Gastronomia contra o golpe: profissionais da área repudiam decisão de Temer de cortar verba para alimentação de Dilma

Em nota, eles afirmam que ato do presidente interino os sensibilizou pela 'mesquinhez' e 'mediocridade'; segundo texto, atitude é 'relegar à indigência a democracia e a inteligência no Brasil'

Redação

Profissionais ligados à área da gastronomia criticaram nesta quinta-feira (09/06) a decisão do presidente Michel Temer de cortar a verba de alimentação da presidente afastada Dilma Rousseff.

Roberto Stuckert Filho/PR

Em manifesto, profissionais da áreea da gastronomia afirmam que um dos méritos da gestão Lula-Dilma foi o de promover a ascensão social 

“O ato de cortar a comida de uma chefe de Estado, sua família e equipe nos sensibilizou não só por ser mesquinho, mas por ser medíocre”, dizem em um comunicado divulgado no Facebok. 

"Bem mais do que cortar a comida e direitos legítimos de uma presidente eleita", diz o texto, "trata-se de simbolicamente relegar à indigência a democracia e a inteligência no Brasil".

Eles expressam também repúdio ao processo de impeachment, que qualificam como “ruptura”. “O governo é provisório, mas os traumas, permanentes”, completam.

Leia a nota na íntegra:

Gastronomia contra o golpe

Tem panela, coxinha, mortadela e, agora, até racionamento de comida à presidenta eleita. Não faltam ingredientes gastronômicos indigestos na desastrosa receita política do Brasil de hoje.

Nós, representantes da gastronomia brasileira, não podíamos assistir a esse cenário de ruptura da ordem constitucional democrática sem manifestar nossa profunda tristeza e indignação.

Representantes de um setor que gera seis milhões de empregos diretos em todo o país e que é a porta de entrada no mercado de trabalho para muitos brasileiros, sejam como estagiários, cumins ou garçons, até pesquisadores, jornalistas da cultura gastronômica, chefs, empresários do setor de alimentos e bebidas, restaurateurs, apaixonados pela gastronomia, que vivem dela ou por ela, vimos manifestar o nosso repúdio a essa ruptura por que passa hoje o Brasil.

O governo é provisório, mas os traumas, permanentes. Nossa jovem democracia sofre um de seus mais duros golpes e exige de todos coerência e compromisso históricos. Uma presidente legitimamente eleita por 54,5 milhões de votos está afastada sob um pretexto ininteligível para a maioria dos mortais, as pedaladas fiscais. Empréstimos contábeis que seus antecessores e dezenas de governadores cometeram e cometem, mas que só são crimes porque, para a presidente, a lei parece ter outro peso. Justiça com pesos diferentes não é Justiça, é vingança, é golpe. A maioria dos congressistas não faz ideia do que seja “pedalada fiscal” e recorre ao “conjunto da obra” para justificar o impeachment, como se fizesse parte de um júri de menu-degustação. Um pastelão que nos envergonha mundo afora.

Ao arrepio da lei, sob o argumento falso-moralista de “crime de responsabilidade”, a presidente foi substituída por um vice ficha-suja e inelegível, cuja postura é completamente incompatível com a que se espera de um companheiro de chapa, e por um ministério (em sua totalidade, formado por homens e brancos, um retrocesso que não se via desde o governo Geisel), cuja idoneidade não resiste a uma simples pesquisa no Google. Assistimos, atônitos, ao BBB do governo interino, com uma queda por semana.

O ato de cortar a comida de uma chefe de Estado, sua família e equipe nos sensibilizou não só por ser mesquinho, mas por ser medíocre. Um dos inegáveis méritos da gestão Lula-Dilma foi o de promover a ascensão social. Segundo a própria ONU, Lula e Dilma tiraram o Brasil do mapa da fome, dando dignidade mínima a 36 milhões de brasileiros. E foi justamente a essa chefe de Estado, gestora do Fome Zero, que o presidente interino negou comida, num gesto totalitário, anticonstitucional e incompatível com o de um vice de um projeto vitorioso nas urnas.

Trata-se bem mais do que cortar a comida e direitos legítimos de uma presidente eleita, trata-se de simbolicamente relegar à indigência a democracia e a inteligência no Brasil. A indignação inspirou esse movimento de “alimentar a democracia”. A gastronomia, que nutre, agrega, reúne famílias, amigos e até inimigos em torno de uma mesa, que é capaz de promover a paz, também se une em defesa da democracia.

Este é um manifesto apartidário, assinado por fãs de coxinha e de mortadela, de Cuba e de mojitos, de café, fé e wi-fi, do boteco-pé-sujo ao restaurante 3 estrelas, do vermelho (símbolo da Revolução Francesa e de tudo o que ela inspira até hoje) e do verde-e-amarelo, petistas e não petistas, eleitores de Dilma Rousseff ou não, eleitores com graves críticas ao governo da presidente, mas que sabem que impeachment não é solução, é consequência. Em comum: somos contrários ao ódio de classe, à intolerância e à histeria coletiva que tomou conta do país, temos amor ao Brasil e a convicção de que democracia só se cura com mais democracia.

Assinam:

1. Adalberto Ribeiro –Sócio da Grill Burger de Bragança (PA)

2. Airton Eré – Bartender da Malabar Drinks Artísticos (Florianópolis, SC)
3. Alexandre Bussab – Sócio do Raiz Forte Bar e Eventos (RJ)
4. Aline Lockmann de Azevedo Gomes – Jornalista (SP)
5. Ana Rojas – ¬ Jornalista de gastronomia (Brasil/Reino Unido)
6. Ana Candida Ferraz – Chef de sala (SP)
7. Analice Souza – Socióloga e chefe de bar do Oliver Art Bar (Belo Horizonte, MG)
8. Annete Alves – Barista (Buenos Aires, Argentina)
9. Bel Coelho – Chef de cozinha do Clandestino (SP)
10. Bianca Barbosa – Chef (RJ)
11. Caio Zakia – Cozinheiro (SP)
12. Carmem Virginia – Chef-proprietário do Altar Cozinha Ancestral (SP)
13. Carolina Ronconi – Fundadora do blog Meninas no Boteco (SP)
14. Caroline de Azevedo – Cozinheira (SP)
15. Cilmara Bedaque – Jornalista do blog Lupulinas (SP)
16. Danilo Lodi – Barista, torrador de café e juiz internacional (SP)
17. Dora Gil – Gerente de restaurante (SP)
18. Edson Pivoto – Gerente de restaurante (SP)
19. Elia Schramm – Chef (RJ)
20. Eliza D. Teixeira – chef e pesquisadora (Brasil/EUA)
21. Fel Mendes – Jornalista da revista Rabo de Galo e incubador da abelha (SP)
22. Felipe Jannuzzin – Idealizador do Mapa da Cachaça (SP)
23. Flávia Pogliani – Barista (SP)
24. Gabriel Cavalcante – Cantor e gourmet (RJ)
25. Gabriel Torres – Barista do Por um Punhado de Dólares (SP)
26. Gabriella Kerber – Chef de cozinha (SP)
27. Giovanni Assante – Proprietário das massas Gerardo di Nolla (Nápoles, Itália)
28. Guga Rocha – Chef e apresentador de TV (Brasil/Canadá)
29. Gisele Coutinho – Barista do Pura Caffeina (SP)
30. Guilherme Schwinn – Chef e sommelier (SC)
31. Hanny Guimarães – Especialista em chás (SP)
32. Izabela Tavares –Padeira (SP)
33. João Grinspum Ferraz – Historiador, cientista político e proprietário da Casa do Carbonara (SP)
34. Juliana Gelbaum – Barista do Por um Punhado de Dólares (SP)
35. Kátia Barbosa – Chef (RJ) 36. Lais Duo – Chef de cozinha (SP)
37. Luciana Berry – Chef (Brasil/Reino Unido)
38. Luciana Bianchi – Jornalista de gastronomia e chef (Reino Unido/Brasil)
39. Luciano Salomão – Barista e mestre de torra de café (SP)
40. Maira Marques – Bartender (Fortaleza, CE)
41. Marcelo Cury – Médico e jornalista de gastronomia (SP)
42. Marco de la Roche – Mixologista, editor do Mixology News e da revista Rabo de Galo (SP)
43. Marcos Tomsic – Barista do Por um Punhado de Dólares (SP)
44. Marilia Zylbersztajn – Confeiteira (SP)
45. Pedro Marques – Jornalista e pesquisador de gastronomia (SP)
46. Priscila Sabará – Criadora do FoodPass (SP)
47. Rafael Mariachi – Mixologista (SP)
48. Raphael Criscuolo – Fotógrafo (SP)
49. Ricardo Pieralini – Jornalista (SP)
50. Roberta Malta – Jornalista (SP)
51. Roberto Hundertmark – Chef de cozinha (Belém - PA)
52. Robinho Bernardo – Barista do Por um Punhado de Dólares (SP)
53. Rodolfo Bob – Gastrônomo e mixologista diretor de OBarVirtual (SP)
54. Sérgio Crusco – Jornalista gastronômico (SP)
55. Sheila Grecco – Jornalista, historiadora, RP na área gastronômica (SP)
56. Tabata Magarão – Sócia do Raiz Forte Bar e Eventos (RJ)
57. Tainá Hernandes – Confeiteira (SP)
58. Thiago Ceccotti – Bartender e consultor de bar da Ducktails (Belo Horizonte, MG)
59. Thiago dos Santos – Bartender e idealizador da Samba Nego (SP)
60. Thiago Flores – Chef do Circo Voador (RJ)
61. Thiago Rosas – Restaurateur (PA)
62. Thiago Tavares – Empreendedor e cachacier (SP)
63. Thianny Estevam – Bartender do Zazá Bistrot (RJ)
64. Tony Harion – Diretor da Mixing Bar (SP)
65. Túlio Silva – Jornalista gastronômico do PenseComida (SP)
66. Victor Camerlingo – Barista do Por um Punhado de Dólares (SP)

 

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