick

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Imagens via The Robben Island Fence Project

Chris Swift e a cerca recuperada

Este é o tipo de história que aciona o reflexo, escondido profundamente dentro de nós, que nos faz pensar "droga, queria que isso tivesse acontecido comigo". Em 2009, Chris Swift, artista da Cidade do Cabo, graduado na Escola de Arte Michaelis e criador de obras de arte a partir de objetos descartados, acompanhou seu sobrinho e alguns amigos em uma viagem educativa. Eles cruzaram de balsa o agitado trecho marítimo entre a Cidade do Cabo e a Ilha Robben a fim de visitar o patrimônio da UNESCO onde Nelson Mandela e outros prisioneiros políticos cumpriram a maior parte de suas penas no cárcere.

Swift, que é uma espécie de artista catador, já produziu obras a partir de molas de colchões, carteiras escolares, muletas, baldes e até mesmo preservativos. Ele "reinterpreta coisas às quais há muito tempo nenhum olhar se dirige".

Diferentemente do muro de Berlim, que foi desmontado diante de muitas câmeras televisivas, o descarte da grade original da Ilha Robben foi testemunhado apenas pelos incumbidos da tarefa de removê-las e substituí-las. O evento foi, como era de se supor, completamente irrelevante e bastante entediante.

Foi uma grande sorte que, enquanto Swift e seus companheiros se preparavam para deixar a ilha, seu olhar treinado passasse por várias pilhas de grades enferrujadas e esmagadas, que estavam sendo colocadas em uma caçamba. Certamente, se ele não tivesse visto toda aquela sucata, ela teria sido despejada no aterro sanitário de Vissershok, nos arredores da Cidade do Cabo, para onde estava sendo levada.

Naquele momento, Swift pensou: "Estes caras não vão jogar estas coisas fora, vão? Quer dizer, isto é Patrimônio UNESCO, não deveria ser permitido tirar sequer uma pedrinha da praia".

Após alguns telefonemas, o artista descobriu que as grades de três metros de altura cercavam o Bloco D da Prisão de Segurança Máxima, onde Nelson Mandela, Walter Sisulu, Govan Mbeki, Tokyo Sexwale, Kgalema Motlanthe, Jacob Zuma e pelo menos outros três mil prisioneiros políticos foram mantidos desde 1961, quando a Ilha Robben foi convertida em presídio.

As grades que Swift viu serem cortadas e enviadas para o continente como lixo circundavam a prisão, mas ele entendeu que elas estavam imbuídas de um significado mais profundo. As grades também foram uma testemunha muda da história, para não falar da miséria, do isolamento e das esperanças e sonhos murmurados de algumas das figuras históricas mais importantes do passado recente da África do Sul.

Carolina Ödman

As grades que encerraram Mandela e outros milhares de presos do Apartheid sul-africano

Swift diz que as autoridades ficaram satisfeitas em poder lhe dar as grades, para que ele próprio as removesse. Após enviá-las para a Cidade do Cabo, o artista as levou até uma oficina onde foram processadas e cortadas.

Ele usou partes da cerca em instalações artísticas públicas – uma obra com 118 fragmentos empilhados e intitulada "Coluna de Nelson" foi instalada em frente à prefeitura da Cidade do Cabo, em 2010. Posteriormente, criou uma versão mais leve da obra, usando andaimes junto da grade. Swift também construiu uma réplica da cela de Mandela, em tamanho real, intitulada "A caneta é mais poderosa do que a espada" e, em 2010, doou um pedaço da cerca ao Museu do Apartheid, em Johannesburgo.

Mais tarde, o artista criou o Robben Island Arts Company and Trust (RIACT), que age como "depositário" das grades. Alguns fragmentos foram incluídos em obras de Swift e de artistas como Marc Alexander e Chantelle Potgieter. O joalheiro Charmaine Taylor, da Cidade do Cabo, recebeu os direitos para a criação de joias feitas a partir de pedaços da grade, que são vendidas por valores entre 3000 e 7000 rands sul-africanos (644 a 1503 reais). Taylor, cultivando a visão de Mandela, doa parte dos lucros a uma ONG local de fazendeiros orgânicos, Abalimi Basekhaya.

Até o momento, os produtos derivados da cerca se mostraram muito populares. Dois mil medalhões de ouro comemorativos do Patrimônio Mundial da Ilha de Robben, acompanhados de dois pequenos pedaços autenticados da grade, disponibilizados pelo Scoin (a divisão de vendas da Bolsa Sul-Africana de Moedas de Ouro) foram vendidos em um único dia.

Em maio desse ano, o gabinete da presidência da África do Sul comprou obras de arte realizadas com pedaços da cerca e com a figura de Nelson Mandela pelo artista Marc Alexander, e as deu de presente a todos que compareceram na posse do presidente Jacob Zuma, no dia 24 de maio.

 

Mas o fato de que as grades da Ilha Robben tenham sido recicladas e vendidas como obras de arte e artigos de joalheria, capitalizando sobre a história recente da África do Sul e sobre a natureza icônica de alguns dos líderes retratados na obra, incluindo Desmond Tutu, Mandela, Albert Luthuli, Nkosi Johnson e (ousamos dizer) o ex-presidente FW De Klerk, não foi recebido com louvores unânimes.

Escrevendo para a City Press, o colunista Gugulethu Mhlungu argumentou: "É difícil não considerar o fato uma espécie de mercantilização de nossa história. Na verdade, é quase como uma pornografia do Apartheid, em que qualquer objeto associado à história da opressão é rapidamente transformado em dinheiro. Doentio."

Yvonne Johnston, ex-CEO da Brand SA, empresa que tutela a “marca” África do Sul, se uniu ao Robben Island Fence Project (Projeto da Cerca da Ilha Robben) como diretora de marketing em fevereiro deste ano. Ela discorda das opiniões negativas: "A pergunta que eu gostaria de fazer é: o que teria acontecido às grades se elas não tivessem sido recuperadas? A cerca é um pedaço de nossa história e de nossa herança. É algo de que nos deveríamos orgulhar, e usá-la para manter vivos o espírito, os valores e os ideais dos homens que foram presos na Ilha Robben", disse.

Johnston complementou que o projeto ainda é muito recente e brevemente será expandido, incluindo artistas emergentes que poderão vir a fazer parte do coletivo que, hoje, apresenta principalmente obras de Marc Alexander. Uma competição visando encorajar artistas mais jovens e menos estabelecidos seria realizada em breve.

 

 


Uma das peças vendidas no site do projeto

 

Além disso, diz ela, o projeto canalizaria 10% de suas receitas para a Fundação Awethu, que busca fomentar o empreendedorismo na África do Sul e que, de acordo com Johnson, "incorpora a visão de Madiba de uma África do Sul socialmente justa".

O fato de que a história possa ser transformada em artefatos vendáveis ou em souvenires kitsch para turistas não deve nos surpreender. O kitsch totalitário da antiga URSS é amplamente popular, assim como obras de arte políticas representando Mao Tsé-Tung.

Um site dedicado à venda de pedaços do Muro de Berlim, instalados sobre bases de madeira, promove-se da seguinte forma: "Celebre a vitória da liberdade sobre a tirania comunista com um genuíno pedaço do Muro de Berlim, instalado sobre uma base de nogueira com uma placa de bronze e um certificado de autenticidade numerado".

Foi Leon Trótski quem popularizou a expressão "a lata de lixo da história" – um local figurativo onde indivíduos, ideologias ou eventos seriam esquecidos ou marginalizados. Isso, é claro, muito antes de o capitalismo global desenvolver a capacidade de criar sentimentalismo histórico a partir de lixo, ou arte, ou qualquer outra coisa.

A questão relativa às grades, no entanto, é que elas são um objeto finito, há apenas certa quantidade disponível – o que, em um mundo regulado pela relação entre oferta e demanda, as torna um valoroso investimento. Além disso, não há como negar o valor sentimental de ter em mãos um objeto físico e tangível, representativo da história, à medida que os ícones que a criaram se vão.

Mandela teria aprovado? Provavelmente sim, desde que as pessoas que se beneficiam das grades ajudassem a socorrer as que foram deixadas para trás.

 

Tradução: Henrique Mendes

Matéria original publicada no site Daily Maverick, que traz notícias e textos de opinião produzidos por sua redação em Johannesburgo, África do Sul.

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