No Le Monde, Lula diz liderar pesquisas 'porque brasileiros sabem que país pode melhorar'

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Na coluna, escrita em primeira pessoa e assinada por Lula, o ex-presidente diz ter certeza que pode dar ao governo brasileiro toda a credibilidade necessária e trabalhar em prol dos interesses do povo

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Em coluna publicada nesta quinta-feira (16/05) no jornal Le Monde, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva explica porque ele é candidato à reeleição no Brasil. "Não cometi nenhum crime e sei que posso fazer com que o país retome o caminho da democracia e do desenvolvimento", escreve o líder petista.


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Na coluna, escrita em primeira pessoa e assinada por Lula, o ex-presidente diz ter certeza que pode dar ao governo brasileiro toda a credibilidade necessária e trabalhar em prol dos interesses do povo. "Sou candidato para dar dignidade aos pobres e excluídos, garantir seus direitos e a esperança de uma vida melhor", diz Lula.

O líder petista também explica sua trajetória aos leitores do Le Monde, salientando que, apesar das dificuldades que viveu, "aprendeu a nunca desistir". Em um país sem eleições diretas, sem direitos sindicais e políticos - em plena ditatura militar - foi criado o Partido dos Trabalhadores, em prol da democracia, relembra. Depois de perder três eleições consecutivas, "provei, com o povo, que alguém de origem modesta poderia ser presidente", escreve, salientando que, o índice de aprovação de seu governo, 87%, é a mesma de rejeição do atual presidente brasileiro, "que não foi eleito".

Lula também enumera as vitórias de seus governos, como a maior inclusão social da história do país. "Tiramos da extrema miséria 36 milhões de pessoas e permitimos 40 milhões a aceder a classe média". A façanha levou ao Brasil um prestígio internacional excepcional, segundo o ex-presidente, que lembra que em 2009, o próprio Le Monde o designou como "homem do ano", que não foi percebido como um mérito pessoal, "mas uma marca de reconhecimento da sociedade brasileira".

Sob o governo no PT, Lula relembra que o Brasil agiu na cena internacional para estimular a defesa do meio ambiente e a luta contra a fome. "Fui convidado a todas as reuniões do G8 e ajudei na articulação do G20. Participei da criação dos Brics e da Unasur", salienta comparando à situação do país atualmente. "Hoje o Brasil se tornou no pária da política estrangeira. Os líderes internacionais evitam visitar o país."

Ricardo Stuckert

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Campanha de difamação

A situação é outra hoje, reitera o líder petista, que se diz vítima de uma campanha de difamação por parte da "mais poderosa sociedade de imprensa brasileira e setores judiciários". Segundo o ex-presidente, os recuos democráticos e o prolongamento da crise econômica fazem com que a população sofra com o desemprego, diminuição dos salários, aumento do custo de vida e descontrução dos programas sociais.

Mesmo na prisão, Lula ressalta que domina as pesquisas de intenção de voto, "porque os brasileiros sabem que o país pode melhorar". Afirmando ser perseguido pelo judiciário, o ex-presidente reclama que sua casa e a de seus filhos foram vasculhadas, suas contas bancárias pessoais e do Instituto Lula foram revistadas, "mas eles não encontraram nenhuma prova contra mim, nenhum crime a me atribuir".

Lula explica que os doze anos de prisão por "fatos indeterminados" foram determinados por um "juiz parcial", que alega que o líder petista é proprietário de um apartamento no qual jamais dormiu, foi proprietário ou sequer tinha as chaves. "Para tentar me impedir de disputar as eleições ou fazer campanha por meu partido, eles tiveram que ignorar os parágrafos da Constituição brasileira", ressalta.

Luta pela inocência

O ex-presidente promete na coluna que continuará o combate para provar sua inocência e conservar seus direitos políticos. "Como presidente, defendi, de todas as formas, a luta contra a corrupção e não aceito que me atribuam esse tipo de crime por meio de uma farsa judiciária", reitera.

O líder petista também salienta que as eleições de outubro só serão democráticas se todas as forças políticas puderem participar de maneira livre e justa. Segundo ele, este é o momento para que o Brasil debata seus problemas e defina seu futuro de maneira democrática, pelo voto, "como uma nação civilizada".

Lula afirma que não estava em seus planos concorrer novamente à presidência, mas resolveu encarar o desafio diante "do desastre que se abate sobre o povo brasileiro". Segundo ele, sua candidatura é uma proposta para que o Brasil reencontre o caminho da inclusão social, do diálogo democrático, da soberania nacional e do crescimento econômico justo e solidário. O ex-presidente finaliza prometendo "um país que voltará a se tornar referência no discurso mundial como defensor da paz e da cooperação entre os povos".

Leia a íntegra do artigo de Lula:

Sou candidato a presidente do Brasil, nas eleições de outubro, porque não cometi nenhum crime e porque sei que posso fazer o país retomar o caminho da democracia e do desenvolvimento, em benefício do nosso povo. Depois de tudo que fiz como presidente da República, tenho certeza de que posso resgatar a credibilidade do governo, sem a qual não há crescimento econômico nem a defesa dos interesses nacionais. Sou candidato para devolver aos pobres e excluídos sua dignidade, a garantia de seus direitos e a esperança de uma vida melhor.

Na minha vida nada foi fácil, mas aprendi a não desistir. Quando comecei a fazer política, mais de 40 anos atrás, não havia eleições no País, não havia direito de organização sindical e política. Enfrentamos a ditadura e criamos o Partido dos Trabalhadores, acreditando no aprofundamento da via democrática. Perdi 3 eleições presidenciais antes de ser eleito em 2002. E provei, junto com o povo, que alguém de origem popular podia ser um bom presidente. Terminei meus mandatos com 87% de aprovação popular. É o que o atual presidente do Brasil, que não foi eleito, tem de rejeição hoje.

Nos oito anos que governei o Brasil, até 2010, tivemos a maior inclusão social da história, que teve continuidade no governo da companheira Dilma Rousseff. Tiramos 36 milhões de pessoas da miséria extrema e levamos mais de 40 milhões para a classe média.  Foi período de maior prestígio internacional do nosso país. Em 2009, Le Monde me indicou “homem do ano”. Recebi estas e outras homenagens, não como mérito pessoal, mas como reconhecimento à sociedade brasileira, que tinha se unido para a partir da inclusão social promover o crescimento econômico.

Sete anos depois de deixar a presidência e depois de uma campanha sistemática de difamação contra mim e meu partido,  que reuniu  a mais poderosa imprensa brasileira e setores do judiciário, o momento do país é outro: vivemos retrocessos democráticos, uma prolongada crise econômica, e a população mais pobre sofre, com a redução dos salários e da oferta de empregos, o aumento do custo de vida e o desmonte de programas sociais.

A cada dia mais e mais brasileiros rejeitam a agenda contra os direitos sociais do golpe parlamentar que abriu caminho para um programa neoliberal que havia perdido quatro eleições seguidas e que é incapaz de vencer nas urnas. Lidero, por ampla margem, as pesquisas de intenções de voto no Brasil porque os brasileiros sabem que o país pode ser melhor.

Lidero as pesquisas mesmo depois de ter sido preso em consequência de uma perseguição judicial que vasculhou a minha casa e dos meus filhos, minhas contas pessoais e do Instituto Lula, e não achou nenhuma prova ou crime contra mim. Um juiz notoriamente parcial me condenou a 12 anos de prisão por “atos indeterminados”. Alega, falsamente, que eu seria  dono de um apartamento no qual nunca dormi, do qual nunca tive a propriedade, a posse, sequer as chaves. Para me prender, e tentar me impedir de disputar as eleições ou fazer campanha para o meu partido, tiveram que ignorar a letra expressa da constituição brasileira, em uma decisão provisória por apenas um voto de diferença entre 11 na Suprema Corte.

Mas meus problemas são pequenos perto do que sofre a população brasileira. Para tirarem o PT do poder após as eleições de 2014, não hesitaram em sabotar a economia com decisões irresponsáveis no Congresso Nacional e uma campanha de desmoralização do governo na imprensa. Em dezembro de 2014 o desemprego no Brasil era 4,7%. Hoje está em 13,1%.

A pobreza tem aumentado, a fome voltou a rondar os lares e as portas das universidades estão voltando a se fechar para os filhos da classe trabalhadora. Os investimentos em pesquisa desabaram.

O Brasil precisa reconquistar a sua soberania e os interesses nacionais. Em nosso governo, o País liderou os esforços da agenda ambiental e de combate à fome, foi convidado para todos os encontros do G-8, ajudou a articular o G-20, participou da criação dos BRICS, reunindo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e da Unasul, a União dos países da América do Sul. Hoje o Brasil tornou-se um pária em política externa, que os líderes internacionais evitam visitar, e a América do Sul se fragmenta, com crises regionais cada vez mais graves e menos instrumentos diplomáticos de diálogo entre os países.

Mesmo a parte da população que apoiou a queda da presidenta Dilma Rousseff, após intensa campanha das Organizações Globo, que monopolizam a comunicação no Brasil, já percebeu que o golpe não era contra o PT. Era contra a ascensão social dos mais pobres e os direitos dos trabalhadores. Era contra o próprio Brasil.

Tenho 40 anos de vida pública. Comecei no movimento sindical. Fundei um partido político com companheiros de todo o nosso país e lutamos, junto com outras forças políticas na década de 1980, por uma Constituição democrática. Candidato a presidente, prometi, lutei e cumpri a promessa de que todo o brasileiro teria direito a três refeições por dia, para não passar fome que passei quando criança.

Governei uma das maiores economias do mundo e não aceitei pressões para apoiar a Guerra do Iraque e outras ações militares. Deixei claro que minha guerra era contra a fome e a miséria. Não submeti meu país aos interesses estrangeiros em nossas riquezas naturais.

Voltei depois do governo para o mesmo apartamento do qual saí, a menos de 1 quilômetro do Sindicato dos Metalúrgicos do da cidade de São Bernardo do Campo, onde iniciei minha vida política. Tenho honra e não irei, jamais, fazer concessões na minha luta por inocência e pela manutenção dos meus direitos políticos. Como presidente, promovi por todos os meios o combate à corrupção e não aceito que me imputem esse tipo de crime por meio de uma farsa judicial.

As eleições de outubro, que vão escolher um novo presidente, um novo congresso nacional e governadores de estado, são a chance do Brasil debater seus problemas e definir seu futuro de forma democrática, no voto, como uma nação civilizada. Mas elas só serão democráticas se todas as forças políticas puderem participar de forma livre e justa.

Eu já fui presidente e não estava nos meus planos voltar a me candidatar. Mas diante do desastre que se abate sobre  povo brasileiro, minha candidatura é uma proposta de reencontro do Brasil com o caminho de inclusão social, diálogo democrático, soberania nacional e crescimento econômico, para a construção de um país mais justo e solidário, que volte a ser uma referência no diálogo mundial em favor da paz e da cooperação entre os povos.

Publicado em Rfi

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