Artista mineira Criola celebra cultura afro-brasileira através do grafite

Grafiteira registra em traços e cores os símbolos da resistência negra: 'se ensinarmos às crianças o valor e a riqueza das nossas raízes culturais, conexão com identidade brasileira vai ocorrer de maneira mais intuitiva'

Vanessa Cancian | Portal Namu

Athos Souza

A artista em frente a um de seus murais na capital mineira

As obras de Tainá Lima, conhecida como Criola, colorem as ruas de Belo Horizonte e fortalecem o movimento negro na principal cidade de Minas Gerais. A jovem mineira começou a grafitar em junho de 2012. Sua arte expressa a história e os gritos de resistência da ancestralidade afro-brasileira contra o preconceito.

“Meu objetivo enquanto mulher negra e grafiteira é contrapor a publicidade que explora um padrão de beleza europeu e não retrata a realidade da miscigenação do povo brasileiro. Desejo honrar através dessa arte aqueles que um dia tiveram sua liberdade cerceada em razão da cor e acredito que é graças a eles que estou aqui hoje”, afirma a artista.

“Eu enxergo o grafite como um grito da cidade. Em meio ao caos urbano ele vem para contrapor a cor cinza, transmutando a rotina intensa dos transeuntes em cores”, relata. Ela destaca que, nesse sentido, o grafite é uma arma poderosa na contraposição dos padrões estéticos que não condizem com a beleza real das mulheres brasileiras.

“Na medida em que a representatividade dos negros aumenta em todas as áreas e segmentos, os estereótipos se enfraquecem”, completa a artista.

Gabriella Soares

“O grafite que eu faço apresenta formas e cores que, apesar de serem inofensivas à primeira vista, carregam consigo gritos de resistência que ecoam desde a época da escravidão”, diz Criola sobre os elementos que compõem seu traço artístico. O principal projeto da grafiteira é denominado “ORÍ, a raiz negra que sustenta é a mesma que floresce”.

A artista salienta a relevância de fazer uma arte que explore esses símbolos e mensagens. Segundo ela, a manifestação construída pelos negros na cidade legitima a busca pela quebra de estereótipos e preconceitos.

“‘Ori’ significa cabeça em iorubá. Para mim essa é a parte do corpo que melhor representa a ancestralidade africana” conta Criola. Segundo Patrícia Alves Matos, ialorixá do Ilê Asè Iya Mi Agba e educadora, ori representa também a essência daquilo que a pessoa é. “Falamos nessa tradição que se trata do primeiro orixá, aquele que não abandona o indivíduo onde quer que ele esteja. Eu costumo dizer que a palavra "orientar" vem do ori, pois é partir dele que temos consciência de quais caminhos seguir, para estar sempre firme nos seus princípios”, esclarece a sacerdotisa.

O projeto de Criola coloca em evidência o “irun” (cabelo), uma parte muito importante no universo da beleza feminina. “O cabelo crespo sempre foi alvo de preconceitos e agressões e o uso da chapinha é uma tentativa de ocultar a origem, a raiz e a história”, pontua a artista. De acordo com ela, por meio do cabelo se constrói uma metáfora com a raiz das plantas no sentido de crescer livre para ganhar força e florescer.

 

Reprodução Facebook

“O cabelo é uma das questões que mais mexem com as mulheres quando se trata da valorização da identidade”, aponta Alves Matos. “Nós sofremos muito com essa questão e acho legítimo o movimento do grafite chamar a atenção das pessoas para essa causa”, pontua. Ela diz que se trata de desfazer as amarras que nos prendem aos padrões. “Sempre ouvimos que é preciso alisar o cabelo para uma entrevista de emprego ou então quando a mulher quer se arrumar mais. Isso precisa mudar”, completa a ialorixá. 

“O nosso problema está relacionado não apenas com a identidade africana, mas com a brasilidade”, diz Alves Matos. Segundo ela, toda identidade brasileira se monta pelos padrões europeus e ela enxerga que tanto na educação quanto na vida cotidiana a população precisa construir com mais força essa personalidade. “Ainda estamos nesse processo que independe da cor da pele, dos diferentes tipos de cabelo e olhos”, diz.

A lei nº 10.639 de 2003 estabeleceu como obrigatório o ensino de história e cultura africana e indígena nas escolas. Ainda assim, o sistema educacional está se adaptando para trabalhar a temática que durante décadas ficou esquecida. “Hoje como educadores temos esse lugar privilegiado para tratar da diversidade, nessa formação de identidade”, pontua Matos. “É preciso que as pessoas estejam dispostas ao diálogo e esse é um trabalho de formação permanente”, completa a ialorixá.

Alexandre Keto / Reprodução Facebook

Detalhe de mural da artista em São Paulo

Com o tempo, diversas capitais brasileiras encaram a realidade e a transformação que o grafite traz para o ambiente urbano. As cores e as mensagens passadas pelas imagens nos mais diferentes locais colocam o Brasil na cena internacional dessa manifestação artística. Criola conta que na capital mineira ainda não há muita liberdade para os grafiteiros: “Belo Horizonte é uma cidade conservadora e tradicionalista em várias áreas e nas artes não seria diferente”, relata a artista. Segundo ela, BH está atrasada nesse assunto quando comparada com São Paulo e Rio de Janeiro.

“Recentemente fiz um projeto de mural na área central da cidade e como a pintura demandaria alguns dias eu não poderia fazer sem autorização, que é o que normalmente faço. Além da autorização do proprietário do muro eu ainda tive que pedir autorização à prefeitura e só consegui de fato a licença depois de vários meses de tentativa”, relata Criola sobre a burocracia relacionada ao grafite na cidade. Segundo ela, ainda falta investimento e posicionamento do governo local, além de mais abertura de diálogo sobre as questões relacionadas a essa forma de expressão.

Criola também vê a educação como instrumento para quebrar preconceitos e fortalecer a identidade brasileira. “Se ensinarmos as crianças o valor e a riqueza das nossas raízes culturais brasileiras, acredito que essa conexão com a identidade vai ocorrer de maneira mais intuitiva”, destaca a artista.

Para a ialorixá, “temos de aprender que a beleza está nas diferenças”. Ela indica que abrir espaço para trabalhos que valorizem o patrimônio cultural pode ajudar para uma melhor compreensão desse tipo de arte, que para ela é uma importante forma de resistência.

 

Matéria original publicada no Portal Namu, que se dedica a conteúdos que inspirem mudanças na sociedade. 

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