As argentinas e seus lenços verdes estão fazendo uma revolução

Congresso vota nesta quarta-feira o projeto de despenalização do aborto e a maré por sua aprovação parece irreversível, apesar da forte pressão da Igreja Católica e de outros grupos conservadores

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Um pequeno triângulo de tecido verde se tornou acessório recorrente na Argentina. Adornou pescoços, cabeças e punhos. Estampou capas de revista e apareceu em programas de televisão. Cruzou fronteiras, acendeu curiosidades. E se consolidou como o símbolo oficial da luta pela despenalização do aborto, sem restrições, até a 14ª semana de gestação.


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O buchicho é geral. Não se fala de outra coisa por lá. Viralizou mesmo. E agora chegou a hora da verdade: o Congresso vota nesta quarta-feira o projeto e a maré por sua aprovação parece irreversível, apesar da forte pressão da Igreja Católica e de outros grupos conservadores. O presidente Mauricio Macri, que é de direita, já disse que não irá vetar. Tudo indica que o aborto legal, seguro e gratuito será uma realidade.

Leia também: Saiba como o aborto é regulamentado em sete países

Fascina ver como uma demanda histórica do movimento feminista global conseguiu avançar tanto nas ruas e — sobretudo — nas redes argentinas. O uso do lenço verde e o boom da campanha #NiUnaMenos foram elementos fundamentais para isso, como conta a comunicadora e ativista pró-aborto Laura Salomé Canteros, uma das responsáveis por impulsionar essa onda. Nesse bate-papo curtinho, ela deu um panorama do momento atual no país e na campanha, sinalizando alguns caminhos importantes que podem ser percorridos em tempos de luta feminista 2.0.

Acompanhe a sessão, ao vivo:

Por que a votação acontece agora, nesse momento da história argentina?
Lau: Parece ser uma confluência de muitos fatores. Em primeiro lugar, é preciso pontuar que se trata de uma luta histórica. A campanha nacional pelo direito ao aborto completou 13 anos em 28/05. Tem também a ver com o que chamamos de “despenalização social”, ou estar lutando com argumentos durante muito tempo antes de chegar ao Congresso, em diferentes espaços: universidades, escolas, no Direito, na Comunicação. É estar há 13 anos falando de um tema e agora colher os frutos.

Por outro lado, tem a ver como o movimento, que o que fez foi massificar o movimento de mulheres, incluindo as lésbicas, travestis e trans. Ele foi se aprofundando, ampliando seus debates. Em seguida, passamos de falar somente de feminicídio para incluir na agenda pública quais são nossas propostas de mudança. A última manifestação do #NiUnaMenos demonstrou a força do movimento com essa foto imensa, gigante, de todas com os lenços verdes para o alto, na praça em frente ao Congresso.

Por fim, também conseguimos de alguma forma ultrapassar os obstáculos e chegar ao Congresso por meio de uma vontade política, não necessariamente do Poder Executivo, mas sim de muitas deputadas de diferentes blocos que se sentem identificadas com o que acontece fora, nas ruas, e que estão levando disputas importantes a seus próprios partidos. Houve uma confluência, onde todas nós estivemos por todos os lados escutando e pressionando por esse direito. Justamente por causa dessa demanda social crescente se pôde chegar à vontade política. Para que se debatesse o tema no interior do Congresso.

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Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito/Reprodução

Argentinas e seus lenços verdes: símbolo da luta pela despenalização do aborto

Qual foi o papel das redes sociais no debate? De que forma as redes o influenciaram? 
Lau: As redes foram fundamentais num sentido estratégico. Se tratou de hackear a agenda midiática e dizer: “aqui estamos”. E visibilizar tudo o que fazemos no território. Em cada estado (província) da Argentina, há uma representante da campanha nacional. É uma articulação federal, de construção feminista horizontal. A tarefa que nos impusemos foi a de usar as redes como uma ferramenta para hackear a agenda midiática e chegar até a política. Nós acreditamos que ações de massa como os tuitaços ajudaram nisso. Começamos a posicionar elementos que sustentavam nossa exigência pelo direito ao aborto e com isso nos levaram mais em conta. Uma vez nos meios, fomos com tudo e conseguimos eliminar o silêncio ao redor da necessidade de que se trate o aborto livre no Congresso.

E o lenço foi essencial nisso. Há uma semana emitimos um comunicado ressaltando como, novamente na história do nosso país, um lenço nos irmana. Nós estamos levando essa luta porque ontem foram as Mães e as Avós [da Praça de Maio] que levaram seu lenço branco a público. No começo, a cor não tinha significado especial. Mas hoje é diferente. Para nós, que estamos numa geração intermediária, é muito emocionante ver meninas jovens usando o lenço por aí. Usando-o nas escolas, nas salas de aula. Virou um código, um sinal de que existe alguém de confiança ali, uma companheira. A cumplicidade de que estamos lutando pela mesma coisa.

As redes seguem sendo nossa ferramenta fundamental, não somente porque nos permite ampliar e democratizar a luta — nossos argumentos, quem são as protagonistas etc — , mas também é nossa via de comunicação e organização. Quando há um aviso de tuitaço, nos dedicamos totalmente a isso, nos debruçamos em estratégias de viralização. Mais recentemente ficamos muito emocionadas durante a celebração na Irlanda, onde o verde também predominou e dissemos que queríamos festejar assim. Ficou comprovado que é uma luta histórica global. Posicionamos recentemente também personalidades que podem influenciar e pressionar deputados e deputadas que ainda não decidiram seu voto. Estamos conseguindo.

(*) Publicado em Medium

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